Anne Valencourt
A chegada de Eleanor Rockwell foi como o primeiro sopro de ar fresco em uma sala sufocada por fumaça e perfume caro. Eu estava no meio do hall, cercada por amostras de rendas francesas e catálogos de prataria que minha mãe espalhava como se fossem relíquias sagradas, quando os portões de ferro da mansão Valencourt rangeram.
— Ela está aqui! — o grito de minha mãe, Madeline, soou menos como um anúncio e mais como um comando de batalha. — Anne, arrume esse cabelo. Pose, por favor. Lembre-se de quem você representa.
Eu imediatamente senti meus ombros ficarem rígidos. A pose. A eterna e exaustiva pose da herdeira que está prestes a realizar o "casamento do século". Minha mãe me olhava com olhos ávidos, verificando se havia alguma falha na minha fachada, se o meu desespero estava vazando pelos poros. Para ela, a visita de Eleanor era o teste final de validação.
Mas quando Eleanor entrou, o ambiente mudou.
Ela não entrou com a arrogância ruidosa que Charles Rockwell exibia, nem com a futilidade elétrica da minha mãe. Havia uma dignidade silenciosa nela, uma calma que parecia destoar de todo aquele caos planejado. Ela usava um conjunto de alfaiataria cinza-pérola, simples e impecavelmente elegante, e seus olhos — olhos que eu via refletidos em Ryan, e às vezes, em lampejos raros, no próprio Robert — pousaram em mim com uma suavidade que quase me fez desmoronar.
— Eleanor, querida! — minha mãe praticamente voou em direção a ela, a voz carregada daquela falsidade melíflua que ela reservava para os seus superiores sociais. — Estávamos justamente decidindo entre as camélias brancas e as orquídeas raras para a nave da igreja. O que você acha?
Eleanor aceitou o abraço protocolar com uma cortesia polida, mas seu olhar permaneceu em mim.
— Olá, Madeline. As flores são importantes, suponho — ela disse, a voz baixa e melódica. — Mas eu gostaria de saber o que a noiva pensa. Como você está, Anne?
Eu engoli em seco. A pergunta não soava como uma formalidade. Ela me olhava como se me reconhecesse. Não apenas como a menina que cresceu nas propriedades vizinhas em Southampton, mas como alguém que via através das camadas de seda e da maquiagem que tentava esconder as olheiras da minha insônia.
Até hoje, eu não entendo como ela consegue ser amiga da minha mãe. São criaturas de mundos opostos. Minha mãe vive da superfície, do brilho das aparências e do poder que o sobrenome Valencourt (e agora o Rockwell) pode comprar. Eleanor... ela sempre pareceu ter uma profundidade que aquele meio social tentava, a todo custo, nivelar. Ela era a única pessoa verdadeiramente boa que eu conhecia naquele mar de tubarões.
— Estou... seguindo com os preparativos, Sra. Rockwell — respondi, tentando manter a voz estável, a voz que o meu pai me ensinou a usar para não demonstrar fraqueza.
— Por favor, me chame de Eleanor. Logo seremos família, não é? — Ela sorriu, mas o sorriso não chegava a ser alegre. Era compassivo.
Ela começou a andar pela sala, recusando educadamente as sugestões extravagantes da minha mãe. Quando Madeline sugeriu que o banquete de ensaio fosse servido em pratos de ouro maciço com um menu que parecia um excesso pornográfico de luxo, Eleanor se virou para mim.
— Anne, você realmente quer tudo isso? Se preferir algo mais íntimo, ou se o champanhe que sua mãe escolheu for forte demais para o seu gosto, você pode me dizer. Eu posso falar com os organizadores.
Minha mãe riu, aquele risinho nervoso.
— Oh, Eleanor, Anne está encantada com tudo! Ela só está um pouco cansada, a emoção do noivado, você sabe como é...
