Capítulo 6

1271 Palavras
Ryan Rockwell O som do "clique" ao final da chamada foi como o gatilho de uma arma disparada contra a minha têmpera. Por alguns segundos, o silêncio que se seguiu no meu escritório foi mais ensurdecedor do que qualquer grito. Robert tinha feito de novo. Ele tinha a faca e o queijo na mão, e ele sabia exatamente onde girar a lâmina para me fazer sangrar. — Aquele desgraçado... — As palavras saíram entre dentes, mas a fúria que subia pelo meu peito não era contida por palavras. Agarrei o copo de cristal de uísque que estava sobre a mesa — um Macallan caro que eu nem tinha chegado a provar — e o arremessei contra a parede oposta com toda a força que o meu desespero permitia. O som do cristal estilhaçando contra o papel de parede de seda foi satisfatório por um milésimo de segundo, antes que a realidade do que Robert tinha acabado de me dizer voltasse a me sufocar. "Você começou o show, Ryan. Agora termina," ele tinha dito, a voz arrastada pelo álcool e por uma diversão doentia. "Se eu voltar agora e disser ao papai que você tomou o meu lugar no St. Regis, o velho infarta. E se eu não voltar, o contrato cai. De qualquer forma, os Valencourt não recebem um centavo. A ruivinha vai para a rua da amargura com o orgulhoso do Henri. Então, escolha: ou você continua sendo eu, ou você assiste o império dela queimar." Eu perguntei a ele, com a voz trêmula de ódio, como ele esperava que eu fizesse aquilo. Como eu poderia ser o noivo no altar e o cunhado sentado na primeira fila? Como eu poderia ser dois personagens na mesma história trágica? E a resposta dele foi a cartada final da sua loucura inconsequente: "Dê um jeito, gênio. Você sempre dá um jeito. Eu apareço no final, trocamos de lugar antes da festa, e ninguém percebe. Ou talvez eu nem apareça. O mundo é seu, maninho." Ele desligou. Ele tinha pedido para fazer essa loucura. Ele sempre desligava quando o incêndio já estava alto demais para ser apagado. Afundei na minha poltrona, sentindo os estilhaços de vidro brilharem no chão como as promessas quebradas da nossa família. Robert sempre soube que eu o livraria. Desde que éramos crianças, essa era a nossa dinâmica distorcida. Robert quebrava, Ryan consertava. Robert pecava, Ryan pagava a penitência. Fechei os olhos e, por um momento, a escuridão do escritório foi substituída pela luz intensa de um verão em Southampton, vinte anos atrás. Eu tinha oito anos. Robert tinha pegado o carro de golfe do meu pai e o batido contra a estátua de mármore preferida da minha mãe no jardim. Charles Rockwell, em um de seus acessos de fúria que faziam os criados tremerem, exigiu saber quem era o culpado. Robert, com o rosto pálido e as mãos tremendo, olhou para mim. Eu sabia o que ele queria. Eu sempre soube. Eu dei um passo à frente e aceitei a culpa. Meu pai não gritou. Charles não era homem de gritos; ele era um homem de punições frias. Ele me arrastou para o depósito de ferramentas e o cinto de couro estalou contra as minhas costas e braços até que eu não conseguisse mais chorar. Robert assistiu pela fresta da porta, seguro, enquanto eu absorvia o ódio que era destinado a ele. Depois que meu pai saiu, cambaleei até o jardim, escondendo sob os salgueiros-chorões perto da propriedade dos Valencourt. Eu estava sangrando, minha pele em brasa, o peito soluçando. Foi lá que ela me encontrou. Anne. Ela não tinha mais de seis anos, um pequeno anjo de cabelos ruivos e olhos enormes que transbordavam uma preocupação que ninguém na minha casa jamais demonstrara. Ela não perguntou o que tinha acontecido. Ela apenas se ajoelhou na grama ao meu lado, tirou um lenço bordado do bolso do seu vestido de renda e começou a limpar a terra e o sangue do meu braço. — Dói muito? — ela sussurrou, a voz doce como mel. — Não — menti, com a coragem tola de um menino que queria parecer forte. Ela não acreditou. Ela se inclinou e assoprou o machucado com um carinho tão puro que, por um momento, a dor sumiu. — Minha babá diz que o arzinho cura — ela disse, dando um beijo casto no meu pulso. — Agora vai passar. Eu olhei para ela e, naquela época, m*l sabia que aquele pequeno gesto de bondade me acorrentaria a ela para o resto da vida. m*l sabia ela que eu estava apanhando pelo próprio homem que um dia seria o seu carrasco. Robert sempre soube que eu o livraria, e ele usava isso como uma arma de destruição em massa. Agora, anos depois, o cenário era o mesmo, apenas o preço tinha aumentado. Robert estava me forçando a ser o vilão na vida da única pessoa que tinha sido meu anjo. Eu tinha que ser o "Robert Rockwell" que a desprezava, que a humilhava, que a tratava como um fardo, para garantir que o dinheiro dos Rockwell fluísse para as contas do pai dela. Se eu revelasse a verdade, meu pai cortaria os laços com os Valencourt no mesmo instante, por "quebra de confiança". Henri seria arruinado. Anne seria exposta. Eu teria que ser o noivo e o cunhado. Eu teria que entrar na igreja como Robert, sob o olhar de centenas de pessoas, e de alguma forma, desaparecer e reaparecer como Ryan nos momentos necessários. Era uma loucura logística, um plano destinado ao fracasso. Mas o fracasso significava ver Anne na sarjeta, e isso era algo que eu não permitiria. Levantei-me da poltrona, caminhando sobre os restos do copo estilhaçado. Cada estalo do vidro sob meus sapatos era um lembrete: eu sou o suporte desta casa. Se eu cair, tudo cai. Caminhei até o espelho de corpo inteiro no canto do escritório. Ajeitei o cabelo, forçando a expressão de tédio e arrogância que Robert usava como máscara. Pratiquei o olhar de soslaio, o levantar de sobrancelha desdenhoso. "Eu odeio você, Anne," eu teria que dizer com o olhar no altar. Mas, por dentro, cada fibra do meu ser estaria gritando o contrário. Estaria gritando que eu era o menino sob o salgueiro, ainda sentindo o sopro frio de sua bondade no meu braço machucado. O relógio de pêndulo na biblioteca bateu três horas da manhã. Robert podia ter a faca e o queijo, mas ele se esqueceu de uma coisa: eu sou o estrategista. Eu passei a vida limpando a sujeira dele, e se eu tivesse que me transformar em dois homens diferentes para salvar a vida da mulher que eu amava em segredo, eu o faria. Mesmo que isso significasse que, ao final do dia, a única coisa que sobraria de Ryan Rockwell seria uma sombra, perdida entre o papel que eu era obrigado a desempenhar e o homem que eu nunca poderia ser para ela. Fui até a janela e olhei para a escuridão na direção da mansão Valencourt. — Aguente firme, Anne — sussurrei para o vidro frio. — O espetáculo vai começar, e eu prometo que, no final, eu serei o único que restará para te segurar quando a fachada finalmente cair. Amanhã, o mundo veria Robert Rockwell com Anne Valencourt. Mas eu saberia a verdade. E eu levaria esse segredo para o altar como se fosse a minha própria cruz, rezando para que ela nunca descobrisse que o homem que ela odiava estava, na verdade, dando a alma para que ela nunca mais tivesse que limpar o sangue de ninguém.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR