Anos antes — Evenly:
— Você é uma vagabunda! Inválida! Não presta nem para fazer uma comida, a não ser para ir para as esquinas!
Meu pai gritava com minha mãe na cozinha e, embora eu tentasse me distrair com minhas bonecas, escutava cada palavra reverberar pelos cômodos da casa.
Eu não entendia muito bem os adultos. Eles me mandavam calar a boca a todo instante, obrigavam-me a falar sempre baixinho, com os olhos fixos no chão, nunca olhando para eles. Ainda assim, tinham a mania de conversar aos gritos, cuspindo um na cara do outro e dizendo palavrões que eu m*l tinha coragem de repetir.
— Vagabundas são as mulheres que você encontra na rua, seu filho da p**a! Acha que vou ficar esquentando a barriga no fogão para agradar macho? Com esse corpinho lindo e maravilhoso que tenho?
Mamãe gritava de volta, sem se deixar intimidar.
Eu morria de medo. E se eles se matassem?
— Eu nunca te traí. Já você…
Ele não completou a frase. Passou mais uma vez pela porta do meu quarto e me encarou com raiva e nojo.— Sai e me deixa aqui, presa a essa criança, enquanto fica desfilando para riquinhos na rua. Eu sei que eles vivem atrás de você, sua prostituta. Conheço a raça. Esses são os piores, se fazem de bons para a sociedade, mas escondem os podres debaixo do tapete.
Ele olhou para mim mais uma vez. Encolhi-me, com medo de que me fizesse algo.
— Por que você é uma deles, não é? Se casou comigo porque quis. Gosta da vida fácil que te dou. Um bandidinho de merda.
Mamãe deu uma risada cheia de cinismo. Ouvi coisas sendo atiradas na cozinha.
Comecei a escovar os cabelos da boneca freneticamente, tentando me refugiar no meu mundo imaginário.— Todo mundo sabe que você não passa de um matador barato e um passador de drogas.
O estrondo de algo se chocando contra a parede me fez estremecer.
— Nunca mais repita isso, vagabunda! Ele rosnou.
Pelo tom da voz, senti aquele pânico infantil que me deixava quase cega de desespero. Escutei a voz da minha mãe engasgada, como se tentasse falar, enquanto meu pai gritava como um louco e batia algo, ou alguém, contra a parede.— Nunca mais repita isso, entendeu?!
Ele estava transtornado. Sua voz assumia um tom estranho, capaz de machucar mesmo à distância.
Eu sempre chorava, mesmo sem ver nada. Nessas horas, uma angústia absurda tomava todo o meu corpo. Respirar ficava difícil, pois, mesmo aos meus seis anos, eu me perguntava onde viveria e o que aconteceria se ele a matasse.
Eu não tinha mais ninguém. Nem sequer sabia se eles me amavam.
O que seria de mim?
Ela dizia que sairia daquela casa e não me levaria junto.
Ele dizia que, se um dia ela saísse, que me levasse também, para nunca mais voltar.
Os dois discutiam. Copos eram quebrados, gritos e tapas varavam a noite e, então…
Na nova casa, meu quarto ficava afastado de todo o restante. Havia uma janela voltada para outro quarto, ou algo que parecia um sótão, muito parecido com o meu.
E, apesar da vista ser bonitinha, eu sentia falta das minhas flores cor-de-rosa da antiga casa.
Nos primeiros dias, permaneci a maior parte do tempo trancada no quarto. Quanto mais eu ficava ali, quieta, menos gritos ouvia dos meus pais.
Até que, certo dia, resolvi me distrair e passear pelo pequeno quintal.
Foi então que descobri que os fundos da casa não eram murados. Eram divididos apenas por um espaçamento que eu m*l compreendia. Aquilo separava a nossa casa da casa do vizinho.
Eu quase nunca saía de casa e passei a observar a residência ao lado com curiosidade. Nunca ouvia vozes nem barulhos vindos dali. Tudo parecia calmo, tranquilo demais. Nem mesmo parecia morar alguém.
Não se via muitas pessoas pelas ruas. Parecia um lugar de gente rica, como dizia mamãe.
Foi um dia que vi, pela primeira vez, uma garotinha como eu.
Com certeza era mais velha. Tinha cabelos e olhos castanho-escuros e uma postura reservada, quase adulta. Estava sentada na bancada da varanda, com as pernas cruzadas, me encarando como se eu fosse de outro planeta.
Os cabelos estavam cuidadosamente penteados; os fios brilhavam e m*l se mexiam. Sem avisar, ela sorriu.
Eu nunca tivera contato com outras crianças. Nunca havia ido à escola ou a qualquer lugar parecido, então sentia receio de me aproximar. Ao mesmo tempo, a curiosidade me corroía, empurrando-me na direção da casa ao lado.
Um garoto loiro, sentado um pouco mais afastado, apenas balançou a cabeça. Nenhum sorriso. Ele nunca dizia nada, mas sempre me observava da varanda.
Logo apareceu a mesma mulher que eu tinha visto no dia da mudança. Ela era muito elegante, ao contrário de mamãe. Os cabelos escuros estavam presos em um coque perfeito. Surgiu ao lado do menino, gritando com ele e fazendo uma cara feia para mim.
Me encolhi, sem entender aquela reação, perguntando-me por que os adultos nunca gostavam de mim. Será que as crianças também eram assim?
Talvez fossem, pois nos dias que se seguiram o garoto parou de me observar da varanda, e eu voltei a ficar sozinha.
Mas a solidão, dessa vez, durou pouco.
Certa tarde, enquanto eu brincava com minhas bonecas no quintal, vi o garoto parado bem ao meu lado, me observando. Ele não estava distante como antes. Arriscou-se a chegar mais perto, pousando as mãos nos bolsos da calça como se fosse um adulto.
Achei engraçado. Passei a observá-lo com genuíno interesse.
O rosto dele era bonito. Cabelos loiros e olhos de cor âmbar, parecidos com os do meu ursinho de pelúcia. Era mais alto do que eu.
Soube desde o primeiro segundo: era o garoto que eu tinha visto quando me mudei para ali, o mesmo que me observava da varanda.
— Oi. Disse timidamente.
Diferente dos outros dias, em que apenas me olhava à distância, sempre calado, hoje ele não hesitou em falar comigo.
Nem parecia o mesmo garoto.
Achei engraçado o cabelo dele. Não usava gel, como antes, quando os fios ficavam duros e brilhantes. Agora estavam revoltos, meio bagunçados. Tinha um ralado em um dos joelhos, a calça um pouco rasgada, os pés descalços e uma mancha na gola da camisa.
Me senti acuada, sem saber o que responder ao menino descalço, balancei a cabeça em um cumprimento tímido.
Ele deu um passo em minha direção, enfiando a mão de dedos sujos entre os fios do próprio cabelo. — Oi. Qual é o seu nome?
Estendeu a mão suja na minha direção, e senti o coração bater mais forte. Atraída por uma mistura estranha de curiosidade e fascínio, respondi:
— Evelyn.
Ele voltou a mirar meu rosto, como se analisasse cada detalhe da minha expressão. Franziu o cenho ao me observar com uma genuína curiosidade e, então, disse:
— O meu é Alec.
— Oi, Alec. Disse afastando um fio de cabelo dos olhos.
A mão dele ainda permanecia estendida, esperando pela minha. Mirei a palma aberta por alguns segundos antes de tocá-la.
Aquele foi o instante que mudaria por completo nossos destinos.
E, de repente, meu maior medo passou a ser que eles fossem embora dali, levando com eles meu único amigo. Alec.