Capítulo 8

842 Palavras
Alec: Eu já estava prestes a ir embora. Na verdade, eu nem deveria ter vindo. Mas, quando ela subiu ao palco, minha mente simplesmente nublou. Observei enquanto conversava com os músicos e, em seguida, pedia desculpas ao público que a aguardava. Contudo, não pude ignorar seus olhos quebrados, a voz arrastada, o corpo trêmulo. Ela estava bêbada, e algo mais que eu não conseguia decifrar.Porém, nada que impedisse aquela capacidade infalível de cantar de forma devastadoramente bela. Balancei o copo de uísque enquanto a assistia da área privada do bar. Com uma das mãos fechadas em punho, ela levou ao peito como se buscasse amenizar uma dor que não conseguia esconder. E continuo: "Eu digo que não me importaria se você partisse Mas toda vez que você está lá, te imploro para ficar Quando você chega perto, eu simplesmente tremo..." Soltei um sorriso anasalado, irônico. Nada daquilo fazia sentido. Muito menos aquela parte do refrão. Ela continuou: "Só o amor pode machucar assim Só o amor pode machucar assim..." Levantei-me de súbito quando a vi desabar de joelhos, cantando e chorando ao mesmo tempo. Eu estava pronto para ir até lá, mas meus pés travaram quando meus olhos encontraram Daniel. Minhas mãos fecharam em punho, apertando o copo até ele quase se partir. Respirei fundo, tentando entender o que diabos Daniel Wish fazia ali. Aqui. Em Stanford. Ele a levantou com delicadeza e conduziu uma dança lenta, como se fosse um casal romântico. Meu corpo estremeceu de raiva; eu queria socá-lo até não restar nada. Para quem não a conhece, aquela dança pareceria parte do espetáculo. Mas não. Havia algo errado. Algo profundo. E ninguém a conhece melhor que eu. Antes que ela terminasse de cantar, saí do bar. Não suportava aquela cena. Por quem ela realmente sofre? Por ele… ou por aquele desgraçado com quem ela teve um envolvimento? De qualquer modo, não é da minha conta. Atravessei o bar às pressas, quase atropelando quem estivesse no caminho. Meu peito subia e descia, tomado por uma raiva que eu não queria, mas que veio de qualquer forma. Eu estava com raiva, ódio, e não voltaria mais ali. Nunca mais. Na volta para casa, meus pensamentos estavam desordenados. Havia uma fúria dentro de mim tão intensa que eu m*l conseguia respirar. Eu era a desgraça perfeita: um masoquista obcecado que parecia sentir prazer no próprio sofrimento. Estacionei o carro de qualquer maneira e entrei feito um louco. Subi para o quarto, abri o closet e joguei as malas sobre a cama. Abri-as, e, aos poucos, comecei a empurrar as roupas para dentro. Logo comecei a socar freneticamente cada peça, como se isso aliviasse alguma coisa. Gritei de ódio, de raiva. Depois, me joguei na cama, tentando recuperar o controle. Meu peito subia e descia, e meu coração batia de forma desordenada. Fiquei assim por segundos… minutos… talvez horas. Não sei ao certo. Só despertei quando ouvi o som de um carro na garagem dela. Ela devia estar chegando. Me recompus. A passos lentos, fui até a janela e afastei a cortina. Evelyn estacionou e entrou correndo. Daniel apareceu segundos depois. Franzi a testa, estranhando aquela cena. Meus olhos se desviaram dele e pousaram na luz do quarto dela, que se acendeu. Para meu completo espanto, ela abriu as janelas completamente. Parecia ofegante, tentando disfarçar alguma coisa. Daniel entrou logo atrás, se aproximou dela e a encarou como se estivesse analisando minuciosamente. — O que você quer? Ela gritou, afastando-se dele. — Estou bem, Daniel. Ele fechou os olhos, respirou fundo e respondeu: — Não, não está. Você sumiu o dia todo, fiquei preocupado. E não ouse mentir dizendo que estava no hospital, porque eu liguei para lá. Você nem mesmo cumpriu sua carga horária. Disseram que você está demitida. Minha testa se franziu involuntariamente. Ela levou a mão ao peito como se tivesse sentido algo rasgar por dentro. — E-eu… não preciso que se preocupe comigo. Estou bem… Disse, com a voz quase inaudível. — Não, você não está bem. Como eu não vou me preocupar com você? Saí de uma reunião feito um louco porque você simplesmente não atendia a p***a do celular. A Sara pergunta por vocês todos os dias, c*****o. Olha para você, Evelyn… nem mesmo está se alimentado. Eu observava tudo sem entender absolutamente nada, eles estavam falando tão alto que toda a vizinhança poderia ouvir. Ela virou de costas e murmurou: — E-eu não posso… não posso… De repente, seu corpo cedeu. Antes que atingisse o chão, Daniel a segurou pela cintura. Meus olhos se arregalaram, meu coração disparou, bombeando freneticamente. Ele a tomou nos braços e saiu de casa. E eu, paralisado na janela, sem conseguir me mover, mas com uma unica certeza. Eu precisava descobrir o que, de fato, estava acontecendo com Evelyn. Eu sabia exatamente o que fazer. E não hesitaria. Ainda que fosse contra a lei. Pouco me importava com isso agora. Apenas uma certeza pulsava dentro de mim, tão intensa quanto a fúria que me consumia: eu descobriria o que estava acontecendo.
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