O destino, ou talvez a minha sorte desesperada, interveio. Um dos empregados entrou na sala para dizer que havia um problema com a remessa especial de champanhe que tinha acabado de chegar à adega. Minha mãe, para quem uma falha na marca das bolhas era equivalente a uma tragédia nacional, soltou um suspiro de indignação.
— Eu mesma vou resolver isso. Esses fornecedores pensam que podem nos enganar só porque estamos ocupadas! — Ela se desculpou rapidamente com Eleanor e saiu em disparada para a cozinha, deixando um rastro de perfume floral e tensão para trás.
O silêncio que se seguiu foi súbito e ensurdecedor. Eu continuei de pé, as mãos entrelaçadas à frente do corpo, a pose de "noiva perfeita" ainda me mantendo ereta como uma armadura.
Eleanor caminhou até mim. Ela não parou a uma distância socialmente aceitável; ela chegou perto o suficiente para que eu sentisse o calor de sua presença.
— Você pode relaxar agora, Anne — ela sussurrou. — Ela já saiu.
Eu senti meus ombros caírem alguns centímetros. A máscara tremeu.
— Eu sei exatamente o que você está sentindo — ela continuou, e quando olhei para cima, vi que os olhos dela transbordavam uma pena genuína, mas sem o tom de superioridade. Era a pena de quem compartilha uma dor. — Eu vejo isso no seu olhar toda vez que nos encontramos. Esse peso... essa sensação de que o chão está sumindo e você está sendo carregada por uma correnteza que não pode controlar.
— Eu não queria isso, Eleanor — a confissão saiu em um sopro, antes que eu pudesse contê-la. As lágrimas, que eu vinha reprimindo desde o café da manhã com o meu pai, queimaram meus olhos. — Eu sinto que estou sendo vendida.
Eleanor suspirou e tocou meu rosto com a ponta dos dedos, um gesto de carinho que minha própria mãe não me fazia há anos.
— Eu sei. Porque eu já estive exatamente no seu lugar.
Fiquei paralisada. Eleanor Rockwell, a matriarca da família mais poderosa da cidade, a mulher que parecia ter o mundo aos seus pés... ela também tinha sido uma peça de troca?
— As pessoas olham para o meu casamento com Charles e veem uma união de poder — ela disse, olhando para algum ponto invisível no passado. — Mas o início... o início foi um contrato, assim como o seu. Minha família também precisava da influência dos Rockwell. Eu também entrei naquela igreja sentindo que estava caminhando para o meu próprio sacrifício.
— E como a senhora suportou? — perguntei, a voz trêmula. — Como conseguiu viver com um homem como o Sr. Rockwell todos esses anos?
Ela deu um sorriso triste e cansado.
— Eu aprendi a criar o meu próprio mundo dentro das paredes da mansão. Eu foquei nos meus filhos. Tentei protegê-los da frieza do pai, embora saiba que falhei em muitos aspectos... especialmente com o Robert. — Ela fez uma pausa, e a menção ao meu noivo fez meu estômago revirar. — Eu tentei falar com Charles, Anne. Tentei convencê-lo de que forçar esse casamento entre você e Robert não traria felicidade para ninguém. Eu disse a ele que Robert não está pronto para ser marido de ninguém, muito menos de uma mulher como você.
— E o que ele disse? — eu já sabia a resposta, mas precisava ouvir.
— Você conhece o meu marido. Quando Charles coloca algo na cabeça, é como se ele estivesse esculpindo em granito. Ele vê o mundo como um tabuleiro de xadrez, e nós somos as peças que ele move para proteger o seu império. Ele disse que o acordo com o seu pai é vital, e que a imagem de Robert precisa ser limpa por um casamento estável. Para ele, seus sentimentos são apenas ruído de fundo.
Eleanor pegou minhas mãos nas dela.
— Eu tentei ajudar de outras formas, querida. Tentei sugerir adiamentos, tentei colocar obstáculos burocráticos... mas o poder de Charles e o desespero do seu pai são uma combinação poderosa demais. Eu sinto muito, Anne. Sinto muito que você tenha que pagar o preço pela ambição deles.