Marco Hernandes
Um ano depois
Do alto daquele edifício, em frente a imensa janela do quarto, me vejo olhando para trás... para meu passado!
Algo que eu já deveria ter enterrado, não deveria carregar mais tais coisas em minha mente. Mas, o quanto algo como aquilo poderá me perseguir? Talvez eternamente!
Já deveria saber que passar por tudo aquilo, e tentar ter uma vida comum não daria certo. Na verdade, eu sei. Entretanto, me vejo carregando cada um daqueles tormentos comigo. Cada palavra, cada toque e marca. Seria muito mais fácil se eu pudesse punir quem tanto infligiu tudo aquilo, mas como eu poderia? Como eu poderia fazer isso, com a única que um dia jurou que me amava?
Aquele amor que um dia ela me dera era um amor demoníaco, mas foi o único que eu... Marco Hernandes chegou a conhecer!
— Volta para cama... — ouço a voz da mulher deitada na cama, uma que não sei o nome e nunca verei além dessa maldita noite.
Viro-me e olho-a por cima de meu ombro, ela usa o lençol para cobrir sua nudez enquanto me olha atentamente. A contratei para me dar prazer, mas, até mesmo esse simples gesto parece distante para mim. Nem mesmo tenho domínio pelo desejo carnal, ao menos não o sinto saciado totalmente. Nunca pude senti-lo, apenas quando...
— Sr. Marco? — a garota novamente sussurra, afasto os meus pensamentos e caminho até a mesa ao canto do quarto.
— Pode ficar o resto da noite, seus serviços não serão mais necessários. — digo friamente enquanto visto minha camiseta e meu casaco, ela me olha com uma expressão confusa.
— Eu... eu fiz algo errado?
— Não. — deixo uma quantia alta na mesa, e sem nem olhá-la novamente abro a porta.
Meus seguranças já estavam do lado de fora, de prontidão. Assim que passo por eles todos me acompanham até a saída do hotel luxuoso.
Entro em um dos carros, os outros fazem o mesmo e logo saímos pelas ruas de Madrid. Seguindo rapidamente enquanto a noite ainda cobria toda a extensão, uma noite fria e longe de qualquer coisa boa que venha se aproximar, ao menos de mim!
Fecho meus olhos enquanto seguro minha arma, me recostando no banco do veículo e perdendo meus pensamentos por uma lembrança.
Aquele rosto, lábios carnudos, olhar forte e desesperado. Aquela garota qual eu vira na mansão do Vicent, não sei o seu nome, sua idade ao certo. Mas, eu soube que a cena que presenciei dela sendo arrastada de volta aquele lugar, me lançando aquele olhar desesperado... aquilo iria se fisgar em minha mente c***l!
Não como algo que eu queira resolver, ou que eu de alguma forma pudesse salvá-la. Pelo contrário, aquela cena dela rendida, de seu olhar protestante em meio aquilo tudo... O demônio interno que habita em mim se alimentou daquilo!
Fisgando aquele olhar em minha mente, e imaginando inúmeras coisas, coisas totalmente erradas!
Linda, sem dúvidas ela é! Apesar de aparentar ser muito jovem quando a vi, era nítido que era uma joia preciosa. Uma joia qual pertence a Vicent, trancafiada naquele inferno que é aquele lugar, tenho total certeza que foi levada para lá contra sua vontade, e provavelmente bem mais nova.
Seja como for, isso não é problema meu. Já tem vários meses desde que há vi, seja lá o que em minha mente que tenha se fissurado nela, irá passar. Precisa apenas de mais tempo!
Ela não gostaria de permanecer em minha mente, é um local totalmente sombrio para se abrigar!
━━━━◈✙◈━━━━
O carro para em frente ao local de entrega principal, o amanhecer já predominava o grande campo o qual o comprador já me aguardava com seus seguranças armados.
Era mais uma entrega comum, o pagamento havia sido pago e faltava apenas a entrega das AK47 italianas qual havia sido solicitadas.
Apesar de tudo estar nos conformes, nunca se deve confiar totalmente. Ainda mais em uma transação como essa, eles são acostumados a ser traiçoeiros com todos, traidores, mafioso, ladrões, governos... lido com todo tipo de negociante!
