Evelyn:
Eu deveria estar me preparando para a noite, mas, honestamente, não queria sequer ter saído de casa. Perdi a vontade de fazer qualquer coisa. Juro que tentei. Contudo, não estou conseguindo permanecer nem mesmo no lugar que sempre amei: o hospital.
Respirei fundo, tentando conter a avidez quase insuportável de beber e usar drogas. Queria ser forte, mas não sou. Levantei-me e abracei os joelhos, em uma tentativa frágil e frustrada de conter o impulso devastador que parecia corroer cada ínfima parte de mim.
— Você vai conseguir. Você consegue, Evelyn. Sempre deu um jeito. Sussurrei para o vazio, como se palavras pudessem ressignificar a ruína.
Meu telefone começou a tocar. Olhei para o lado, sem vontade alguma de atender. O toque insistiu, cortando o silêncio mais uma vez. Por fim, cedi. Atendi sem olhar para o visor.
Respirei profundamente e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, uma voz que eu não ouvia havia anos surgiu do outro lado da linha.
Ligação:
Mulher: — O que está fazendo em Stanford? Ouvi o som de algo se estilhaçando ao fundo. — Mandei você ficar longe. Volte para o lugar de onde nunca deveria ter saído, sua prostituta.
Encolhi-me, pequena e acuada, como um animalzinho encurralado.
— Eu... eu... eu... Forcei minha boca a formar palavras, mas nada saía.
Mulher: — Não quero ouvir sua voz. Você é patética. O que pensa que está fazendo? O que está tramando, sua desgraçada? Ele não quer você. Nunca quis.
Minha respiração ficou pesada, instável.
— E-eu... estou longe. Respondi, a voz trêmula, embargada pelo choro.
Ela desligou na minha cara. Levantei-me num rompante e comecei a andar de um lado a outro, como se meu corpo tentasse fugir das vozes que reverberam na minha cabeça. Sem suportar a pressão, fui até o banheiro e abri o armário falso que mandei fazer para esconder as drogas do Daniel.
Encarei o pacote com o pó branco. Respirei uma, duas, três vezes.— Se acalme, Evelyn. Não permita que isso te domine.
Mas a angústia, a raiva e a dor me engoliram. Eu sabia que só assim conseguiria respirar de novo, ainda que fosse uma respiração deturpada. Eu não queria mais viver lúcida, viveria à partir de hoje fora de órbita. Ser lúcida doía, e eu, não queria mais essa dor.
[...]
Abri os olhos. Tive a sensação de que havia dormido por horas, mas a verdade é que só os fechei por alguns minutos.
Passei o dia consumindo drogas e bebida. Quando olhei para o relógio, percebi que já estava quase na hora de ir para minha apresentação no bar Luxe Lounge. Eu, porém, não sentia a mínima vontade de nada. Comecei a chorar. Minha cabeça latejava, e eu ainda estava completamente entorpecida.
Levantando com dificuldade, fui até o banheiro. Encarei meu reflexo no espelho. Não fazia ideia de como tinha chegado àquele estado. Eu era apenas uma casca, nada além disso.
Me joguei debaixo do chuveiro, com roupa e tudo. Precisava ao menos melhorar a aparência. Passei as mãos pelo rosto, afastando o cabelo. Depois me escorei na parede e deslizei até o chão, fechando os olhos enquanto deixava a água cair sobre mim.
Alguns minutos depois me forcei a levantar e tomar um banho de verdade, antes que eu simplesmente desabasse ali. Talvez não fosse uma ideia tão r**m. Eu só queria que a dor cessasse.
Quando saí do banheiro, meu celular tocava insistentemente. Devia ser o Dani, mas eu não pretendia atender. Ainda assim, peguei o aparelho e vi uma mensagem:
“Merda, Evelyn, onde você está? Atende a p***a do celular, c*****o!”
Respirei profundamente e soltei uma lufada de ar, jogando o celular em cima da cama.
Arrumei-me às pressas e saí de casa. Tinha apenas alguns minutos antes de chegar ao Luxe. Depois eu inventaria alguma desculpa para o Daniel.
Respirei fundo e soltei o ar de uma vez, jogando o celular em cima da cama.
Vesti-me às pressas e saí de casa. Tinha apenas alguns minutos antes de chegar ao Luxe; inventaria uma desculpa depois.
E aqui estava eu, com o carro parado do outro lado da rua, quase em frente ao Luxe Lounge. Decidindo se entrava ou dava meia-volta.
Inspirei e expirei, tentando manter o foco, e a calma, para que ninguém percebesse que eu estava drogada e bêbada. Dei passos apressados e atravessei a rua.
Puxei o ar com força, repassando a música na cabeça enquanto entrava no bar. Hoje eu cantaria Only Love Can Hurt Like This, da Paloma Faith. Era ainda mais melancólica que as da Adele, mas era tudo o que eu conseguia interpretar naquele estado.
Sussurrei:
“Only love can hurt like this
Só o amor pode machucar assim…”
Comecei a aquecer a voz, caminhando depressa, mas fui interrompida quando alguém segurou meu braço e me virou bruscamente, puxando-me para um abraço apertado.
Fiquei rígida no mesmo instante.
— p***a, Evelyn, quer me matar? Não faça mais isso, c*****o. Estou desde cedo ligando para você, e nada. Imaginei as piores coisas.
Esbravejou, Daniel.
Meus olhos se encheram de lágrimas, mas engoli o choro. Afastei-me e respondi:
— Estava ocupada no hospital. Quando acabou meu plantão, fui fazer compras. Não tive tempo de pegar o celular. Precisava descansar e aquecer a voz.
Forcei o melhor sorriso. Ele me analisou e disse:
— Você está atrasada! Saí feito louco, viajei horas. Não volte a fazer isso, a Sara f…
Virei-lhe as costas e me apressei. Ouvi o suspiro pesado que ele soltou, mas não disse mais nada.
Corri diretamente para o palco. Aproximando-me dos músicos, pedi desculpas pelo atraso e por não ter chegado antes para repassar a música. Conversei brevemente com eles, informei a nota e o tom em que eu queria cantar, e então me virei para o público à minha frente, forçando o melhor sorriso que consegui reunir.
— Olá, boa noite. Desculpem o atraso, houve um imprevisto. Peço sinceras desculpas.
Peguei o microfone, e o segurei com firmeza. Respirei fundo. Quando a primeira nota ecoou, deixei que minha voz encontrasse o caminho.
"Eu digo a mim mesma que você não significa nada
Que o que nós temos não tem nenhum poder sobre mim
Mas quando você não está lá, eu simplesmente desmorono
Digo a mim mesma que eu não me importo muito
Mas eu sinto que estou morrendo até sentir o seu toque
Só o amor, só o amor pode machucar assim
Só o amor pode machucar assim
Deve ter sido um beijo mortal
Só o amor pode machucar assim..."