Capítulo 13

1879 Palavras
Ryan Rockwell Quando Anne desceu as escadas da mansão, o mundo pareceu desacelerar. Ela estava usando o vestido verde, o tecido abraçando suas curvas com uma elegância que me fez perder o fôlego. O cabelo ruivo estava preso em um coque sofisticado, mas alguns fios escapavam, emoldurando seu rosto pálido. Ela entrou no carro sem dizer uma palavra. O perfume dela — algo que lembrava jasmim e chuva — preencheu o espaço pequeno, tornando quase impossível para mim manter a fachada de frieza profissional. — Você está sendo o "Ryan estrategista" ou o "Ryan que limpa a sujeira do irmão" agora? — ela perguntou, sem olhar para mim. — Eu estou sendo o homem que impede que você e seu pai terminem na rua, Anne — respondi, engatando a marcha. — No jantar, você não precisa falar muito sobre negócios. Apenas seja a Valencourt que o mundo espera. Sorria para os Von Steiner, valide as "minhas" decisões e, se alguém perguntar algo muito específico sobre o Robert, deixe que eu responda. — Você vai mesmo se passar por ele? — Vou ser o Robert que ele deveria ser. O Robert que se importa, o Robert que é inteligente, o Robert que merece você. Por uma noite, vamos dar a eles a ilusão de que a família Rockwell é perfeita. O restaurante era um dos mais exclusivos de Manhattan, um lugar onde as mesas eram afastadas o suficiente para garantir privacidade, mas próximas o bastante para que o prestígio fosse notado. O restaurante La Grenouille era uma cápsula de tempo, um refúgio de veludo escarlate e arranjos florais monumentais que custavam mais do que o salário anual de um cidadão comum. O ar ali era denso, impregnado com o cheiro de polimento de prata e o sussurro de fortunas sendo trocadas. Quando entrei com Anne ao meu lado, eu não era apenas Ryan Rockwell, o vice-presidente frio; eu era o homem que ela estava destinada a odiar, mas com a alma daquele que ela sempre desejou. Dietrich von Steiner e sua esposa, Helga, já nos aguardavam. O alemão era um homem de constituição robusta e olhos que pareciam ler entrelinhas contratuais em segundos. Helga, por outro lado, tinha um olhar de águia para a etiqueta social. — Sr. Rockwell! — Dietrich levantou-se, a voz ressoando com autoridade. — E esta deve ser a deslumbrante Srta. Valencourt. Meus parabéns, o senhor tem um gosto impecável. Eu não apenas apertei a mão dele. Eu dei um passo para o lado, cedendo o palco para Anne, e com uma delicadeza que eu sabia que o verdadeiro Robert nunca possuiria, segurei sua mão enluvada. — Robert é um homem de sorte, Dietrich — eu disse, usando a voz mais profunda e confiante que reservei para essa farsa. — Mas eu prefiro dizer que sou um homem de visão. Anne não é apenas minha noiva; ela é o epicentro de tudo o que estou construindo. Levei a mão dela aos lábios. Não foi um beijo protocolar. Foi um toque quente, prolongado, onde meus olhos nunca deixaram os dela. Vi a pupila de Anne dilatar, o choque percorrendo sua expressão antes que ela conseguisse recompor a máscara de herdeira. Sentamos à mesa redonda, e o garçom prontamente serviu um Dom Pérignon safra 2008. O pedido foi feito com uma fluidez que Anne acompanhou em silêncio: Duo de foie gras para começar, seguido por um Canard à l'Orange clássico. — É raro ver um casal de jovens tão... sintonizados — Helga comentou, apoiando o queixo na mão enquanto observava como eu, discretamente, afastei a cadeira para Anne e ajustei seu guardanapo com um toque quase imperceptível no joelho dela. — Normalmente, esses casamentos de "aliança" transparecem uma certa distância. Mas vocês dois... há uma eletricidade. — A tradição não precisa excluir a paixão, Sra. Helga — respondi, sorrindo de lado, aquele sorriso de predador que Robert usava, mas com uma doçura nos olhos que pertencia apenas a Ryan. — O que sinto por Anne foi o que selou o negócio, e não o contrário. Anne engoliu em seco, a taça de champanhe tremendo levemente em seus dedos. Ela sabia que eu era Ryan. Ela sabia que Robert estava provavelmente jogado em algum beco ou cobertura, mas a forma como eu a tratava — com uma reverência que beirava a adoração — estava destruindo sua capacidade de raciocinar. — E quando será o grande dia? — Dietrich perguntou, cortando seu pato com precisão. — Espero que não coincida com a nossa conferência em Berlim. — Em três meses — respondi sem hesitar, memorizando cada cláusula do contrato que Robert sequer leu. — Será no St. Regis. Queremos algo que honre a história dos Valencourt, mas com a grandiosidade que o nome Rockwell exige. — Três meses... — Anne murmurou, a voz quase sumindo. — Parece tão perto quando dito assim. — Para quem ama, cada segundo de espera é um insulto, querida — completei, segurando a mão dela por cima da mesa e acariciando o anel de noivado com o polegar. Helga, encantada pela nossa suposta harmonia, inclinou-se para frente, os olhos brilhando com curiosidade pessoal. — E os planos para o futuro? Além da fusão das empresas. Uma linhagem como a de vocês... imagino que já estejam pensando em herdeiros. Quantos filhos pretendem ter? O silêncio caiu sobre a mesa. Anne empalideceu. A ideia de ter filhos com Robert era, para ela, um pesadelo biológico, uma condenação definitiva. Eu senti o pânico emanar dela através do