Capítulo 6

1629 Palavras
Catarina Um ano depois Olho pela pequena greta da minha cela, vendo a noite fria e densa que caí sob nós. Parecia apenas mais uma qualquer, mas, eu sabia que não era. Eu sabia que hoje era mais que apenas uma madrugada comum, mesmo que fosse t**o ou até mesmo inútil eu contava desde quando havia sido levada, contava e me baseava em datas de um calendário solto. Hoje era mais um ano que se passara, mais um ano que eu completava. Meus 17 anos! Eu praticamente havia sido sugada do meu resto de infância, pulado a minha adolescência e me via levando uma vida completamente que não era minha. Era uma sobrevivente a qual era condenada quase diariamente, quase todo dia ele solicitava a minha presença, solicitava que fosse sua e repetisse o quanto eu estava entregue, a mercê do próprio demônio! Entretanto, apesar de todo tormento passado, nessa data só me veio apenas algo em mente... saudades! Saudades de vê minha mãe empolgada com essa data, vê-la comprando os ingredientes para fazermos um bolo simples e muito saboroso. Saudades de conversar com ela, ouvi-la falar de como meu pai surtaria quando eu começasse a crescer, de como ele era ciumento com sua única filha. Saudades de minha vida, de minhas risadas espontâneas, de mesmo com o pouco que tínhamos... de ser feliz de verdade! Respiro fundo enquanto enxugo a lágrima que insiste em rolar meu rosto, me viro e volto para minha cama simples, me deito nela e cubro todo meu corpo. Apenas apalpo o chão empoeirado, desenhando com a ponta de meus dedos eu, minha mãe e meu pai. Também aproveito para escrever a frase "Feliz aniversário" no local, meu queixo treme com o peso da distância que meu peito transborda. Do medo de não vê-la mais nessa vida amarga, de estar sentenciada de certa forma a conviver nesse inferno que estou! — Faça um pedido filha... — com meus olhos fechados imagino-a falando isso baixinho para mim, enquanto acaricia o meu cabelo. Um sorriso finalmente se forma nos cantos de meus lábios, pensando em como ficaria feliz em me ver tão mudada, tão crescida, tão parecida com uma mulher adulta! — Eu só quero vê-la novamente mãe, só mais uma vez... mesmo que seja por alguns minutos! — sussurro com as lágrimas caindo com toda força, eu não as controlava mais. Apesar de tudo que eu havia passado e ainda era obrigada a passar, nada doía tanto como estar longe da única família que havia me restado. Nada me quebrou e quebrava tanto quanto isso, ter que conviver com o peso, dores, e a grande saudade que havia em meu coração. Esse sim, era o meu próprio inferno diário! ❀~✿ ❀~✿ ❀~✿ ❀~✿ Amanhecera, mas eu não havia conseguido nem mesmo fechar os meus olhos. Passei a noite totalmente em claro, tentando enviar em pensamentos um pouco de tranquilidade a minha mãe, de certa forma pedindo a Deus que cuidasse dela por mim. Que desse um pouco de paz ao seu grande coração, e mesmo em meio a tudo... agradecendo-lhe por ainda estar comigo! Por me manter viva, por poder completar mais um ano e ter forças para ainda pensar em uma saída desse pesadelo que me cerca! — Catarina? — levanto-me da cama ao ouvir a voz de Anastácia, juntamente a um barulho na porta de aço, que vai se abrindo lentamente. — Oi Ana. — o segurança fecha a porta assim que ela entra, logo ela se aproxima e senta-se na beirada da cama. — Preciso contar uma coisa. — ergo uma sobrancelha, sentado-me ao seu lado e olhando nos fundos de seus olhos. — O que aconteceu? — Um dos homens de Vicent diz estar completamente disposto a tudo por mim, ele vem me dizendo essa asneira a um bom tempo... — assenti e ela continua — Veja, eu venho estudando inúmeras formas de sairmos daqui. Mas, nenhuma delas parece totalmente segura! — Temos que encontrar um modo, mesmo que demore, tem que haver uma saída! — digo enquanto passo a mão em meu rosto. — Ei... — ela segura minha mão, fazendo que a olhe novamente — Se queremos realmente sair, precisaremos usar o que possuímos aqui! Rapidamente começo a entender onde ela quer chegar, e realmente pensando que tem razão. Muito dificilmente chegaremos longe por conta própria, eu realmente posso afirmar isso após tantas tentativas mais que frustradas! — Tem razão. — Sim, por isso decidi que alimentarei o que aquele homem diz sentir por mim. — respiro fundo enquanto ouço cada palavra dela — Preciso que ele acredite que sinto o mesmo, que começo a me sentir rendida por suas palavras! — Mas