Capítulo 3

2324 Palavras
Catarina - Naquela tarde Eu pedi a Deus forças, pedi que me ajudasse e me guiasse. Por mais que minha fé em muitos momentos desde que cheguei no próprio inferno fosse testada, eu prometi a mim mesma que jamais deixaria de ter fé! Prometi que não desistiria, que me manteria firme não apenas por mim, mas, por minha mãe também. Por ela que há tanto tempo não ouço a melodia de sua voz, a luz de sua face enquanto me consolava e dizia, que tudo daria certo. Que não podemos apenas pedir, temos que agradecer pelo pouco também, e reunir forças para lutar até alcançar os nossos objetivos! — Eu voltarei para casa, nem que seja a última coisa que eu faça nessa vida! - sussurro para mim mesma, enquanto fecho os meus olhos. O solavanco do carro é imenso, eles estão dirigindo em alta velocidade enquanto me levam de volta para a mansão de Vicent. Novamente a minha tentativa de fuga foi um fracasso, mas, como eu imaginaria que até mesmo quando eu conseguisse chegar até a embaixada brasileira, os contatos dele me delatariam? Como uma garota de 16 anos, que só conheceu o inferno na própria pele suspeitaria de tal coisa? Eu não suspeitava, mas agora me culpo mentalmente por nem ao menos ter imaginado isso. Eu conheci o poder dele de perto, deveria saber que ele comanda muito mais do que apenas alguns capangas e uma rede de tráfico. Ele é ainda pior do que eu pensava! — Onde ela está? - ouço a voz de Anastácia assim que o veículo freia bruscamente, ela abre a porta da mala e me olha com os olhos arregalados. Provavelmente é o estado que me encontro, suja, ferida, com os punhos amarrados e despenteada. Isso sem contar o ferimento em minha cintura, o qual consegui enquanto tentava fugir desses desgraçados que foram me buscar. — Vocês a machucaram? - ela pergunta enquanto me ajuda a descer, os seguranças negam com a cabeça. — Ela se feriu sozinha, enquanto tentava correr para fora da embaixada! — um deles responde-a. — Ele está furioso, vamos entrar! — ela afirma e me guia até a entrada, só de olhar novamente para essa mansão o meu estômago se embrulha. A vontade que tenho é de me trancar em um canto escuro e chorar, chorar tanto até não conseguir mais, entretanto sei que isso não me ajudará em nada. Eu não conseguirei nada se assim fizesse, e sei muito bem quem se alimentaria de cada uma das lágrimas que rolaria pelo meu rosto. Eu tenho que tentar ser forte, sei que o pior ainda não passou. Toda vez que eu tentava fugir Vicent me punia brutalmente, das piores formas e maneiras imagináveis. Isso o nutria e alimentava, minha dor lhe causava um tipo de prazer doentio, ele deixou isso claro para mim diversas vezes! Enquanto caminho com os olhos baixos em direção a entrada das celas ao fundo, sinto um sentimento estranho de estar sendo observada. Algo que confirmo quando ergo um pouco meu rosto, e na saída principal, não muito distante, vejo um homem me olhando fixamente. Ele era alto, tinha cabelos que caem sob seu rosto na cor castanhos claros, quase loiros. Um rosto que sinceramente não lhe daria mais que 27 anos, ele parecia ter até menos, mas o que mais me chamou atenção foram seus olhos, era um olhar castanho vivo, escondido em uma escuridão que parecia acompanhar-lhe. Continuo a caminhar enquanto vejo ele desviar o olhar e entrar no seu carro, poucas vezes víamos algum homem diferente nesse lugar, mas me lembraria se já tivesse o visto. Tenho certeza de que esse homem nunca esteve aqui, ao menos, nunca o vi antes! — Vamos logo Catarina, precisamos limpar esses ferimentos! — Anastácia diz, puxando a corda em meu pulso. Quando ia passar pela porta atrevo-me novamente em olhar por cima do meu ombro, vendo aquele e os outros veículos se afastarem lentamente, mas eu sentia o seu olhar sob mim. Sentia que mesmo que de dentro daquele carro, aquele homem estranho ainda me observara. O carro se vai, e eu... via-me de volta ao meu pesadelo! ❀~✿ ❀~✿ ❀~✿ ❀~✿ Mantenho os meus olhos no chão, ficando em silêncio enquanto Anastácia prende o seu longo cabelo, no seu ritual como das outras vezes em que eu fugir. Não era preciso olhar para saber que ela já tinha nas suas mãos, os itens de primeiro socorros, água limpa para me lavar e roupas "sexy" para quando Vicent me chamasse, para