O Peso da Coroa que eu não queria
A fumaça da camomila subia em espirais lentas, mas o aroma não me trazia paz. Era apenas o cheiro da sedação antes do abate. Minha mãe, Catherine Valencourt, me observava por cima da borda de sua xícara de porcelana, uma das poucas que ainda não haviam sido catalogadas para o próximo lote de "vendas discretas".
— Robert pareceu... firme esta noite — começou ela, escolhendo as palavras com a precisão de um cirurgião. — A imprensa adorou as fotos no St. Regis. O mercado reagiu positivamente no fechamento do after-market.
— "Firme" é um eufemismo generoso para "c***l", Mamãe — retruquei, sentindo o calor da xícara queimar minhas palmas. — Ele me ameaçou no carro. Ele me disse que faria minha vida um inferno se eu tentasse ser algo além de um adereço silencioso.
Catherine não vacilou. Nem um piscar de olhos. Ela apenas pousou a xícara no pires com um clique seco que ecoou na sala vazia.
— Robert é um homem sob pressão, Anne. O orgulho dos Rockwell é tão grande quanto a conta bancária deles. Ele não quer este casamento tanto quanto você, mas ele entende o dever.
— O dever dele é me humilhar? Ele estava flertando com Lídia Beaumont na nossa frente! — Minha voz subiu uma oitava, e o cansaço finalmente quebrou a barreira do meu autocontrole. — Todos viram. Eu era a noiva, e eu era invisível.
Minha mãe se levantou e caminhou até a janela que dava para a Quinta Avenida. As luzes da cidade brilhavam, mas para nós, elas pareciam estrelas distantes de um mundo ao qual já não pertencíamos inteiramente.
— Anne, olhe para este lugar — ela disse, sem se virar. — Olhe para as paredes. Você notou que as sedas de Damasco estão começando a desfiar nos cantos? Você notou que o aquecimento central foi desligado na ala leste para economizar?
Eu permaneci em silêncio. Eu havia notado.
— Seu pai não apenas "apostou errado", Anne. Ele penhorou a alma desta família. Se o contrato com os Rockwell não for selado em trinta dias, haverá oficiais de justiça no hall de entrada. Não para levar uma luminária ou um tapete, mas para colocar correntes nas portas.
Ela se virou, e pela primeira vez, vi a máscara de Catherine Valencourt rachar. Havia olheiras profundas sob a maquiagem impecável.
— Robert Rockwell é o preço que pagamos para não sermos o escárnio de Nova York. Você prefere a liberdade na pobreza ou a prisão na opulência? Porque, para nós, não existe uma terceira via. Se ele quer ser infiel, deixe-o. Se ele quer ser frio, seja gelo. Mas você vai subir naquele altar.
Aquelas palavras selaram o meu destino com mais força do que qualquer contrato assinado por Charles Rockwell. Eu não era apenas uma noiva; eu era o seguro de vida de um estilo de vida decadente.
— Onde está o Papai? — perguntei, mudando de assunto para evitar o grito que subia pela minha garganta.
— No escritório. Ele terá uma conversa com Ryan.
Minha cabeça girou.
— Com Ryan? O que o irmão mais novo dele vai fazer aqui a esta hora?
— Ryan é quem está auditando as contas para o consórcio Rockwell. Ele é o único que sabe a extensão real do buraco onde seu pai nos meteu. Charles não confia em Robert para os números, e Robert não tem paciência para eles. Ryan é... a mente por trás da nossa salvação.
Deixei a xícara de chá intocada sobre a mesa e me levantei. O cansaço físico fora substituído por uma curiosidade mórbida e uma necessidade desesperada de ver um rosto que não estivesse carregado de desprezo.
— Eu vou falar com eles. Provavelmente Ryan já deve ter chegado...
— Anne, não! Eles vão estar em meio a negociações sérias...
Ignorei o protesto da minha mãe e saí da sala de estar. Meus pés, ainda nos saltos altos, pareciam pesar toneladas enquanto eu percorria o corredor em direção ao escritório de carvalho pesado do meu pai.
Ao me aproximar da porta entreaberta, o som de vozes baixas me fez parar.
— ...os ativos de Cingapura são lixo, Henri. Você sabe disso. Eu sei disso. — A voz era de Ryan. Calma, profunda, destituída da agressividade desnecessária de Robert, mas carregada de uma autoridade fria. — Se meu pai descobrir que você inflou esses números antes da assinatura final do dote, nem mesmo o casamento da Anne vai salvar sua cabeça.
— Eu pretendia recuperar o valor antes da auditoria final... — A voz do meu pai soava velha. Quebrada.
— Você pretendia jogar o resto do que não tem — Ryan interrompeu. Ouvi o som de papéis sendo jogados sobre a mesa. — Eu limpei os rastros. Por enquanto. Fiz parecer um erro de contabilidade do consórcio asiático. Mas o preço do meu silêncio, Henri, não é apenas o casamento.
Prendi a respiração. Meu coração batia contra as costelas. Qual seria o preço de Ryan?
— O que você quer, Ryan? — perguntou meu pai, a voz trêmula.
— Eu quero que a Anne seja tratada com dignidade. Robert vai ser um marido terrível, todos sabemos disso. Mas eu não vou permitir que ele a arraste para a lama enquanto a sua família usam o dinheiro dela para salvar os próprios negócios imobiliários. Se ele a tocar com violência ou se a humilhação pública passar do limite do suportável, eu mesmo desfaço o acordo e deixo os dois impérios caírem. Entendido?
Houve um longo silêncio. Eu sentia minhas lágrimas finalmente caírem, quentes e silenciosas. Ryan estava me protegendo. No meio daquela guerra de abutres, o irmão do meu carrasco era o único que se importava se eu sobreviveria ao processo.
— Você tem um interesse estranho na minha filha, Ryan — meu pai murmurou, com uma ponta de desconfiança.
— Eu tenho um interesse na justiça, Henri. E Anne é a única pessoa inocente nesta sala.
Eu não podia mais ficar ali. Recuei silenciosamente, meus passos abafados pelo tapete gasto. Voltei para o meu quarto, tranquei a porta e, finalmente, deixei que a Fachada de Prata caísse. Despi o vestido de seda como se estivesse removendo uma pele que não me pertencia.
Deitada na escuridão, as palavras de Ryan ecoavam: Inocente.
Eu estava presa entre dois irmãos. Um que me odiava e me queria como troféu de sua própria frustração, e outro que me estudava como um problema matemático que precisava de proteção.
O casamento estava próximo. E eu sabia que, quando Robert colocasse o anel no meu dedo, ele não estaria apenas selando um contrato. Estaria declarando guerra. E eu, Anne Valencourt, teria que aprender a ser mais do que uma vítima. Eu teria que aprender a jogar o jogo deles antes que o gelo da Park Avenue me consumisse por inteiro.