Eva narrando.
Eu fico parada na cozinha por um tempo depois que Gael termina de comer, como se o corpo ainda não tivesse entendido que ele já saiu, como se alguma parte de mim esperasse que ele voltasse pela porta e dissesse mais alguma coisa, qualquer coisa, nem que fosse só um detalhe pequeno que me desse algum tipo de certeza.
Mas ele não volta.
Ele sai como sempre, direto, decidido, com aquele jeito dele de quem já tem o dia inteiro resolvido na cabeça, sem olhar para trás, sem se despedir, sem dizer se retorna mais tarde ou se vai passar o resto do dia fora, e principalmente sem dizer o que decidiu sobre mim. E é exatamente isso que começa a crescer dentro do meu peito, devagar, como um frio que se espalha sem pressa, mas também sem ir embora.
Eu continuo ali por alguns segundos, parada, olhando para a mesa ainda com o prato dele, tentando organizar o que estou sentindo, mas não consigo.
Então começo a recolher as coisas.
Pego o prato com cuidado, depois o copo, os talheres, levo tudo até a pia e começo a lavar como sempre fiz, com atenção, esfregando direitinho, enxaguando, secando, colocando cada coisa no lugar certo, como se aquele gesto simples pudesse me acalmar.
Mas não acalma.
Porque minha cabeça não está ali.
Minha cabeça volta, o tempo todo, para a mesma frase.
“Eu preciso pensar.”
Eu repito isso em silêncio enquanto passo o pano na louça, como se tentar entender o peso dessas palavras fosse me dar alguma resposta.
Pensar.
Pensar em quê?
Pensar se eu posso ficar.
Pensar se eu posso trabalhar.
Pensar se eu mereço estar aqui.
Pensar se eu sou um problema.
Pensar se eu sou alguém que pode ser mantida… ou descartada.
Eu engulo seco, sentindo a garganta apertar um pouco, porque dessa vez eu não consigo afastar o pensamento que vem logo depois.
E se ele decidir que não?
A pergunta surge inteira, clara, sem espaço para distração, e eu paro no meio do movimento, ainda com o prato nas mãos, olhando para a água escorrendo pela pia como se ela pudesse levar essa dúvida embora.
Mas não leva.
Ela só fica.
Se ele disser que não… se ele decidir que eu não posso ficar ali, que eu não sirvo para aquele lugar, que não precisa de mim…
Para onde eu vou?
Eu não tenho casa para voltar.
Não tenho família esperando.
Não tenho dinheiro guardado.
Não tenho ninguém que me conheça fora dali.
Eu aperto os dedos no pano sem perceber, como se precisasse me segurar em alguma coisa.
Mas eu posso trabalhar.
Isso eu sei.
Isso é a única coisa que eu tenho certeza.
Eu sei cozinhar, limpar, organizar, cuidar, servir, fazer tudo que for preciso sem reclamar, sem exigir nada, eu não preciso de conforto, não preciso de luxo, nunca precisei, eu só preciso de um lugar onde eu possa ficar sem medo, onde eu possa existir sem ser castigada por isso, sem ser olhada como se eu fosse um erro.
Meu peito aperta mais forte com esse pensamento, como se alguma coisa dentro de mim estivesse pedindo, implorando, mesmo que eu não diga em voz alta.
Eu fecho os olhos por um instante, respirando fundo.
— Eu consigo… — eu sussurro, quase sem som, mais para mim do que para qualquer outra coisa — eu consigo sim.
Eu tento acreditar nisso enquanto falo.
Tento me apoiar nessa ideia.
Mas a dúvida ainda está ali.
E o medo também.
Eles não vão embora só porque eu disse que consigo.
Eu seco as mãos devagar, passando o pano com cuidado, tentando ganhar tempo, tentando acalmar o coração, e então olho ao redor da cozinha como se, de alguma forma, aquele lugar pudesse me dar uma resposta, como se aquelas paredes, aquele fogão, aquela mesa pudessem me dizer o que vai acontecer comigo.
Mas não dizem nada.
Fica tudo em silêncio.
E eu continuo sem saber.
Então eu faço a única coisa que sempre funcionou para mim.
A única coisa que me acalmava quando tudo parecia fora do meu controle.
