Capítulo 9

970 Palavras
Anne Valencourt Depois do café da manhã traumático, fui arrastada para a Quinta Avenida. Minha mãe estava em um estado de êxtase quase maníaco. Entramos nas lojas mais exclusivas, aquelas onde as portas só se abrem com agendamento prévio e o ar tem cheiro de dinheiro novo. — Olhe este tule, Anne! É de uma delicadeza... — ela exclamava, segurando tecidos que custavam mais do que um carro popular. Eu me sentia como um manequim. As vendedoras me cercavam, medindo meu b***o, minha cintura, meu quadril, comentando sobre como a minha pele pálida realçava o marfim do tecido. Eu queria gritar que estava morrendo por dentro, que aquela seda era o meu sudário, mas eu apenas ficava ali, imóvel. Robert Rockwell não estava presente, é claro. Ele provavelmente estava em algum iate ou cobertura, gastando a sua parte do acordo com mulheres como aquela Elena que Valquíria mencionou. Mas Ryan... Ryan parecia estar em toda parte, mesmo sem estar presente. As vendedoras falavam dele com reverência. "O Sr. Ryan Rockwell já aprovou o limite de crédito", "O Sr. Ryan Rockwell solicitou que as joias fossem entregues com escolta". Era Ryan quem estava orquestrando o meu destino. Robert era o rosto que eu teria que beijar no altar, mas Ryan era o mestre das marionetes que puxava as cordas. Por que ele se importava se eu tinha um arranhão? Por que ele era o guardião da minha aparência? Talvez fosse apenas o perfeccionismo frio de um homem que não admite falhas no seu portfólio de investimentos. Eu era um ativo dos Rockwell agora. E ativos devem ser preservados. No meio da tarde, minha mãe me deixou por uma hora para se encontrar com uma decoradora. Sim, eu tinha que escolher o estilo da mansão que iria morar com Robert. Sentei-me em um café discreto, escondida atrás de óculos escuros enormes. Eu olhava para as sacolas de marcas famosas aos meus pés e sentia um vazio que nenhum luxo poderia preencher. Lembrei-me das palavras de Robert no noivado: "Você é uma pedra no meu caminho" Lembrei-me do olhar de desprezo do meu pai na mesa do café. Eu estava sozinha. Cercada por empregados recontratados, por vestidos de noiva de seis dígitos e por pais que me viam como uma apólice de seguro, eu era a pessoa mais solitária de Manhattan. Abri minha bolsa e vi o lenço bordado que eu guardava desde a infância. O lenço que eu usei para limpar o sangue daquele menino no jardim, tantos anos atrás. Eu sempre acreditei que aquele menino fosse Robert, que sob a casca de crueldade dele houvesse aquele garoto vulnerável que eu tentei curar. Mas o Robert que eu conhecia agora não tinha cicatrizes de bondade. Ele só tinha espinhos. Se o meu pai me batia para me ensinar "respeito", o que Robert faria comigo quando estivéssemos sozinhos? Ele disse que eu não esperasse fidelidade. Ele disse que eu ficasse calada. Toquei meu braço, sentindo o fantasma das surras de cinta do meu pai. A ironia era c***l: eu estava saindo de uma casa onde o abuso era físico e silencioso para entrar em outra onde o abuso seria emocional e barulhento. — Aguente firme, Anne — sussurrei para mim mesma, repetindo as palavras que eu dizia no porão enquanto esperava o tempo passar. — É apenas um contrato. É apenas um papel. Mas eu sabia que era mais do que isso. Era a minha vida sendo drenada gota a gota para que a prataria dos Valencourt voltasse a brilhar e para que os Rockwell tivessem a sua redenção pública. Voltamos para casa ao entardecer. A mansão estava iluminada, as flores frescas decoravam o hall. Era um cenário de conto de fadas construído sobre um cemitério de sonhos. Meu pai estava no escritório. Ao passar pela porta, vi-o ao telefone, rindo — uma risada genuína, de quem acaba de fechar um grande negócio. Ele nem sequer olhou para mim. A "venda" tinha sido concluída com sucesso; agora ele só precisava esperar pela entrega da mercadoria no dia do casamento. Subi para o meu quarto e joguei as sacolas de luxo no chão. Elas pareciam pesadas, cheias de uma importância que eu não reconhecia. Fui até o espelho e comecei a desabotoar o vestido caro que usei durante o dia. Olhei para as minhas costas no reflexo. Não havia marcas visíveis — meu pai era cuidadoso demais para deixar rastros onde o mundo pudesse ver. Mas eu sentia as cicatrizes invisíveis latejarem. A exigência de Ryan Rockwell me salvou de uma surra hoje. O "estrategetista" da família inimiga tinha sido mais protetor da minha integridade física do que o meu próprio pai. Que mundo distorcido era esse? Amanhã haveria mais compras. Mais champanhe. Mais sorrisos falsos para os fotógrafos da Vogue. E em breve, o altar. Deitei-me na cama, olhando para o teto alto. Eu não era mais Anne Valencourt, a mulher com desejos e medos. Eu era a Noiva dos Rockwell. Um troféu de mármore destinado a decorar a vida de um homem que me odiava, comprada por um pai que me via como uma ferramenta de câmbio. Fechei os olhos e, por um breve momento, desejei que aquele menino do jardim aparecesse agora e me tirasse daqui. Mas ele não viria. Ele também era um Rockwell. E nesta história, os Rockwell não salvam as pessoas; eles as possuem. A única coisa que me restava era a frieza. Se eles queriam uma noiva de gelo, era exatamente isso que eles teriam. Eu entraria naquela igreja, caminharia até Robert e entregaria a minha mão. Mas o meu coração? Esse eu enterraria tão fundo que nem o dinheiro de Charles, nem a crueldade de Robert, nem a estratégia de Ryan jamais conseguiriam encontrar. O banquete estava servido, mas eu seria a única a não comer.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR