É minha

2028 Palavras
Gael narrando. O barulho para no segundo em que ela aparece. É automático. Como se alguém tivesse cortado o som no meio. Os homens param de mastigar, de falar, de rir, e eu sinto antes mesmo de olhar que alguma coisa mudou no ambiente, aquela mudança sutil que vem quando algo fora do normal entra no meio de um grupo acostumado à mesma rotina de sempre. Eu levanto os olhos. E vejo. Eva. Parada ali, com um prato nas mãos e uma garrafa térmica, pequena demais naquele espaço cheio de homem, sol forte, poeira, barulho, trabalho pesado. Ela parece deslocada de um jeito que incomoda só de olhar. E não é só isso. Eles estão olhando. Todos. Um por um. Sem disfarçar. Observando seu vestido rosa que eu mesmo observei mais cedo, a roupa que ela usa, o corpo magro e pequeno, mas que está mexendo comigo, de uma maneira irritante e que não sei controlar. O tipo de olhar que eu conheço bem demais, e eles não devem ter sobre ela. Curioso. Pesado. Demorado. Eu sinto algo subir dentro de mim antes mesmo de conseguir pensar direito. Um incômodo. Não. Mais que isso. Uma irritação seca, quente, que vem do nada e se espalha rápido. Ela não devia estar aqui. Esse é o primeiro pensamento. Não nesse meio. Não desse jeito. Não sendo olhada assim. Ela dá um passo descalça hesitante para frente, claramente sem saber onde colocar os olhos, segurando o prato com cuidado como se aquilo fosse o mais importante, como se estivesse tentando fazer algo bom e tivesse chegado no lugar errado. — Eu… — a voz dela sai baixa — eu trouxe comida meu Salvador, não sabia que já tinha alimento aqui. Ninguém responde. Eles continuam olhando. E eu sinto o maxilar travar. — Chega. Minha voz sai antes mesmo de eu pensar. Seca. Cortando o ar. Alguns desviam o olhar na hora, outros demoram mais um segundo, como se não tivessem entendido o peso daquilo ainda. Eu me levanto. Devagar. Sem tirar os olhos deles. — Acabou o espetáculo. Agora ninguém sustenta. Eles voltam a comer, fingem normalidade, mas eu já vi o suficiente. Eu olho para ela. Ela ainda está parada, completamente perdida, claramente arrependida de ter vindo. E isso me irrita ainda mais. — Vai pra casa Eva, agora. Ela pisca, surpresa. — Mas eu… trouxe bolo para você, e café quente. — Vai. Pra. Casa. Eu não aumento o tom, mas a voz sai mais pesada, mais firme, sem espaço para discussão. Ela se encolhe levemente. Já estou com dificuldade de falar sem conseguir gritar, ela tem que me obedecer logo, ou vou explodir nela sem dever. — Sim… senhor. Ela se vira rápido, quase apressada demais, como se tivesse medo de errar de novo só por estar ali, e começa a caminhar de volta. Eu acompanho com o olhar até ela se afastar o suficiente. E só então volto para os outros. O silêncio volta. Mas agora é diferente. Pesado. Carregado. Um deles solta um riso baixo, sem graça. — Bonita, hein patrão… Eu nem penso. — Fecha a boca. A resposta sai na mesma hora. Fria. O cara levanta as mãos, como se não fosse nada. — Tô só falando… Eu dou um passo à frente. — Então para de falar. Outro entra, tentando aliviar. — Calma, Gael… a moça só é bonita. Eu olho para ele. — Calma o quê? Ninguém responde. Eu passo a mão na nuca, tentando controlar o que está subindo dentro de mim, mas não adianta muito. — Ninguém chega perto dela, não falem com ela, não a olhem, ou eu perco a minha cabeça. Agora minha voz sai mais baixa. Mais perigosa. — Ninguém fala com ela. — Ninguém olha daquele jeito de novo, porque se eu ver isso acontencendo... Silêncio. Um dos mais antigos cruza os braços. — É tua mulher ? Com todo respeito patrão, mas é bonita demais para não vermos. A pergunta vem direta. E fica no ar. Eu travo por