Dias atuais...
Acordei sentindo a boca seca e um gosto amargo na língua. Forcei-me a abrir os olhos, mas o clarão, provavelmente do sol, não permitiu.
Comecei a tossir. Tentei me virar para o lado quando percebi minha respiração se alterar.
Voltei à posição em que estava e só então me dei conta de que estou em um hospital.
O barulho dos aparelhos invadiu meus ouvidos, e o cheiro forte de antisséptico, misturado ao de desinfetante, fez meu estômago revirar. Uma onda de náusea subiu pela garganta.
Num impulso, tentei me levantar. A cama girou. O quarto girou junto.
— Calma, calma. Respira devagar.
Ele me segurou, tentando me fazer deitar outra vez. Olhei para Daniel, tentando entender como vim parar ali. Não lembro de nada. Tudo é um borrão.
— A-água. Pedi com dificuldade. Minha garganta parecia cheia de areia.
Ele se afastou, apertou um botão e elevou um pouco a cabeceira da cama, deixando meu corpo inclinado. Serviu-me um copo de água.
— Você me assustou, Evelyn.
Respirou profundamente enquanto me ajudava a beber pequenos goles.
Quando a tontura diminuiu, segurei o copo sozinha. Ele passou a mão pelo cabelo, visivelmente cansado. — Droga, Evelyn. Quando vai nos permitir ajudá-la? Você não está nada bem.
Desviei o olhar.
— Quanto tempo estou aqui?
Ele soltou um riso sem humor.
— Dois dias. Você está dormindo há exatamente dois malditos dias. Voltou a usar drogas. E não ouse mentir para mim.
Minha respiração, que começava a se estabilizar, voltou a falhar. Eu tinha pavor de gritos. Sempre entrava em pânico.
— Eu... eu... eu...
Percebendo meu estado, ele se aproximou.
— Desculpa, querida. Eu me esqueci. Me perdoa. Sou seu irmão, Evelyn. E me dói vê-la nesse estado. Quando vai me permitir ajudar?
As lágrimas vieram quentes, mas eu não conseguia soltá-las.
— Quero ir para casa. Não precisa se preocupar. Estou bem, Daniel.
Afastei-me bruscamente. Ele soltou um riso seco.
— Quando vai aceitar que sou seu irmão? Sua família? Não me culpe pelos erros do nosso pai. Se não quer a ajuda dele... tudo bem. Mas pelo menos aceite a minha.
— Eu só quero ficar sozinha e viver a minha vida. É pedir muito?
Gritei, mas da minha boca saiu apenas um sussurro frágil.
— Não estamos tentando privar você de viver, Evelyn. Principalmente o nosso pai. Tudo o que ele quer é o seu perdão e cuidar de você.
Não respondi. Passei a brincar com os dedos, nervosamente. O médico entrou no quarto, e senti um alívio imediato por aquela interrupção.
— Bom dia! Cumprimentou educadamente. — Como está se sentindo?
— Estou bem. Já posso ir para casa?
Ele sorriu, paciente.
— Você não está nada bem, senhorita. Precisa parar com as drogas. Encontramos vestígios no seu sangue. Elas estão destruindo seu corpo aos poucos. Também precisa se alimentar corretamente. Desmaiou por exaustão e por falta de uma boa alimentação.
Desviei o olhar, envergonhada.
— Creio que ela ouvirá suas recomendações, doutor. Disse Daniel. — Essa fase vai passar. Eu vou apoiá-la em tudo.
— O apoio da família é fundamental. Posso recomendar uma clínica de reabilitação, se desejarem.
Parei de movimentar os dedos e ergui o olhar.
— Não sou viciada! Tentei me levantar. — Não vou a lugar nenhum.
O médico se aproximou.
— Calma. Você ainda está fraca por causa dos medicamentos. Precisa cuidar do corpo. Ele não vai aguentar muito tempo assim.
Afastei-me, percebendo que vestia apenas uma bata hospitalar. Mesmo assim, não ficaria ali nem mais um minuto. Arranquei o acesso venoso sem me importar. Entrei no banheiro e procurei minhas roupas. Não estavam ali.
— Onde estão minhas roupas? Perguntei, a respiração descompassada.
Daniel me entregou uma bolsa. Peguei-a e fechei a porta. Encostei-me nela e comecei a chorar em silêncio, com a mão na boca.
Minutos depois, respirei fundo, tirei a bata e entrei no chuveiro. A água morna caiu sobre meu corpo, aliviando parte da tensão. Soltei o ar devagar, exausta.
Quando saí, o médico já não estava mais ali.
Daniel permanecia sentado, pernas cruzadas, olhar fixo na porta do banheiro.
— Prometa que vai pelo menos pensar no assunto.
— Quero ir embora. Pode chamar um táxi para mim?
Ele passou a mão no cabelo, nervoso.
— Eu vou levá-la. Só pense, Evelyn. Lembre que você tem uma...
— Só quero ir embora, Daniel. Ou vou precisar ir andando?
Ele suspirou e concordou com a cabeça.
Pegou minha bolsa e saímos.
O caminho foi silencioso. Desconfortável. Mas eu não queria conversar. Só queria paz.
Quando ele estacionou na garagem, saltei do carro antes que pudesse abrir a porta para mim.
— Não adianta correr. Vou ficar com você até amanhã. Quero me certificar de que há comida nessa casa e de que você vai se alimentar. Ou então usarei meus meios para interná-la à força. E acredite, estou muito perto de fazer isso.
Não respondi. Entrei, subi para o quarto, abri as janelas e me joguei na cama. Respirei fundo, cansada de tudo.
Foi então que percebi. As janelas da casa ao lado estavam abertas. Nunca estiveram abertas desde que soube que alguém morava ali.
Senti uma curiosidade súbita sobre quem seriam os novos vizinhos. Mas eu estava exausta demais para descobrir.