Ryan Rockwell
O silêncio da cobertura Rockwell era gélido, uma extensão do aço e do vidro que compunham a paisagem de Manhattan lá fora. Mas, ao cruzar o hall de entrada, senti que a temperatura ali dentro estava abaixo de zero. O perfume de Anne — jasmim e chuva — ainda estava impregnado nas fibras do meu paletó, um fantasma doce da noite em que eu fingi ser o homem que ela merecia. Mas a doçura foi brutalmente dissipada pelo cheiro de charutos caros e tensão acumulada.
No centro da sala de estar, meu pai, Charles Rockwell, estava de pé, uma silhueta de autoridade inabalável contra a vista da cidade. E, para minha surpresa, ele não estava sozinho. Sentado em uma das poltronas de couro, com a perna cruzada e uma expressão de tédio glacial, estava Richard.
Meu irmão mais velho. O herdeiro que escolheu o exílio em Singapura para não ter que lidar com a lama que Robert espalhava, mas que agora retornara como um juiz vindo do outro lado do mundo. Ao lado deles, um homem miúdo, de olhos inquietos e um gravador sobre a mesa, observava tudo. Um jornalista.
— Finalmente — a voz do meu pai cortou o ar como um chicote.
Ele não esperou que eu tirasse o paletó. Ele caminhou até a mesa de centro e, com um gesto violento, jogou um maço de fotografias. As imagens se espalharam sobre o mármore, brilhando sob a luz do lustre de cristal como fragmentos de uma explosão.
Eram fotos de Robert. O "Robert Real".
Em uma delas, ele estava saindo de um clube noturno em Miami, carregado por duas mulheres cujos nomes ele provavelmente nem sabia, com o rosto vermelho pelo álcool e a camisa aberta. Em outra, ele segurava um copo de uísque em uma das mãos e algo que parecia um cigarro de substâncias duvidosas na outra, rindo para a câmera com uma arrogância suicida. Havia fotos de orgias em coberturas de luxo, brigas de bar, e o pior de tudo: fotos dele entrando no tal apartamento em Paris com Elena, enquanto o mundo acreditava que ele estava se preparando para o noivado com a herdeira dos Valencourt.
— Até quando, Ryan? — Richard perguntou, sua voz calma demais, o que a tornava ainda mais perigosa. — Até quando você vai continuar sendo o zelador desse bordel que o Robert chama de vida?
Eu olhei para Richard. Ele sempre foi o "limpo". O filho que se afastou para manter a reputação intacta, deixando para mim o trabalho sujo de sustentar os alicerces da família enquanto Robert tentava implodi-los.
— Eu acabei de fechar o contrato com os Von Steiner, Richard — respondi, tentando manter a voz estável, embora o meu peito estivesse em brasas. — Salvei a logística europeia. O nome da empresa está sólido.
— A empresa está sólida, mas a nossa linhagem é uma piada! — meu pai explodiu, dando um soco na mesa que fez as fotos saltarem. — Este homem ao seu lado é o editor da seção de negócios do Chronicle. Ele tem em mãos material suficiente para destruir a fusão com os Valencourt e nos transformar no maior escândalo financeiro da década.
Olhei para o jornalista. Ele deu um sorriso amarelo, aquele olhar de quem sabe que tem a faca e o queijo na mão.
— Eu passei os últimos seis meses pagando informantes, abafando escândalos em delegacias e comprando o silêncio de tablóides — continuei, sentindo o cansaço de décadas pesando nos meus ossos. — Eu não passo a mão na cabeça do Robert. Eu impeço que o império que você construiu, pai, vire cinzas por causa da imbecilidade dele.
— Não — Richard levantou-se, caminhando em minha direção. — Você o protege. Você cria uma fachada de "irmão protetor" e "cunhado dedicado", mas o que você está fazendo é adiar o inevitável. Robert é um câncer. E você está tentando tratar um tumor maligno com aspirina.
Eu queria gritar. Queria dizer que eu não fazia aquilo pelo Robert. Que cada mentira que eu contava, cada contrato que eu salvava e cada noite de sono que eu perdia era por "ela". Por Anne. Para que ela não tivesse que acordar um dia e descobrir que o império de seu pai faliu e que seu nome foi jogado na lama junto com o de um Rockwell depravado. Mas eu não podia dizer o nome dela ali. Naquela sala, sentimentos eram fraquezas que Richard e Charles usariam para me manipular ainda mais.
Meu pai respirou fundo, tentando controlar a fúria. Ele se virou para o jornalista.
— Sr. Miller, obrigado por trazer isso a nós antes de publicar. Ryan cuidará dos detalhes da sua... compensação pelo silêncio.
O homem acenou, pegou o gravador e saiu escoltado por um segurança. Assim que a porta se fechou, o verdadeiro julgamento começou.
— Robert não vai escapar deste casamento — meu pai sentenciou, a voz agora num tom de decisão final que me fez gelar. — Eu não me importo se ele odeia a garota. Eu não me importo se ele quer viver em Paris com uma p****************o. Ele vai subir naquele altar. Ele vai colocar o anel no dedo de Anne Valencourt.
Aquela sentença era a pior possível.
— Pai, ele vai destruí-la — eu disse, dando um passo à frente, o desespero começando a rachar a minha armadura. — Você viu as fotos. Você sabe o que ele pensa dela. Se você o forçar a se casar com ela agora, depois de tudo isso, ele vai descontar nela cada grama de ódio que sente por ter sido obrigado a obedecer.
Richard soltou uma risada seca.
— E desde quando você se importa com os sentimentos da ruivinha, Ryan? É um negócio. Anne Valencourt é o preço que os Rockwell pagam pela expansão têxtil e pela estabilidade. Ela é uma peça.
— Ela é um ser humano! — minha voz saiu mais alta do que eu pretendia.
Meu pai me olhou de soslaio, seus olhos de águia estreitando-se.
— Ela é a solução para o seu irmão, Ryan. Robert precisa de uma âncora. Ele precisa de uma esposa que seja impecável, que tenha o respeito da sociedade, para que ele possa ser o que é nas sombras sem que isso nos afete. Se ele se casar com ela, ele terá a herança. Se ele se recusar...
Charles Rockwell deu um passo em minha direção, o rosto a centímetros do meu.
— Se ele se recusar, eu o deserdarei. Vou tirar cada centavo, cada imóvel, cada título. E ele sabe disso. Ele vai se casar com Anne nem que eu tenha que arrastá-lo pelo pescoço até a igreja.
Aquelas palavras foram como uma sentença de morte para Anne. Eu conhecia o meu irmão. Se Robert fosse forçado a se casar sob a ameaça de perder a sua fortuna, ele transformaria a vida de Anne em um inferno vivo. Ele a culparia por cada limitação, por cada regra, por cada obrigação. Ele a quebraria sistematicamente, não com cintadas como o pai dela fazia, mas com a tortura psicológica de ser desprezada, traída e humilhada diariamente no silêncio daquela casa.