toque de nossas mãos. — Queremos uma casa cheia — respondi, a voz carregada de uma sinceridade que me doeu o peito. — Robert sempre quis que o legado continuasse. Mas, mais do que herdeiros de empresas, queremos crianças que tenham a coragem de Anne e, talvez, um pouco da minha determinação. Três parece um número justo, não acha, meu amor? Olhei para Anne, desafiando-a a manter a farsa. Ela me encarou, e por um momento, a farsa evaporou. Ela não via o "Robert" que eu estava interpretando; ela via o Ryan que estava descrevendo um sonho que nunca poderia realizar com ela. O Ryan que, se pudesse, daria a ela o mundo, e não apenas uma mansão fria e três crianças para preencher o vazio. — Sim — Anne disse, a voz subitamente firme, mas os olhos marejados. — Robert sabe que eu valorizo a família acima de tudo. Ele tem sido... muito vocal sobre o futuro que deseja para nós. — Vocês são adoráveis — Helga suspirou, tocando o braço do marido. — Veja, Dietrich, como ele a protege. Robert m*l tira os olhos dela. É revigorante ver um homem de negócios tão... devotado. O jantar seguiu com Dietrich elogiando minha "visão para o futuro da logística europeia", acreditando estar falando com o gênio Robert Rockwell. Eu respondia a tudo com maestria, mas cada elogio que eu recebia em nome do meu irmão era um gosto de cinzas. Em certo momento, Anne se inclinou para perto de mim, seu perfume inundando meus sentidos. — Você está indo longe demais — ela sussurrou, enquanto os alemães discutiam o vinho entre si. — Você está criando uma mentira que eu não vou conseguir sustentar quando for o Robert de verdade ao meu lado. Por que está sendo tão c***l? — Não é crueldade, Anne — sussurrei de volta, pegando a mecha de cabelo que escapava de seu coque e colocando-a atrás da orelha, meu dedo roçando deliberadamente em seu pescoço. — É apenas o que você merece. Pelo menos por uma noite, deixe-se acreditar que o homem à sua frente é quem deveria estar lá. O olhar dela se quebrou. Naquela mesa, diante de estranhos, estávamos vivendo a vida que nos foi roubada pela ganância de nossos pais. Eu era o noivo atencioso, ela era a noiva valorizada. O contraste com a realidade — o Robert real que a chamava de "estorvo" — era tão violento que Anne parecia estar fisicamente ferida pela beleza daquele momento. Quando finalmente saímos do restaurante, após promessas de assinaturas de contratos e brindes à "família", a noite de Nova York nos recebeu com um vento frio que cortava a ilusão. No carro, o silêncio era uma entidade viva. Anne estava encolhida no banco do carona, olhando para o anel em seu dedo como se fosse um objeto estranho. — Eles acreditaram em cada palavra — ela disse, a voz sem emoção. — Eles acham que somos o casal mais feliz da Costa Leste. Eles acham que teremos três filhos e uma vida de sonhos. — O contrato está seguro, Anne. É o que importa para o seu pai. — Mas não é o que importa para mim! — ela explodiu, virando-se para mim, as lágrimas finalmente caindo. — Você foi perfeito hoje, Ryan. Você foi carinhoso, você foi inteligente, você me defendeu, você me olhou como se eu fosse a única mulher no mundo. Você me deu o "Robert" que eu precisava para não querer morrer naquele altar. Ela segurou o meu braço com força, suas unhas cravando no tecido do meu paletó. — Como você espera que eu me case com ele agora? Como eu vou deixar aquele animal me tocar, sabendo que existe um homem como você na mesma casa? Você não salvou o contrato hoje, Ryan. Você destruiu a pouca sanidade que eu tinha. Você me mostrou o que eu nunca vou ter. Eu estacionei o carro bruscamente. A dor na voz dela era o meu próprio reflexo. — Anne... — Não! — ela me interrompeu. — Não use essa voz comigo. Não agora que a máscara caiu. Você me beijou a mão, você falou de filhos... Você estava fingindo para os alemães ou estava apenas aproveitando a chance de dizer o que nunca teve coragem de dizer como Ryan? Olhei para ela, e a verdade sangrou. — As duas coisas — admiti, a voz rouca. — Eu odeio o Robert por ter você. E odeio a mim mesmo por ser o único capaz de garantir que você pertença a ele. Mas hoje, naquela mesa... por duas horas, eu não estava limpando a sujeira dele. Eu estava vivendo a minha única verdade. Saí do carro antes que pudesse cometer o erro de beijá-la e destruir tudo de vez. Dei a volta e abri a porta para ela. Voltei a ser o Ryan frio. O suporte. O cunhado. — O espetáculo acabou, Anne. Amanhã, o Robert "milagrosamente" se lembrará de tudo o que "ele" disse hoje. Eu vou garantir que ele mantenha a farsa, pelo menos em público. Ela saiu do carro, parando a milímetros de mim. Seus olhos brilhavam com um ódio que era puro amor distorcido. — Você é um monstro, Ryan Rockwell. Um monstro muito pior que o Robert. Porque ele me fere com a crueldade, mas você... você me fere com a perfeição que eu nunca poderei tocar. Assisti-a entrar na mansão. O contrato estava salvo, os Rockwell estavam mais ricos, e os Valencourt estavam seguros. Mas enquanto eu dirigia para casa, eu sabia que tinha cometido o maior erro da minha estratégia: eu tinha dado a Anne o sabor do céu, apenas para que ela sentisse com mais força o peso do inferno que a esperava no altar.
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