me dar a minha punição. — Vamos limpar tudo isso, vai ficar tudo bem. - ela sussurra. — Diga apenas por você, nada nunca fica bem aqui. - respondo baixo. — Por que fez isso? Sabe muito bem que das outras vezes escapou da morte por muito pouco. Não respondo, apenas fecho os meus olhos enquanto ela se senta na beirada da cama desconfortável que estou, pegando os meus pulsos e passando um pano com água morna no local que latejava. — Seja como for, escolheu um péssimo momento para fazer o que fez. Vicent está raivoso! Abro os meus olhos e a olho, ela molha o pano e continua a passar em minha pele com cuidado. — Quando aquele monstro não está raivoso? Isso sim seria uma surpresa, vê-lo calmo! — respondo-a com meus dentes trincados. — Não Catarina, hoje ele está ainda mais. Parece que uma das suas negociações não saiu como ele queria, não sei direito... apenas sei que o momento foi péssimo para o que fez! Respiro fundo ainda sentindo a ardência em minha pele, ela corta devagar o meu vestido, me deixando apenas com a lingerie enquanto examina meu ferimento. — Você não entende, eu não quero morrer aqui. n**o-me a aceitar as coisas que acontecem aqui, comigo e com as outras garotas presas nesse lugar! Ela para de passar o pano no local, levantando o olhar até o meu e me fitando em silêncio por uns instantes. Percebo como respira fundo, antes de voltar novamente a passar um medicamento no lugar, estancando o pouco sangramento. — Poderia ser pior. — é a única resposta que ouço-a dizer, pareceu mais um sussurro, mas me neguei tanto a acreditar que tais palavras saíram de sua boca. — O que poderia ser pior que isso? É o que diz a si mesma, para tentar amenizar a culpa pelo que você faz? Digo me levantando rudemente, colocando uma boa distância entre mim e ela, já que da última vez em que a enfrentei e acertei seu rosto com um soco, sofri dois tipos de castigos. Tento respirar fundo e controlar a raiva que corre pelo meu corpo, mas estava difícil. — Sim, poderia ser pior. Você poderia ter sido vendida, usada e abusada por mais de 10 homens em uma única vez, e quando se cansassem de você... a matassem! — ouço sua voz firme, então viro-me novamente e encaro-a — Vicent é r**m, mas tem sorte que ele ainda a deseja. Porque outras, não tiveram a mesma oportunidade! — Cala essa boca, olhe para mim. Pareço alguém que tem sorte? Sabe o que aquele desgraçado fez, e faz comigo toda vez que "me deseja"? — protesto, já a um fio de novamente acertá-la, sem nem mesmo me importar mais com os castigos que sei que virão. — Sim Catarina, eu sei. — diz em um tom frio, desviando o seu olhar do meu. Pela primeira vez desde que cheguei nesse lugar, vejo algo de diferente nessa mulher. Uma lágrima rola o seu rosto! Não sabia como me comportar diante daquilo, Anastácia não era o tipo que chorava, demonstrava dor ou nada disso. Pelo menos não desde que cheguei aqui, nunca havia visto tão... tão vulnerável como aparenta estar agora! Caminho de volta a cama e me sento nela, ela enxuga o rosto rapidamente com as costas da sua mão, mas aquilo não evita o soluço que escapa por seus lábios. Ela realmente chorava, e não um choro qualquer. Ela por um instante pareceu reviver o seu próprio inferno, na sua mente, ou na sua alma! — Eu... — ela respira fundo hesitando, mas logo continua — Eu não escolhi fazer o que faço, eu não tive escolha. Não tenho até hoje, e não terei nunca mais amanhã! Olho em silêncio enquanto ela tenta se recompor, o que falha totalmente. Não queria confortá-la, e em parte nem sei se conseguiria. Ela foi rude comigo desde que cheguei aqui, e a principal causadora para me trazer a este lugar! — Eu cheguei aqui quando tinha 12 anos também, mas diferente de você eu já havia sangrado. — ela faz uma breve pausa — Eu era uma boa filha, boa amiga, boa aluna, mas mesmo assim tudo isso foi reduzido a nada. Porque quando cheguei aqui... — ela não continua, apenas baixa os seus olhos e engole em seco. — O que ele fez com você? — pergunto baixo, sentindo meu peito quebrado com o que nem havia escutado ainda. Ela ergue os olhos e me olha fixamente, deixando que eu visse seus olhos vermelhos e molhados, como se de alguma forma me passasse algo que estava registrado em sua alma . — Ele me levou até