Capítulo 6

976 Palavras
Anos antes — Alec: Nada poderia ter me abalado mais do que a morte da vovó. Talvez fosse por isso que eu havia sido obrigado a voltar a morar com meus pais. Estava devastado. Não conseguia me concentrar em nada além do pequeno pedaço de papel entre os dedos, uma fotografia, a última que tiramos juntos. Suspirei, sentindo o peito apertar, enquanto a voz da minha mãe ecoava ao longe, falando sobre os planos que ela traçava para mim dali em diante. Eu não prestava atenção em nada, nem mesmo no caminho de volta para casa. Só conseguia pensar no que seria da minha vida sem a presença dela. Não percebi que o carro havia virado a esquina até ouvir mamãe comentar: — Olha, os novos vizinhos vão mesmo ficar com a casa. Essa mudança deles já dura mais de dois meses. Papai apenas assentiu. Meus olhos, então, se desviaram na direção da casa ao lado. Franzi o cenho. Os móveis estavam espalhados pela calçada, num verdadeiro caos. Só então compreendi que ela devia estar limpando e pintando o quarto naquele dia em que a vi cantando. Desde então, não a tinha visto mais. Minha atenção se prendeu a uma cama pequenina, em tom de rosa-pink, parada entre os móveis. Devia ser dela, tão diferente das outras, tão viva, tão… a cara dela. Os adultos conversavam distraídos quando uma mulher passou carregando caixas para dentro da casa que estive vazia por anos. Os móveis eram simples, um pouco gastos. Mas o quarto dela parecia diferente, infantil, novo e rosa demais para pertencer a um adulto. Eu observava toda aquela movimentação, até que meus olhos pousaram nela. E minha dedução se confirmou. Usava um vestido rosa com pequenas flores da cor dos móveis. Balancei a cabeça em descrença. Como alguém podia gostar tanto de uma cor assim? Os olhos verdes pareciam ainda mais intensos do que da última vez em que os vi. Meus olhos desceram até o rosto arredondado e a boca pequena. Nada nela fazia sentido para mim. Os cabelos castanhos, divididos em duas tranças que caíam pelos ombros, balançavam levemente enquanto ela segurava uma boneca. E então, percebeu que eu a observava. Ela abriu um sorriso tímido. Eu não gostava de garotas, achava todas chatas, confusas e irritantes. Nela havia algo diferente. Mas, por algum motivo, não consegui retribuir o sorriso. Estava triste demais. Continuei observando sem perceber que papai já havia estacionado o carro. — Já para dentro, Evelyn! Um homem de feições severas gritou de repente. Era alto, imponente, e tinha algo que, para mim, era fascinante: uma tatuagem no braço esquerdo, uma caveira empunhando uma foice e um palhaço sorrindo. Achei incrível, irado. Mas mamãe jamais permitiria que eu tivesse uma. — Alec, Alec! Venha logo! Está esperando o quê? Como se tivesse ouvido meus pensamentos, ela me chamou da porta, com o olhar severo. Saí do carro e caminhei em direção à entrada, mas meus olhos permaneciam presos na movimentação ao lado. A garota de cabelos castanhos também se aproximava da casa, com o rosto corado, os ombros caídos e um ar envergonhado. Antes de entrar, virou-se mais uma vez na minha direção e sorriu timidamente, desaparecendo em seguida. Fiquei parado, os olhos grudados nela e uma sensação estranha crescendo dentro de mim. Era como se eu já a conhecesse há muito tempo. Mas isso não fazia sentido, aquela era apenas a segunda vez que eu a via. E, a partir daquele dia, não haveria um único dia em toda a minha vida em que sua presença não me sufocasse. Mesmo quando ela partiu, continuou a me sufocar. [...] Dias atuais. Eu ainda estava imerso nos meus pensamentos quando o celular começou a tocar sobre a mesa, por baixo de um amontoado de papéis que o Adrian deixou para eu revisar. Processos intermináveis. Uma merda. Eu nunca gostei de advogar. Nunca.O problema é que eu sou bom. Muito bom no que detesto. E, para impedir a intromissão da minha mãe de vez na minha vida, cursei Direito. Ela queria Medicina. Eu escolhi Direito e Engenharia, que sempre foi o que eu realmente quis. O telefone insistiu. Sem paciência, enfiei a mão na pilha e puxei o aparelho. Quando vi o nome no visor, senti meu rosto se contrair em irritação. Ramona. Ela e minha mãe devem estar tentando me rastrear. m*l sabem que estou em um lugar óbvio: Stanford. Joguei o celular de volta sobre a mesa e passei a mão pelos cabelos, empurrando-os para trás. Nem sei por que vim para o escritório hoje. É sábado, p***a. Bati o punho na mesa e respirei fundo. Qualquer coisa que ocupasse minha cabeça já era válida. Qualquer coisa que afastasse Evelyn de mim por alguns minutos. Mas, ao mesmo tempo, eu queria que a noite chegasse logo. Para ouvi-la cantar de novo. Eu me tornei um masoquista. Um patético sem a p***a do amor-próprio. Sorri sozinho, sem humor nenhum. O celular tocou de novo. Atendi. Ligação: — O que você quer? Minha voz saiu áspera. Do outro lado, a respiração trêmula. Talvez choro. Talvez fingimento. É difícil saber. Ramona: — Alec… graças a Deus. Onde você está? Tentamos localizar você e não conseguimos. Sua mãe está preocupada. Levei os dedos ao nariz e apertei a ponte, tentando manter o controle. — Eu não quero ser encontrado. É simples, Ramona. Que p***a. E não adianta tentar rastrear meu número ou qualquer outra merda. Ela gaguejou, tentando não perder a pose. Ramona: — Ma-mas Alec… Encerrei a ligação. Joguei o celular em algum lugar. Se não fosse por ela, eu já teria trocado o número. Mas eu não troquei. Ainda havia uma esperança em mim. Talvez eu seja mesmo um doente. Ri, curto, sem humor. Eu precisava tirar Evelyn da minha cabeça. E era exatamente isso que eu faria, me enfiando no trabalho.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR