Capítulo 5

1015 Palavras
Alec: Freei o carro bruscamente. Desde o instante em que a reencontrei, era a primeira vez que a via tão de perto. Através dos vidros escuros da janela, observei Evelyn apoiada contra a porta de seu carro, os olhos fixos na minha direção. O cenho franzido revelava a confusão que lhe tomava o semblante. A passos contidos, ela começou a se aproximar. Meu coração acelerou de maneira desordenada, e a respiração tornou-se irregular. Segurei com firmeza o volante, tentando manter o autocontrole. — Olá! Disse ela, esforçando-se para ver quem estava dentro do carro. — Por favor, da próxima vez que ouvir música, poderia manter o volume baixo? Acordou toda a vizinhança. Um sorriso sarcástico escapou-me dos lábios. Apertei o volante com mais força, sentindo a ardência da mão machucada. Ainda assim, nada se comparava à dor dilacerante no peito por tê-la tão próxima e, ao mesmo tempo, inalcançável. Antes que pudesse dizer qualquer outra palavra, engatei a marcha e dei ré, afastando-me. O carro, de repente, pareceu pequeno demais, sufocante. Respirei fundo, numa tentativa desesperada de conter o descontrole. O caminho até o escritório tornou-se mais longo do que de fato era, mas percebi que havia estacionado a apenas uma quadra dali. Inspirei fundo, coloquei o carro em movimento e, minutos depois, adentrei o prédio, subindo direto para minha sala. Adrian entrou logo em seguida, carregando um amontoado de pastas que largou sobre minha mesa sem qualquer cuidado. Afrouxei alguns botões da camisa social; o ar parecia rarefeito, como se me fosse constantemente negado. — Bom dia para você também, Alec. Disse ele em tom de brincadeira. — A sua cara está péssima. Interrompi o gesto e, sem fitá-lo, perguntei com a voz endurecida: — Está interessado na cantora? O riso cessou de imediato, substituído por um tom ríspido: — O que isso tem a ver com você? Inclinei levemente a cabeça e respondi, seco: — Não se aproxime dela. Nunca. Considere isto um aviso. Agora, quero ficar sozinho. Ele me encarou por alguns instantes, até rebater: — Ela é solteira. Eu também. Qual é o seu problema? Por acaso a conhece? Você é ca... Interrompi-o antes que completasse qualquer palavra da qual não tinha direito, nem conhecimento. — Você nada sabe sobre mim, Adrian. Não conhece minha história. Sugiro que guarde suas suposições para si. Apenas não se aproxime dela. Ele deixou a sala batendo a porta. Caminhei até a janela, respirei fundo e, sem conter a fúria, soquei o vidro, que estalou em rachaduras sob o impacto. Fechei os olhos e respirei fundo novamente. [...] Anos antes. Eu tinha apenas doze anos quando a vi pela primeira vez. Havia acabado de regressar para a casa de meus pais, para o meu desgosto e tristeza. Detestava a ideia de que, a partir daquele dia, não viveria mais com minha avó. Voltava de um acampamento de férias e, como já se tornara costume, não era ela quem me esperava, mas sim meus pais. Nada podia fazer, embora odiasse. Subi direto para o sótão, o lugar onde sempre me refugiava e que, para mim, era mais meu do que o próprio quarto. Foi então que ouvi uma música. Segui aquele som até encontrar uma garotinha de cabelos castanhos e olhos verdes. Não me chamou atenção apenas pelo rosto infantil manchado de cores, mas pela voz firme e surpreendente para alguém tão pequena. Não deveria ter mais que sete anos, e ainda assim parecia carregar a alma de uma velha cantora. Cantava Pretty Little Baby, de Connie Francis, um gosto musical que, à primeira vista, me pareceu antiquado, mas que nela soava extraordinário. Comecei a rir ao vê-la dançando e cantando, agarrada a uma vassoura, toda atrapalhada. Movia-se como se cada letra da canção lhe arrancasse um suspiro, entregando-se por inteiro àquela música. "Pretty little baby, you say that maybe Queridinho, você disse que talvez You'll be thinkin' of me and try to love me Pensará em mim e tentará me amar Pretty little baby, I'm hopin' that you do Queridinho, estou torcendo para que você faça isso Uh-uh-uh-uh-uh-uh Uh-uh-uh-uh-uh-uh Ooh-ooh-ooh-ooh-ooh-ooh Ooh-ooh-ooh-ooh-ooh-ooh..." Ela se movia de um lado para o outro, varrendo enquanto cantava. Fiquei me perguntando como alguém tão pequena poderia ter um gosto musical tão peculiar e fora do comum para a idade. Continuou: "You can ask the flowers, I sit for hours Pode perguntar para as flores, fico sentada por horas Tellin' all the bluebirds, the bill and coo birds Contando a todos os passarinhos azuis, aos pombinhos apaixonados Pretty little baby, I'm so in love with you Queridinho, estou tão apaixonada por você Uh-uh-uh Ooh-ooh-ooh..." Abri a boca e fechei, observando as caretas que ela fazia, os pés deslizando pelo chão, talvez no piso molhado. Perguntava-me se todas as garotas eram assim, meio descontroladas. Aquela, sem dúvida, se destacaria. Franzi a testa diante do biquinho fofo que ela fazia e de seu jeito desajeitado de dançar. Apontava para si mesma, levando a mão à testa como se estivesse prestes a desmaiar, enquanto fazia uma expressão tola, mas encantadora. "Now is just the time, while both of us are young Agora é o momento perfeito, enquanto nós dois somos jovens Puppy love must have its day Um amor inocente precisa ser vivido Don't you know it's much more fun to love Não sabe que amar é muito mais divertido While the heart is young and gay? Enquanto o coração é jovem e alegre? Meet me at the car hop or at the pop shop Me encontre no drive-in ou na lanchonete Meet me in the moonlight or in the daylight Me encontre sob a luz da Lua ou durante o dia Pretty little baby, I'm so in love with you Queridinho, estou tão apaixonada por você..." Ela agora sorria, fazendo uma expressão boba e apaixonada, abanando-se levemente. Revirei os olhos, achando tudo aquilo um tanto quanto i****a. — Alec! Mamãe me chamou. Olhei para a garotinha de gosto musical peculiar mais uma vez antes de me afastar da janela. m*l sabia que aquela cena ficaria gravada em minha mente pelo resto da vida.
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