um segundo. Porque a resposta é simples. Não. Não é minha mulher. Mas o pensamento que vem logo depois é mais rápido. Se eu disser que não… Eu abro espaço. Eu conheço homem. Conheço o tipo de pensamento. Conheço o que acontece quando uma mulher bonita aparece sem dono no meio de um monte de gente assim. Eu olho para ele. — Não é da tua conta. Minha voz sai seca. — E se eu ver alguém indo atrás dela… Eu paro um segundo. Só o suficiente. — Vai se arrepender. Agora ninguém fala mais nada. Eu viro as costas. Perdi a fome. Perdi a paciência. E o pior… Perdi o controle por um momento. Eu caminho de volta para casa com passos largos, sentindo o sangue ainda quente, a cabeça cheia, irritado comigo mesmo mais do que com qualquer outro. O que foi aquilo? Que tipo de reação foi aquela? Ciúme? Posse? De onde veio isso? Eu aperto o maxilar. Ela é só uma menina. Eu repito isso mentalmente. Mas a imagem deles olhando… Não sai da cabeça. Quando eu chego na casa, vejo ela na varanda. Ajoelhada. A cena me faz parar no mesmo instante. Ela está com a cabeça baixa, as mãos juntas, tremendo levemente, como se estivesse esperando alguma coisa. Meu peito aperta de um jeito estranho. — O que diabos você está fazendo Eva? Ela levanta o rosto na hora. Os olhos já cheios. — Me perdoa senhor Gael, eu te irritei, só te irrito, eu juro que não queria ter feito nada errado… A voz dela sai desesperada. — Eu não sabia que ia te irritar, não sabia que… Eu subo os degraus em dois passos. — Não sabia o quê Eva? — Que eu não podia sair… você me mandou para a casa tão rápido Ela abaixa a cabeça de novo. — Eu só queria levar a comida… — Eu achei que… A voz falha. — Eu não quis desobedecer… E então ela faz o que eu menos esperava. Se inclina mais. Como se estivesse se entregando a uma punição. — Pode me castigar como quiser… Aquilo me trava. De verdade. — O quê? Ela continua, chorando baixo. — Eu erro às vezes… mas eu aprendo… — Eu prometo que não faço de novo… — Pode me punir agora… Eu sinto uma coisa subir dentro de mim. Mas não é desejo. É outra coisa. Mais pesada. Mais escura. — Levanta. Minha voz sai mais firme dessa vez, mais baixa também, carregada de um peso que eu mesmo não estou medindo direito, porque tem coisa demais misturada ali dentro, irritação, confusão, e algo que eu ainda não quero nomear. Ela não se mexe, continua ajoelhada, com a cabeça baixa, como se estivesse esperando que eu decidisse o que fazer com ela, como se o destino dela dependesse da minha próxima palavra, do meu próximo gesto, e isso me incomoda de um jeito que vai além da situação. Eu dou um passo à frente, diminuindo o espaço entre nós, e seguro o braço dela, sentindo na hora como a pele é quente e fina demais sob meus dedos, frágil de um jeito que não combina com o que ela já passou, e puxo ela para cima sem usar força bruta, mas também sem dar opção, porque eu não vou deixar ela continuar ali daquele jeito. — Levanta, Eva. Dessa vez minha voz sai mais baixa, mais próxima, quase roçando nela, e quando ela finalmente se levanta, eu vejo claramente o tremor no corpo dela, os ombros tensos, as mãos ainda juntas por um segundo antes de se soltarem devagar, como se ela não soubesse mais o que fazer com elas agora que não está sendo punida. Eu encaro ela de perto, perto demais, mais do que seria necessário, mas não me afasto. — Eu não vou te castigar. Ela pisca algumas vezes, claramente confusa, os olhos grandes e úmidos tentando entender o que eu estou dizendo, como se aquelas palavras não encaixassem no mundo que ela conhece. — Não…? A voz dela sai pequena, fraca, quase infantil, e aquilo me atinge de um jeito que me irrita ainda mais, não com ela, mas com tudo que