Ryan Rockwell
O som da porta de carvalho maciço batendo atrás de mim foi o único alívio que tive após quatro horas debatendo projeções de lucros e fusões de infraestrutura. Eu afrouxei o nó da minha gravata de seda italiana, sentindo o peso da responsabilidade latejar nas minhas têmporas. A reunião tinha sido um sucesso, mas o sucesso, no mundo dos Rockwell, é apenas o prelúdio para o próximo incêndio que eu teria que apagar.
— Sr. Rockwell? — A voz da minha secretária, Sarah, soou cautelosa. Ela trabalhava comigo há tempo suficiente para saber que o meu "olhar de pós-reunião" era um campo minado.
— Diga, Sarah. E que seja uma notícia que não me faça querer pular desta janela.
Ela hesitou, ajustando o tablet nas mãos.
— É o seu irmão, Robert. Ele tinha um compromisso agendado para as sete da noite com o grupo de investidores alemães, os Von Steiner. É o fechamento do contrato de logística para a Europa.
Eu parei no meio do corredor. O sangue subiu para o meu rosto com uma rapidez perigosa.
— E qual é o problema? Robert sabe da importância disso. Ele passou semanas fingindo que se importava com esse projeto.
— O problema, senhor, é que ninguém o encontra. O motorista disse que o deixou em um clube privado às duas da tarde e, desde então, o celular dele está desligado. Já ligamos para todos os contatos frequentes, incluindo... bem, incluindo a Srta. Elena. Ninguém sabe dele.
Eu quis xingar. Quis xingar Deus, o destino, meu pai por ter tido dois filhos, e Robert por ter nascido com o dom de transformar ouro em cinzas. Robert estava passando de todos os limites imagináveis. Ele não estava apenas negligenciando a família; ele estava sabotando o império que eu passava dezoito horas por dia protegendo.
— Tem mais — Sarah continuou, a voz quase um sussurro. — O CEO do grupo, o Sr. Dietrich, mencionou especificamente que soube do noivado de Robert. Ele é um homem de valores tradicionais, um "homem de família". Ele insistiu que o jantar fosse um encontro social para conhecer a futura Sra. Rockwell. Ele disse que não faz negócios com homens que não têm uma base sólida em casa.
Fechei os olhos e respirei fundo, tentando conter a fúria que ameaçava transbordar. Robert tinha o noivado. Robert tinha a noiva perfeita, uma Valencourt que trazia consigo a tradição que os alemães tanto respeitavam. E onde ele estava? Provavelmente afogado em uísque barato e nos braços de uma mulher que vendia segredos para tabloides.
— Sarah, cancele meus compromissos da noite.
— O senhor vai atrás dele?
— Não — respondi, abrindo os olhos com uma resolução fria. — Eu vou nesse jantar...
- Mas Senhor...
- Obrigada Sara.
Entrei no meu escritório e bati a porta. O silêncio ali dentro era opressor. Eu olhei para o relógio de pulso: cinco e meia da tarde. O jantar era às sete. Eu tinha noventa minutos para transformar um desastre iminente em uma vitória diplomática.
O plano era insano. Era uma loucura que beirava o crime, mas a alternativa era assistir à queda das ações da Rockwell International na a******a do pregão de amanhã. E eu não permitia falhas.
Peguei o celular e disquei o número de Anne.
Meu coração deu um salto involuntário enquanto o tom de chamada ecoava. Anne. A mulher que eu protegia das sombras. A mulher que eu amava em segredo enquanto assistia, impotente, ela ser entregue ao meu irmão como um sacrifício ritual.
— Alô? — A voz dela veio suave, mas carregada de uma exaustão que me cortou a alma. Ela provavelmente tinha passado o dia sendo torturada pelas expectativas da mãe e pela frieza do pai.
— Anne. É o Ryan.
Houve uma pausa do outro lado da linha. Eu podia imaginar a confusão no rosto dela, as sobrancelhas ruivas se franzindo.
— Ryan? Aconteceu alguma coisa?
— Robert teve um imprevisto — menti, a palavra saindo amarga da minha boca. — Ele está preso em uma negociação de última hora que não pode ser interrompida. Mas ele tem um jantar de extrema importância com investidores alemães às sete horas. Eles fazem questão da presença da noiva.
— Ryan, eu... eu não estou em condições de fingir felicidade hoje. Eu acabei de voltar de um dia inteiro de compras e...
— Anne, escute-me — interrompi, suavizando o tom, mas mantendo a urgência. — Este contrato é o que mantém a estabilidade do fluxo de caixa que vai ser direcionado para as empresas do seu pai. Se os Von Steiner desistirem porque Robert não apareceu com a noiva, o acordo de fusão entre nossas famílias corre risco. Você entende o que isso significa?
Ouvi o suspiro pesado dela do outro lado. O peso da responsabilidade que eu mesmo ajudei a colocar sobre os ombros dela.
— Entendo. Onde ele vai me encontrar? No restaurante?
— Não — eu disse, pegando meu paletó. — Robert não vai. Eu vou.
— Como? Ryan, eles querem o noivo. Eles querem o Robert.
— Eles querem um Rockwell. Os alemães conhecem o nome, mas poucos viram o rosto de Robert pessoalmente de perto por tempo suficiente para nos distinguir em uma luz de jantar, se eu agir da forma certa. Eu vou me passar por ele, ou ao menos, vou conduzir a noite de forma que a sua presença seja o foco e a "ausência do noivo" seja justificada por uma "emergência executiva" que eu, como irmão, estou mediando. Mas para isso, preciso que você esteja lá. Como minha noiva.
— Isso é loucura, Ryan. É uma mentira sobre outra mentira.
— É a única forma de manter o seu mundo inteiro de pé, Anne. Eu estarei na porta da sua casa em vinte minutos. Esteja pronta. E, Anne... use aquele vestido verde-escuro. Você sabe qual.
Desliguei antes que ela pudesse protestar.
Vinte minutos depois, eu estava estacionando o Aston Martin em frente à mansão Valencourt. Eu tinha trocado de relógio — usei o Patek Philippe que Robert costumava ostentar — e ajeitado o cabelo de uma forma levemente mais despojada, menos "Ryan" e mais "Robert".