Ryan Rockwell
O silêncio do meu escritório particular na ala oeste da propriedade Rockwell era quebrado apenas pelo som rítmico e irritante do meu celular batendo contra a mesa de mogno. Eu já havia discado o número de Robert doze vezes nos últimos vinte minutos. Todas as chamadas caíram na caixa postal.
— Atende, seu idiota... — rosnei para as paredes, sentindo o nó da minha gravata apertar minha garganta mais do que o necessário.
Eu sabia exatamente onde ele provavelmente estava: algum loft clandestino no Soho ou um iate em Long Island, cercado por pessoas que se alimentavam do seu dinheiro e da sua inconsequência. Robert não entendia que o tempo não era um luxo que possuíamos. Ele via o casamento com Anne como uma coleira; eu o via como a única linha de defesa contra o colapso de duas dinastias.
Se ele não aparecesse para o ensaio técnico e para o jantar privado com os investidores na manhã seguinte, a farsa que montei no St. Regis começaria a descascar. Eu conseguia imitar seu sorriso torto, sua arrogância e até o tom de voz, mas eu não podia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Eu não podia ser o CEO nas sombras e o noivo devasso para sempre.
Lembrei-me do rosto de Anne quando deixei a mansão Valencourt. A tristeza dela era quase física, uma névoa que a envolvia. Ela acreditava que estava se casando com um monstro. E o pior era que eu tinha que deixar que ela acreditasse nisso. Se eu fosse gentil demais, se eu fosse Ryan por um segundo que fosse, ela me desmascararia. E Anne, com toda a sua integridade ferida, era o elemento mais perigoso daquela equação.
Eu a chamei de "inocente" para o pai dela porque era a verdade. Henri Valencourt via a própria filha como um cheque em branco. Para ele, Anne era o custo de seus erros. Aquilo me causava uma náusea que nenhum valor de mercado poderia justificar.
O telefone vibrou na mesa. Meu coração saltou, esperando ser Robert.
Não era. Era a secretária particular do meu pai.
— Ryan? — A voz da Sra. Gable era baixa, cautelosa. — Seu pai quer vê-lo na biblioteca. Agora. Ele está com os relatórios do consórcio asiático na mão. E ele não parece satisfeito.
— Obrigado, Gable. Já estou indo.
Guardei o celular no bolso, sentindo o peso do segredo queimar. Robert era o filho da promessa, mas eu era o filho da execução. Eu mantinha as luzes acesas, as ações em alta e os escândalos enterrados. Mas se Charles Rockwell descobrisse que o noivo da aliança Valencourt estava em algum lugar de Manhattan injetando álcool nas veias enquanto o irmão mais novo usava sua identidade, o inferno seria pouco para o que aconteceria a seguir.
Caminhei pelos corredores da mansão, passando por retratos de antepassados que pareciam me julgar. A biblioteca era o território sagrado de Charles. O cheiro de couro velho e uísque era onipresente ali.
Meu pai estava de pé, de costas para a porta, observando as luzes da cidade através da janela de vidro duplo.
— Ryan. Entre — disse ele, sem se virar. — Estive olhando os números que você preparou para a fusão.
— Há algum problema, senhor? — perguntei, assumindo minha postura de auditor, a máscara de eficiência que eu aperfeiçoei durante anos.
— O problema não são os números. São os Valencourt. — Ele se virou, os olhos frios e calculistas. — Henri é um amador. Ele tentou esconder o rombo dos ativos de Cingapura até o último segundo. Se você não tivesse intervindo e "ajustado" a contabilidade, os acionistas teriam cancelado tudo.
— Foi um movimento necessário para garantir a estabilidade do consórcio, pai.
Charles deu um passo à frente, jogando uma pasta sobre a mesa.
— Eu sei disso. O que eu não entendo é por que você está sendo tão... minucioso em proteger a garota. Robert me disse que você andou dando instruções sobre como ela deve ser tratada.
Senti um calafrio subir pela espinha. Robert lhe disse? Quando? Robert devia ter falado com o pai antes de fugir, plantando sementes de discórdia apenas por diversão maldosa.
— Anne é a peça central da fusão — respondi, mantendo a voz estável. — Se ela desmoronar ou se o casamento se tornar um escândalo público antes da consolidação dos ativos, perdemos o controle sobre a diretoria dos Valencourt. Estou apenas garantindo o investimento.
Charles me estudou por um longo tempo. O silêncio na biblioteca era opressor.
— Espero que seja apenas isso — ele murmurou, a voz carregada de uma suspeita que ele ainda não conseguia nomear. — Robert é um animal difícil de domar, mas ele é o noivo. Ele precisa manter a aparência de interesse. Onde ele está agora? Tentei falar com ele sobre o contrato pré-nupcial e ele não atende.
— Ele saiu para... celebrar o último dia de liberdade, suponho — menti com uma facilidade que me assustou. — Eu o vi saindo. Ele disse que precisava de ar.
— Ele que tome cuidado com esse "ar" — Charles rosnou. — Se ele se atrasar para o ensaio de amanhã, eu mesmo o arrastarei pelos cabelos. Ryan, você é quem cuida desta empresa. Se o seu irmão falhar, a culpa será sua por não tê-lo mantido na linha.
— Entendido, senhor.
— Pode ir. E Ryan... — Ele me chamou quando eu já estava na porta. — Não deixe sua empatia interferir nos negócios. Os Valencourt são nossa aquisição, não nossos amigos. Anne é apenas o selo no documento.
Saí da biblioteca com o sangue fervendo. Apenas o selo.
Voltei para o meu quarto e peguei o celular. Uma nova mensagem de um número desconhecido piscou na tela.
"Relaxa, maninho. A festa está ótima. Digam à ruivinha que eu mando lembranças. Ou não. Tanto faz."
Era Robert. A raiva me dominou. Ele estava brincando com a vida de Anne, com a sobrevivência da nossa família e com a minha sanidade.
Eu olhei para o relógio. Faltavam seis horas para o nascer do sol. Se Robert não voltasse, eu teria que ser Robert novamente. E, desta vez, eu não teria apenas que protegê-la das palavras dele, mas teria que descobrir como olhá-la nos olhos sem deixar transparecer que o homem que ela odiava era, na verdade, o único que estava lutando para mantê-la inteira.