sua sala de reuniões, onde estavam mais uns quatro homens, filhos de grandes mafiosos da América do Sul... e em cima da sua mesa secretária fria, molhada com as bebidas, ele me tomou na frente de todos! — o gosto amargo vem em meus lábios enquanto ouço aquelas palavras — Ele foi o primeiro a "brincar" comigo, e quando terminou me deu para os outros fazerem o mesmo! Fecho meus olhos e foi impossível evitar a lágrima que apontava em meus cílios de não cair, lembrando-me da primeira vez que aquele desgraçado me tocou, por sorte meu sangue só desceu quando eu tinha pouco mais de 14 anos, mas ele foi um total monstro comigo, me usando e tirando cada pureza que habitava em meu corpo. — Ele fez isso de novo, e de novo. Quando se cansou me deu duas opções, ou eu o serviria e compensaria por não lhe dar mais prazer, ou me jogaria aos seus cães famintos no fundo da casa, para me dilacerarem lentamente, m****o por m****o! — abro meus olhos, voltando a olhá-la — E ainda estou aqui, servindo seus capangas imundos, sendo fodida e abusada por cada um deles, e fazendo o seu trabalho sujo pelo mundo. Por que uma mãe confiaria mais em uma mulher, com belas roupas, palavras, e promessas de um amanhã melhor para os seus pequenos filhos! — Você não pode apenas aceitar isso, você... — engulo as palavras enquanto enxugo o meu rosto, tentando citar qualquer uma opção. — Não tenho saída Catarina, eu já tentei tudo, e nem mesmo a morte conseguiu me levar nas vezes que tentei. — pego a sua mão, ela pela primeira vez não se afasta — Eu estou cansada, mas não consigo mais ser ferida. E também não gostaria que você fosse, por isso achei um erro o que você fez hoje! Engulo em seco sentindo meu queixo tremer, ela deixa novamente que mais lágrimas rolem em seu rosto. Caindo com mais força, e expondo ainda mais sua vulnerabilidade. — Eu posso passar pelo inferno que for, mas eu garanto uma coisa Ana... — ela mantém os olhos no meu - Eu vou tirar a gente daqui, vamos fugir desse inferno! — Não podemos, ele nos encontraria até embaixo de uma pedra no meio do deserto... não podemos! — responde e baixa sua cabeça, seu ombro treme enquanto ela desaba no choro, rapidamente abraço-a e deixo que se apoie em meu ombro. — Nós podemos sim e vamos, não vamos morrer aqui. Vamos fugir, expor tudo que acontece nesse lugar e só assim poderemos libertar todas! — digo com minha bochecha pressionada a sua testa, deixando que uma lágrima minha caia também. — Você é a favorita dele, e eu... eu sei demais. Ele nos mataria! — ela sussurra em meio ao choro. — Então morreremos livres, mas me n**o a aceitar que será aqui que isso acontecerá! — afirmo. Ela se afasta, me olhando nos olhos e enxugando o próprio rosto. — Faria isso por mim? Me levaria com você se pudéssemos fugir? Mesmo depois de tudo que eu fiz? — concordo com a cabeça sem hesitar, ela me olha ainda meia incrédula. — Deus sabe de todas as coisas, sabe que meu coração e o seu precisa de uma luz. Talvez seja isso que esteja faltando, uma união para que possamos conseguir o que tanto buscamos! — ela assentiu. — Tudo bem, mas se vamos fazer isso. Faremos no momento certo, não podemos pensar apenas na fuga, temos que pensar para onde ir e o que iremos precisar! — ela afirma enquanto conserta a sua roupa. — Faremos isso, combinaremos juntas um método de sair e o restante! TOC TOC No mesmo momento ouvimos uma batida alto na porta, rapidamente ela faz um sinal com a mão e me deito, ela pega o pano e passa sob minha pele, enquanto o barulho da porta ser destrancada e aberta tomam nossa atenção. — 10 minutos, o chefe quer vê-la! — um capanga anuncia, Anastácia concorda com a cabeça rapidamente, quando a porta é fechada ela volta a me olhar e diz: — Precisamos de tempo para bolar tudo, infelizmente teremos que ainda aceitar muitas coisas até o momento chegar. — ela sussurra bem baixo — Terei que prepará-la! — Faça isso, mas não se esqueça... Antes que eu conseguisse terminar ela me surpreende, me dando um forte abraço, demorando apenas por alguns breves segundos. Fico em choque com aquilo, mas tento retribuir, quando ela se afasta me olha nos olhos e concluí: — Não me esquecerei, vamos sair desse pesadelo Catarina!
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