Capítulo 4

1185 Palavras
Quando cheguei em casa, fui consumido por um surto de fúria. Só parei ao perceber que minhas mãos sangravam. Nem mesmo os cortes me faziam sentir algo maior do que a dor dilacerante no peito e na alma. Queria entender essa maldita obsessão por aquela mulher. Cada palavra daquela canção ainda ecoava em minha mente, queimando como brasa viva em meu coração. Me perguntava, com uma revolta muda, por que diabos havia vindo para esta cidade. E por que o destino se comprazia em ser tão c***l. Levei a garrafa à boca, permitindo que o álcool escorresse em silêncio, enquanto meus olhos permaneciam fixos na casa ao lado, oculto entre as cortinas, feito um espectro vigilante. O carro estacionou na garagem. Sorri, sarcástico. Como sempre, ela entrou sem ao menos olhar ao redor. Meus olhos cravaram-se nela, famintos, possessivos, à espera de qualquer detalhe, qualquer gesto, qualquer brecha que me revelasse algo. Mas, como nas últimas noites, não houve nada. Apenas uma única luz acesa… e mais nenhum sinal de vida. Fazia anos que eu não sabia o que era dormir bem. E se eu não podia, ela também não merecia esse direito. Ou ao menos até que deixasse meus pensamentos em paz, até que libertasse minha mente do tormento constante que sua ausência provocava. Caminhei até o aparelho de som com passos lentos, carregados de uma decisão silenciosa. Ela também ouviria minha dor. Porque sim, Evelyn… há um buraco profundo, latejante, que você deixou em meu coração, e ele ainda sangra. Os primeiros instrumentais das músicas do Bon Jovi soaram bem marcantes e intensos. "This Romeo is bleeding Este Romeu está sangrando But you can't see his blood Mas você não pode ver o sangue dele It's nothing but some feelings Não é nada além de sentimentos That this old dog kicked up Que este velho t**o desenterrou It's been raining since you left me Tem chovido desde que você me deixou Now I'm drowning in the flood Agora estou me afogando na enchente You see, I've always been a fighter Veja, eu sempre fui um lutador But without you, I give up Mas sem você, eu desisto..." Ouça... e sinta um pouco do meu tormento, Evelyn. Vamos nos afogar juntos nessa dor. "Now I can't sing a love song Agora eu não consigo cantar uma canção de amor Like the way it's meant to be Da forma como deveria ser Well, I guess I'm not that good anymore Bem, acho que não sou mais tão bom nisso But baby, that's just me Mas, amor, esse sou eu And I will love you baby always E eu, te amarei, querida, sempre And I'll be there forever and a day always E estarei ao seu lado por toda a eternidade sempre I'll be there till the stars don't shine Eu estarei lá até as estrelas deixarem de brilhar Till the heavens burst and the words don't rhyme Até os céus explodirem e as palavras não rimarem. And I know when I die you'll be on my mind Sei que quando eu morrer, você estará no meu pensamento And I'll love you always E eu te amarei sempre..." Escorreguei pela parede até me sentar ao lado da janela, os olhos fixos no vazio. Cada letra da música soava como um estilhaço, cutucando a ferida que jamais cicatrizou. Fechei os olhos. Por um instante, só um, permiti-me voltar ao que fomos. Ao que eu era, quando ainda era nós. [...] Evelyn: Como em tantas outras noites, hoje eu não me joguei no sofá. Fui direto para o quarto e me larguei sobre a cama, como quem carrega peso demais. Mas dormir… não era mais uma dádiva para mim. Minhas noites nunca mais foram as mesmas. Passei as mãos pelos cabelos, tentando aliviar, em vão, a dor de cabeça que latejava sem trégua. Me ergui devagar e me sentei na beirada da cama, inspirando profundamente o ar da madrugada. Eu não queria chorar. Mas as lágrimas vieram, quentes, impiedosas, queimando tudo por dentro. Não quero precisar de álcool, nem de drogas e muito menos de comprimidos para dormir. Mas às vezes, só me entorpecendo consigo afundar na escuridão para calar a mente. Me levantei, decidida a procurar algo que silenciasse meu caos, até que fui interrompida. Uma música alta cortou o silêncio, vinda da casa ao lado. A casa onde, até então, eu nem sabia que morava alguém. Me aproximei da janela, intrigada. Ao menos, quem quer que fosse, tinha bom gosto. Se é para incomodar os vizinhos, que seja com Bon Jovi. E então, a voz rouca e potente do cantor preencheu a noite como um grito da alma… "What I'd give to run my fingers through your hair O que não daria para passar meus dedos por seus cabelos To touch your lips to hold you near Tocar em seus lábios, abraça-la apertado When you say your prayers try to understand Quando você disser suas preces, tente entender I've made mistakes I'm just a man que eu cometi erros, sou apenas um homem When he holds you close Quando ele abraçar você When he pulls you near Quando ele puxar você para perto When he says the words Quando ele disser as palavras You've been needing to hear Que você precisa ouvir I'll wish I was him cause these words are mine Eu queria ser ele porque aquelas palavras são minhas To say to you till the end of time Para dizer a você até o fim dos tempos..." Fiquei ali, parada, ouvindo a música atravessar a madrugada. Me peguei tentando imaginar quem seria a alma por trás daquele som, quem estava sofrendo daquele jeito, como se gritasse por socorro entre acordes e versos. Pelo visto, não era só eu. Havia alguém que parecia carregar uma dor ainda mais profunda que a minha. Uma dor que talvez não pudesse ser vista, mas que era intensamente sentida. Dessas que atravessam paredes, alcançam o peito alheio e se reconhecem na solidão do outro. A música continuou... "Well there ain't no luck in this loaded dice Bem, não há sorte nestes dados viciados But baby if you give me just one more try Mas querida, se você me der apenas mais uma chance We can pack up our old dreams and our old lives Podemos refazer nossos antigos sonhos e antigas vidas We'll find a place where the sun still shines Encontraremos um lugar onde o sol ainda brilha..." Quando a música começou a se despedir, me afastei da janela e me deixei cair sobre a cama novamente. Quem quer que fosse, estava quase... ou exatamente na mesma condição que eu. Talvez até pior. Fechei os olhos por um instante, desejando que aquela alma perdida, seja ela quem for, encontrasse algum alívio. Ou que, com sorte, conseguisse reaver a sua Julieta. Julguei, pelo gosto musical, que fosse um homem. Havia algo masculino naquela escolha. Um lamento cru, orgulhoso... quebrado. E, por um motivo que nem sei explicar, adormeci. Logo eu, que há tanto não sabia o que era descanso, encontrei algum repouso ao pensar na dor de um desconhecido.
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