Eu me ajoelho.
Ali mesmo, no chão da cozinha.
Sem pensar muito.
Como se meu corpo já soubesse o caminho.
Eu junto as mãos, fecho os olhos, sentindo o chão sob os joelhos, o silêncio ao redor, e deixo que o resto venha devagar, como sempre veio.
Porque quando eu não sei para onde ir…
É assim que eu tento encontrar um caminho.
— Meu Deus…
Minha voz sai baixa, quase falhando, como se eu ainda estivesse juntando coragem para falar, como se até ali eu não tivesse certeza se podia pedir alguma coisa depois de tudo que vivi.
Eu respiro fundo, devagar, tentando organizar o que está dentro de mim, mas não é fácil, porque tem muita coisa misturada — medo, alívio, gratidão, insegurança — tudo junto, tudo ao mesmo tempo.
— Obrigada…
Eu fecho mais os olhos, apertando as mãos.
— Obrigada mesmo…
As palavras saem simples, do jeito que eu sei falar, sem enfeite, sem saber fazer bonito, só do jeito que eu sinto.
— Obrigada por ter colocado ele no meu caminho…
A imagem de Gael vem na minha mente sem esforço, tão clara que parece que eu ainda estou naquele momento, caída na estrada, sem forças, sem esperança, e ele surgindo como se fosse resposta de algo que eu nem sabia que estava pedindo.
Forte.
Sério.
Me olhando.
Me pegando.
Me salvando.
Meu peito aperta.
— Eu não sei o que seria de mim se não fosse ele…
Minha voz treme, e eu preciso engolir o choro que sobe.
— Eu já estava tão cansada…
Eu abaixo um pouco a cabeça.
— Tão fraca…
As palavras saem mais lentas agora.
— Eu achei que não ia conseguir mais…
Eu respiro fundo, tentando continuar.
— Eu achei que ia morrer ali… e… eu estava aceitando…
Isso dói um pouco de dizer, mesmo que seja só em pensamento falado.
— Mas o Senhor mandou ele…
Eu aperto mais as mãos, como se quisesse segurar aquilo.
— O Senhor mandou ele pra mim…
Fico em silêncio por um momento, sentindo essa certeza crescer, mesmo que eu não entenda direito como as coisas acontecem.
— Obrigada por esses dias…
Eu continuo, mais calma agora.
— Pela cama… macia…
Eu lembro de como foi deitar ali pela primeira vez, sem medo, sem dor.
— Pela comida… que eu posso comer sem precisar pedir… sem precisar esconder…
Minha garganta aperta um pouco.
— Pela paz…
Essa palavra sai mais devagar.
Porque é nova.
Porque eu quase não conheço.
— Pela casa… pelo silêncio… por não ter gritos…
Eu respiro fundo de novo.
— Obrigada por eu poder dormir sem medo de acordar com dor…
Minhas mãos apertam mais forte.
— Obrigada por eu poder respirar tranquila…
Eu fico em silêncio por alguns segundos, só sentindo tudo isso dentro de mim.
Mas então vem o resto.
A parte difícil.
— Se ele não quiser que eu fique…
Minha voz falha um pouco.
Eu engulo seco.
— Tudo bem.
Dizer isso dói.
Mas eu digo.
— Eu entendo…
Eu abaixo mais a cabeça.
— Eu não sou nada dele… ele não me deve nada…
As palavras saem simples, como eu realmente acredito.
— Ele já fez muito por mim…
Eu respiro fundo.
— Muito mesmo…
Meu peito aperta, mas eu continuo.
— Se eu tiver que ir… eu vou.
Agora a dor vem mais clara.
Mais presente.
— Eu vou procurar outro lugar…
Minha voz fica mais baixa.
— Eu posso fazer isso…
Eu tento me convencer enquanto falo.
— Eu sei trabalhar…
— Eu sei cuidar das coisas…
— Eu sei obedecer…
Eu aperto as mãos com mais força.
— Eu consigo sobreviver lá fora do meu trabalho, sou forte e sua filha.
Mas dessa vez não sai com tanta certeza quanto antes.
Eu sinto.
Mas não tenho tanta força quanto queria.
Eu respiro fundo mais uma vez.
Longo.
Devagar.