fizeram para que isso fosse o normal. — Não. Eu passo a mão pelo rosto, tentando organizar a cabeça, tentando conter o resto da irritação que ainda está ali, mas que já não é mais a mesma de antes. — Ninguém vai fazer isso aqui. Ela continua me olhando como se eu tivesse dito algo absurdo, algo que não faz sentido, como se aquilo fosse errado, impossível, como se não existisse um lugar onde ela não precisasse ter medo. — Mas eu errei… — ela insiste, a voz mais baixa agora, carregada de insegurança. — Não errou — eu corto na hora, mais firme, sem deixar espaço para ela continuar com essa ideia. Ela engole seco, visivelmente confusa. Mas ela ainda não acredita, e eu vejo isso claramente no jeito que ela respira, no jeito que os olhos não conseguem se firmar nos meus por muito tempo, como se estivesse esperando alguma coisa pior vir depois, como se isso ainda fosse só o começo de uma punição. — O senhor… não vai fazer nada? Tem medo ali, mas tem outra coisa também, algo que incomoda mais ainda. Expectativa. Como se fosse normal. Como se fosse o certo. Isso me irrita de um jeito mais fundo, mais silencioso. — Não. E antes que eu pense, antes que eu decida qualquer coisa com clareza, ela simplesmente se aproxima. E me abraça. Se agarra em mim como se aquilo fosse natural, como se fosse permitido, como se fosse o único lugar onde ela sabe ficar segura, e eu travo na hora, o corpo inteiro ficando rígido por um segundo, porque eu não estou acostumado com isso, com alguém me tocando assim, com alguém se apoiando em mim desse jeito. Mas eu não afasto. Não consigo. Ela encosta o rosto no meu peito, pequena, leve, ainda respirando rápido contra mim, como se estivesse se acalmando ali, como se finalmente tivesse encontrado um lugar onde pode baixar a guarda, e isso mexe comigo de um jeito perigoso, mais do que deveria. Eu fico parado por um instante, sem saber o que fazer com as mãos, sem saber como reagir, até que acabo segurando, devagar, uma mão nas costas dela, a outra no braço, sem apertar, mas firme o suficiente para manter ela ali. E então ela levanta o rosto. Devagar. Ainda perto demais. Os olhos encontram os meus, claros, brilhando de um jeito limpo, sem malícia nenhuma, mas que me prende mesmo assim, e a respiração dela bate leve contra o meu rosto, quente, irregular. Os lábios estão entreabertos. Naturais. Sem intenção. E é exatamente isso que piora tudo. Porque ela não faz ideia do que está fazendo comigo naquele momento, não tem provocação, não tem jogo, não tem consciência, só entrega, só confiança, e eu sinto o impacto disso direto, bruto, sem filtro. Meu olhar desce por um segundo para a boca dela e volta, e nesse intervalo curto já é o suficiente para eu perceber o que meu corpo quer fazer, o impulso vindo rápido, forte, sem pedir permissão. Eu preciso de esforço. Muito esforço. Para não puxar ela de volta, para não acabar com aquele espaço mínimo que ainda existe entre a gente, para não fazer exatamente o que minha cabeça manda e o que meu corpo exige. Beijar. Sem pensar. Tomar aquela boca como se fosse minha. Eu aperto a mandíbula, travando isso dentro de mim com força, porque sei exatamente o que acontece se eu deixar passar. E quando eu falo, a voz sai mais baixa, mais rouca, carregada de algo que eu não consigo esconder completamente. — Não faz isso… Eu nem sei se ela entende o que eu quis dizer. Provavelmente não. Mas eu sei. E isso já é suficiente. Porque naquele momento, com ela tão perto, olhando daquele jeito, respirando contra mim, confiando em mim sem saber o perigo que isso representa… A única coisa que eu quero… É perder o controle.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR