Anne Valencourt
"Eu não esperava nada menos de você, Robert"
O nome saiu dos meus lábios como uma promessa silenciosa, um lembrete cáustico para mim mesma. Eu estava prestes a me casar. Não por amor, nem por escolha, mas por uma obrigação financeira que se transformou em uma armadilha. Me casaria com a crueldade personificada, o homem que acabara de me esfaquear com palavras frias no escuro isolamento do carro.
Não tente mais do que isso, ou eu farei você se arrepender de ter nascido.
As palavras de Robert ecoavam na minha cabeça como um veredicto. Ele era um homem forçado, sim, mas encontrava prazer sádico em fazer-me sentir a extensão total da minha miséria. O pior era a certeza. A certeza de que ele falava a verdade, de que ele faria o que fosse preciso para tornar a minha vida conjugal um inferno de indiferença e humilhação.
Recostei-me no banco de couro do Bentley, inalando o aroma caro do carro que agora pertencia, em essência, à família dele. O meu noivo (o meu marido de fachada, na realidade) continuava virado para a janela, o perfil cinzelado cortando a escuridão da Park Avenue como mármore frio. Ele não se deu ao trabalho de olhar para mim novamente. Ele já tinha dito o que precisava. O contrato estava assinado, o recado havia sido dado.
Eu fechei os olhos.
Eu não era ingénua. Eu sabia quem Robert era. Desde crianças, a nossa ligação era um campo minado. Enquanto o meu pai e Charles Rockwell trocavam brindes sobre a futura união dos seus filhos, Robert, o filho do meio, o designado para esta noiva recém-nascida, revirava os olhos com um desprezo que só aumentou com os anos. Ele nunca aceitou o destino. Ele via-me como o preço da liberdade que ele não podia ter, e jurou publicamente que jamais me daria o seu coração.
O meu casamento era uma anomalia numa época onde os casamentos arranjados já não eram ditados pela tradição, mas por um tipo de honra e conveniência muito mais c***l: a honra de um compromisso de nascimento. Richard, o primogénito dos Rockwell, já tinha uma noiva, uma herdeira europeia que convenientemente terminava os seus estudos fora do país. Salva pelo tempo e pela geografia. Ryan, o mais novo, o único dos três com quem eu troquei uma conversa que não me fazia querer chorar, era solteiro. Mas o casal Rockwell, impulsionado pela tradição e pela teimosia, insistiu que o compromisso original, feito com Robert para a noiva recém-nascida Valencourt, fosse cumprido. Robert era o filho do meio, mas o filho da promessa. E agora, a promessa era a minha ruína.
A minha, e a da minha família.
Charles Rockwell era o nosso salvador, o anjo n***o. E Henri Valencourt, meu pai, era o t**o orgulhoso que nos levou a este ponto. O império Valencourt não tinha falido, não oficialmente. Mas as decisões erradas de Henri nos últimos cinco anos foram catastróficas. Uma aposta arriscada num consórcio de portos asiáticos que desmoronou, investimentos desastrosos no setor imobiliário pós-pandemia... A sangria de capital foi tão rápida e profunda que os rumores, antes silenciosos, estavam agora à beira do grito. Estávamos perto de pedir concordata. A Fachada de Prata, o nome que a alta sociedade dava à nossa ilusória estabilidade, estava a desmoronar. O casamento com Robert era a injeção de capital necessária, o escudo de fogo que impediria a ruína total.
O carro parou. Não era o luxo espalhafatoso da propriedade Rockwell, mas o conforto familiar do meu próprio lar, na Quinta Avenida.
O motorista abriu a porta para Robert. Ele saiu sem me olhar, esticando-se por um momento antes de abrir a minha porta.
— Chegámos ao seu palácio. — Ele disse, sem emoção. — Certifique-se de que está pronta para amanhã. O espetáculo continua.
Eu não respondi. Apenas saí do carro e assisti-o desaparecer. Ele não ficaria. Ele já havia cumprido a sua parte da farsa: levar a noiva para casa. O motorista foi instruído a levá-lo de volta à propriedade Rockwell imediatamente. O meu corpo estava a salvo, mas a minha alma estava mais exposta do que nunca.
Eu entrei na casa. E foi aqui que a realidade da crise financeira me atingiu com a força de um soco.
A Mansão Valencourt, outrora um dos ápices da ostentação discreta de Nova York, tinha mudado. As mudanças eram subtis, quase impercetíveis para um convidado casual, mas gritavam para a filha da casa.
O vasto hall de entrada em mármore italiano, que costumava ser iluminado por duas luminárias de cristal Baccarat, estava agora mais escuro. Uma das luminárias tinha desaparecido. Eu sabia para onde tinha ido; para o leilão discreto que a minha mãe, sob ordens do meu pai, organizou há seis meses para cobrir o empréstimo da ponte.
A nossa empregada principal, a rigorosa Sra. Peterson, que parecia ter nascido para o serviço de luxo, não estava lá. Em seu lugar, estava uma jovem desconhecida, vestida com um uniforme que não era o nosso. Ela acenou-me com um sorriso hesitante e nervoso. A Sra. Peterson, soube eu, tinha sido dispensada, e o número de funcionários de serviço havia sido reduzido em quase metade. Cortes, cortes, cortes. A estética estava sendo mantida, mas a alma da casa estava a sangrar.
O cheiro era diferente também. Não era o aroma de flores frescas e cera de abelha que eu conhecia, mas um leve cheiro a desinfetante industrial, a marca de uma limpeza barata.
Subi a grande escadaria, o vestido de seda pesando em mim. O tapete persa, que cobria os degraus e valia uma pequena fortuna, parecia mais desgastado no centro. Eu sabia que Henri havia adiado a sua substituição, um custo que antes seria insignificante, mas agora era impensável.
O meu quarto ficava no final do corredor do segundo andar. Eu só queria chegar lá, trancar a porta, e desabar em lágrimas que não podiam ter sido vistas no St. Regis. Eu precisava de me despir da "Fachada de Prata" e enfrentar a minha miséria a sós.
Mas o meu desejo foi frustrado.
A meio do corredor, perto da entrada da suíte, a minha mãe esperava.
Ela estava vestida na perfeição, é claro. Um vestido de cocktail Chanel preto, os diamantes (os que ainda nos restavam) a brilhar. O seu cabelo ruivo estava impecavelmente penteado, e o seu sorriso era o epítome da graça social, mas os seus olhos... os seus olhos âmbar, que eram idênticos aos meus, estavam inundados de uma ansiedade que a maquilhagem não podia esconder.
Eu parei. Ela era o último obstáculo que eu precisava naquela noite. Eu sabia o que vinha a seguir. Ela não queria falar de Robert, da sua crueldade, nem da minha humilhação. Ela queria falar do bem maior.
— Anne. — Ela disse, a voz suave, mas com a autoridade que sempre usava para me impor a vontade de Henri. — Finalmente.
— Estou exausta, Mamãe. — Eu respondi, a voz rouca, sem querer prolongar o encontro. — Eu só quero ir para a cama.
— Não. — Ela deu um passo na minha direção, o som dos seus saltos no mármore ecoando no corredor. — Você não vai. Você vai entrar, vai tomar um chá e vamos conversar.
Eu acenei, derrotada. Entrei na sala de estar privada, um espaço acolhedor com lareira. A minha mãe serviu-me uma chávena de chá de ervas (era camomila, o seu remédio para tudo), e sentou-se, cruzando as pernas com aquela elegância imutável que ela usava como armadura.