E todos eles, no primeiro momento que tiverem a oportunidade... te mataram!
— Todos atentos, qualquer alerta atirem para matar. — digo e eles concordam com a cabeça.
Desço do carro e caminho até onde eles estão, os seguranças me olham atentos, quanto ao líder deles se mantém com um olhar tranquilo, enquanto traga um charuto.
— Marco Hernandes, trouxe um exército com você?
— Os bons hábitos nunca mudam! — respondo-o e ele sorrir de canto.
— Pensei que já teríamos passado por essa fase, mas não o julgo. Aliás, você deve se preocupar com muito! — no mesmo segundo estreito meus olhos.
— Me preocupar? Não, apenas não confio em ninguém... você muito menos! — ele não demonstra surpresa com minhas palavras, apenas assenti e sorri ainda mais.
— Trouxe tudo?
— Eu nunca descumpro uma palavra. — respondo e logo meus seguranças trazem as grandes caixas de madeira, estavam no porta-mala dos carros, todas prontas para hoje.
— Ah, maravilha! — ele se aproxima com cautela, começando a verificar o conteúdo das caixas — Exatamente como havia me informado Marco!
Assenti enquanto vejo-o ordenar aos seus seguranças para levá-las, meus homens voltam a seus lugares, mantendo suas cautelas de certa forma.
— Marco, tenho um contato que precisa de uma boa coleção... — ergo uma sobrancelha enquanto ele continua — O único problema, é que ele não fecha negócios com quem trabalha para os albaneses!
— Não trabalho para os albaneses, nem para você, nem ninguém. Apenas para quem pagar mais! — respondo de imediato — Você deveria saber bem disso, não é porque estou aqui que não fecharia negócio com o seu inimigo, isso dependeria apenas de quanto ele ousaria pagar!
O olhar dele escurece por um segundo, e esse é exatamente oque quero despertar. Seu ódio, sua insegurança, e seu medo!
Deixo bem claro no início de qualquer negociação, que não estou escolhendo um lado. Meu trabalho é apenas fornecer os instrumentos, se farão uma chacina um ao outro com minhas armas isso não é um problema meu. Só preciso garantir que meu material funcione bem, de preferência os explosivos!
E esse, e alguns outros são o motivo de minha cabeça estar sendo tabelada em muitos lugares, por muitas pessoas, governos, e continentes.
— Sim, Marco eu sei. Mas esse cliente seria um novo, estão expandindo suas linhas de tráfico e precisam de mais força em muito breve!
— Onde estão? — pergunto consertando minha postura, pegando um cigarro em meu bolso e o acendendo.
— Ainda estão tomando o poder, mas provavelmente tomarão o Cartel que lidera a América do Sul. Sei que se interessa por lá! — afirma.
Realmente ele tem uma certa razão, desde que uma oferta alta foi dada por minha cabeça não estou conseguindo acesso a alguns países. Isso inclui vários da América do Sul, um local o qual sei que posso expandir e lucrar muito com o que tenho.
— Interessante.
— Sim, eu sei. Por isso penso que deveria dar-lhe uma oportunidade, o que acha?
— Mande entrar em contato, quero saber a oferta. — digo já dando essa conversa como terminada, virando de costas e indo em direção a um dos meus carros.
— Avisarei, até logo!
Entro no veículo e não demora muito para meus seguranças fazerem o mesmo, logo eles o ligam e aos saímos daquele campo aberto.
Há muito tempo quero fechar negócios na Argentina, Colômbia e Brasil. Mas estive restrito de muita coisa, se o que ele diz proceder poderei enfim iniciar essa nova etapa. Sei que no momento em que estiver por lá terei inúmeros problemas, mas é preciso.
Ainda mais desde que alguns acordos foram quebrados, inclusive o acordo alto com aquele maldito do Vicent. Fora um prejuízo muito maior do que eu pensava, agora tenho que buscar acordos novos. E de preferência em países em que o meu nome não esteja totalmente em caçada, algo que até então está escasso de se conseguir!
Entretanto, tenho um bom tempo para reerguer isso. E quem sabe também, em condenar aquele maldito porco albanês em alguma dessas transições.
Aquela quebra de contrato ainda sairá caro, principalmente se em algum momento eu por minhas mãos nele.