Capítulo 11

908 Palavras
Anne Valencourt Eu olhei para aquelas mãos que me seguravam. Elas eram macias, mas eu sentia a força que elas precisavam ter para não se quebrarem sob o peso daquela família. — Robert me odeia — confessei em um sussurro. — Ele me humilha sempre que pode. E o Ryan... o Ryan parece que está apenas cuidando de um negócio. Ninguém me vê como uma pessoa. Disse o que me consumia de verdade. Eleanor pareceu vacilar por um momento quando mencionei Ryan, mas logo recuperou a compostura. Não sei porque falei nele. Eu iria me casar com Robert, não com Ryan. — Robert é um homem ferido que aprendeu a ferir para não se sentir por baixo — ela disse com uma honestidade brutal. — E Ryan... Ryan é o que o pai o treinou para ser: o escudo. Ele absorve todo o impacto para que o nome Rockwell permaneça intacto. Não pense que ele é indiferente, Anne. Ele apenas aprendeu, desde muito cedo, que as emoções são perigosas naquele escritório. Ela se aproximou mais, o tom de voz tornando-se urgente. — Escute-me. Se o casamento realmente acontecer... se não houver saída... procure por mim. Eu serei o seu porto seguro naquela casa. Vocês vão morar próximos. Não deixe que Charles ou Robert apaguem a luz que você tem. Eu permiti que Charles apagasse parte da minha, e é o meu maior arrependimento. Use o poder que o nome Rockwell vai te dar. Se eles querem que você seja uma peça, seja a peça que comanda o jogo, não a que é sacrificada. O som de saltos altos ecoando pelo corredor anunciou o retorno de minha mãe. Instantaneamente, Eleanor se afastou e eu limpei o canto dos olhos com um gesto rápido e praticado. A pose voltou. A coluna se endireitou. A máscara de porcelana foi recolocada. — Tudo resolvido! — minha mãe entrou, radiante. — O champanhe correto será entregue amanhã. Agora, onde estávamos? Ah, sim, o véu! Eleanor, você precisa ver a renda que mandamos buscar em Bruxelas. Eleanor voltou a ser a visitante educada e polida. Ela comentou sobre a renda, sugeriu ajustes sutis que deixavam as escolhas da minha mãe menos vulgares e mais elegantes, e manteve a conversa fluindo como se nada tivesse acontecido. Mas, de vez em quando, quando minha mãe se distraía com algum detalhe fútil, Eleanor me lançava um olhar. Era um olhar de cumplicidade. Um olhar que dizia: eu sei, eu sinto, e eu estou aqui. Ela era a única pessoa boa. A única que não olhava para mim e via cifrões ou uma solução para escândalos. Ela via a Anne que o meu pai batia no porão. Ela via a Anne que o Robert humilhava no altar social. Quando ela finalmente se despediu, meu pai apareceu para acompanhá-la até o carro. Charles Rockwell não tinha vindo, mas sua presença estava em toda parte, no modo como o meu pai agia de forma quase servil em relação à Eleanor. — Foi uma visita produtiva — meu pai disse, depois que o carro dela partiu. Ele me olhou de cima a baixo, sua expressão voltando àquela frieza calculista. — Espero que você tenha sido uma boa anfitriã. Eleanor tem muita influência sobre Charles. Se ela estiver do seu lado, sua vida naquela mansão será mais fácil. Eu não respondi. Eu apenas olhei para os portões por onde ela tinha saído. A revelação de que Eleanor também tinha sido uma vítima daquele sistema não me trouxe conforto, apenas um pavor mais profundo. Se uma mulher tão forte, tão íntegra e tão inteligente como ela não tinha conseguido escapar das garras daquela estrutura, que chance eu tinha? Minha mãe continuou falando sobre o caviar, sobre as ostras e sobre como o meu vestido seria capa de todas as revistas. Eu a ouvia como se ela estivesse falando de outra pessoa, de uma personagem em uma peça de teatro que eu estava sendo forçada a encenar. Fui para o meu quarto e me tranquei. Sentei-me na beira da cama e olhei para as minhas mãos, as mesmas mãos que Eleanor tinha segurado. Pela primeira vez em semanas, eu não me senti apenas como uma mercadoria. Eu me senti como parte de uma linhagem secreta de mulheres que sofriam em silêncio sob o peso de homens poderosos. Mas eu também lembrava do aviso dela: Não deixe que eles apaguem a sua luz. Amanhã o circo continuaria. O meu pai continuaria a me monitorar em busca de "arranhões" para o contrato de Ryan. Minha mãe continuaria a planejar o seu banquete de vaidade. E Robert continuaria a preparar o seu apartamento em Paris. Mas agora eu tinha um segredo. Eu tinha Eleanor. E, por mais que Charles Rockwell pensasse que tinha o controle total do tabuleiro, ele se esqueceu de que as rainhas, mesmo quando colocadas lá contra a vontade, são as peças mais perigosas do jogo. O sol começou a se pôr, tingindo o meu quarto de um laranja sangrento. Eu fechei os olhos e rezei, não para que o casamento não acontecesse — pois eu sabia que meu pai nunca permitiria essa saída — mas para que, quando eu atravessasse aqueles portões dos Rockwell como esposa, eu ainda conseguisse encontrar o caminho de volta para quem eu era. Afinal, se Eleanor sobreviveu, talvez eu também pudesse. Mas o preço... o preço seria alto demais. E o espetáculo, como Ryan disse, estava apenas começando.
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