E então falo o que realmente está dentro de mim.
— Mas… se for possível…
Minha voz quase some.
— Se o Senhor puder…
— Me deixa ficar aqui com Gael.
Agora sai de verdade.
Sem esconder.
Sem tentar ser forte.
— Eu não quero ir embora…
Meus olhos apertam.
— Eu gostei daqui…
— Eu gostei dele…
Eu paro por um segundo, percebendo o que disse, sentindo o rosto esquentar mesmo estando sozinha.
— Eu… eu me sinto segura aqui…
Minha voz fica mais fraca.
— Eu nunca me senti assim antes…
Eu respiro fundo, tentando não chorar.
— Eu prometo que eu faço tudo certo…
— Eu não vou dar trabalho…
— Eu não vou errar…
Eu aperto mais as mãos.
— Eu posso ser útil…
— Eu posso ajudar…
— Eu posso cuidar da casa…
— Eu posso fazer tudo que for preciso…
Eu abaixo mais a cabeça.
— Só… me deixa ficar.
O silêncio volta.
Mas agora ele não é pesado.
É diferente.
Eu fico ali por mais alguns segundos, respirando devagar, deixando as palavras se acomodarem dentro de mim, como se eu tivesse colocado tudo para fora, como se agora não tivesse mais nada escondido.
— Amém.
Eu abro os olhos devagar.
Meu coração ainda está apertado.
Mas mais calmo.
Eu não tenho resposta.
Não sei o que vai acontecer.
Mas eu tenho fé.
Eu olho para a cozinha, ainda limpa e organizada.
Mas eu quero fazer mais.
Quero mostrar que eu posso.
Que eu mereço ficar.
Então eu começo de novo.
Separo ingredientes.
Acendo o fogão.
E faço outro bolo.
Dessa vez com mais cuidado ainda, tentando deixar o melhor possível, como se cada detalhe pudesse convencer alguém de alguma coisa.
Depois coloco café para passar.
O cheiro preenche a cozinha devagar, quente, acolhedor, e eu fico ali por perto, observando, esperando.
Talvez Gael volte.
Talvez o senhor Walter apareça.
Talvez alguém veja.
[...]
Mas o tempo passa.
E ninguém vem.
O bolo está pronto.
O café também.
E a casa continua em silêncio.
Eu olho para a porta.
Depois para a mesa.
Depois para o bolo.
Não quero que esfrie.
Não quero que ninguém perca.
Eu penso por um momento.
E então decido.
Eu posso levar até eles.
Eu já vi o caminho até parte da fazenda.
E sempre tem gente trabalhando.
Talvez eles estejam lá.
Eu coloco o bolo em um prato.
Depois pego a garrafa térmica e coloco o café dentro.
Seguro tudo com cuidado.
E caminho até a porta.
O sol já está mais alto agora.
O calor bate no rosto assim que eu saio.
Mas eu não me importo.
Eu sigo o som.
De vozes.
De homens.
De trabalho.
Vou caminhando devagar, com atenção, segurando o prato firme para não deixar cair, sentindo o coração bater um pouco mais rápido conforme me aproximo.
E então eu vejo.
Gael.
Ele está com outros homens, sentados mais afastados, perto de uma área de descanso improvisada, alguns em pé, outros sentados em caixas ou pedaços de madeira.
Eles estão comendo.
Pão com mortadela.
E bebendo refrigerante.
Simples.
Rápido.
Como quem trabalha muito e para só o necessário.
Eu paro por um segundo.
Observando.
Ele está diferente ali.
Mais solto.
Mais… dele.
Falando com os outros, sério às vezes, rindo baixo em outras.
Meu coração aperta um pouquinho.
Eu caminho até eles.
Mas assim que me aproximo…
Tudo muda.
As vozes param.
Uma a uma.
Os homens olham.
Todos.
Para mim.
Eu travo.
Sinto o calor subir pelo meu rosto na mesma hora.
Segurando o prato e a garrafa, sem saber o que fazer com as mãos, com o corpo, com o olhar.
Eles me encaram.
Alguns curiosos.
Outros surpresos.
Outros… eu nem sei dizer.
Eu baixo os olhos por um instante, completamente envergonhada.
E naquele momento…
Eu só queria não estar sendo vista.