você estaria aceitando então o que ele fará com você, Ana esses homens são cruéis. Por mais que eu concorde que seria a melhor possibilidade, ainda assim seria arriscado demais! — Não se preocupe, além disso, não há nada que ele fará que outro já não tenha feito comigo antes. — baixo meus olhos por um instante, além de ouvir eu sentia a dor que aquelas palavras trazem consigo. — Se estou aqui, posso muito bem usar disso ao meu favor. Só preciso que ele acredite, preciso que ele fique cada vez mais envolvido, só assim poderei então contar com sua suposta traição! — Traição? — pergunto, com um sentimento de que isso não daria certo. — Sim Catarina, se sairmos vivas e um deles nos ajudar... seria uma traição. Com condenação a morte se formos apanhados! — n**o com a cabeça. — Isso não dará certo Ana... — levanto-me e começo a andar de um lado ao outro. — Pare de dizer isso, terei controle nessa situação! — diz furiosa enquanto me segue com seus olhos. — Esses homens foram treinados e criados para servir a Vicent, não quero azarar o seu plano. Mas acha mesmo que ficariam contra ele, o grande chefe do Cartel para te ajudar? Paro e a olho, ela passa a mão em seu longo e dourado cabelo. — Sim, se souber como manipulá-lo para isso. Sento-me novamente na beirada da cama, colocando minha cabeça sob minhas mãos, apoiando-me no meu próprio colo. Sinto a mão de Ana acariciar o meu cabelo, logo em seguida ela diz: — Não é nada que conseguirei em dias, farei isso da maneira certa. Preciso de tempo até ele estar realmente entregue, até que esteja realmente disposto a tudo para ficar comigo! — Ainda acho arriscado, ele pode nos entregar ao invés de ajudar. Não espero nada de bom desses desgraçados daqui! — Eu também não, mas não temos escolha. Dessa forma é arriscada, entretanto, é a mais segura que pude ver, ao menos de sairmos desse mísero país! Conserto minha postura e volto a olhá-la, vendo quão está séria enquanto suas palavras saem. Em partes ela tem razão, não vejo saída nem dessa fronteira, muito menos desse país por conta própria. Mas, confiar em capangas que abusam, espancam, e matam por muito menos parece ainda mais loucura! — Deixe essa parte comigo, preocupe-se apenas em não tentar piorar a sua situação. Seja paciente e eu garanto, logo sairemos daqui! — Tudo bem, só tenha cuidado! — ela concorda com a cabeça, logo em seguida enfia a mão em seu decote, como se buscasse algo — O que está fazendo? Ela não responde, apenas continua vasculhando cada canto do vestido bem decotado que usa, me olhando e deixando que um breve sorriso de canto apareça em sua face. — Eu... queria te dar isso... — quando retira sua mão noto haver algo, quando abre-a sinto a minha garganta se travar por um momento. — Ana... Oh meu Deus! — sussurro enquanto pego o objeto — O meu terço... — Feliz aniversário, eu queria ter devolvido antes. Mas não foi fácil conseguir que me devolvessem! - meus olhos se enchem de lágrimas, sem esperar mais lhe dou um forte abraço. — Obrigada, isso significa muito para mim! — sussurro enquanto deito minha cabeça em seu ombro, ela retribui o abraço calorosamente. — Vai ficar tudo bem, vamos sair desse inferno... não se esqueça disso! — sussurra para mim. Concordo com a minha cabeça assim que me afasto, ela enxuga meu rosto com a mão e em seguida se levanta. Indo rapidamente até a porta, parando apenas por um momento para me olhar sob seu ombro. — Preciso voltar, mais tarde não se esqueça... — Eu sei. — interrompo-a — Ele estará aqui, vou me preparar para enfrentar isso! Ela me lança um olhar triste enquanto abre os lábios para falar algo, mas uma forte batida na porta a faz engolir o que iria dizer. Saindo rapidamente do lugar sem dizer mais nada, o capanga tinha uma cara furiosa enquanto ela passa, e logo bate a porta da cela com força. Sem esperar mais me deito na cama, colocando o terço de meu falecido pai embaixo do fino colchão. Não poderia arriscar que alguém o descobrisse comigo, mas, só de saber que ele havia voltado para perto de mim me sinto ainda mais forte. Sinto-me sendo recarregada para enfrentar a noite que me aguardará mais tarde, e as muitas outras que sei que virão. Aquele pequeno item, além de me ser como um conforto em meu coração, me lembrava da força de meu Deus. Lembrava-me de que ele está comigo, me ajudará a sair daqui, e guiará meus passos para quando o momento realmente chegar! "Eu te peço pai, cuida dela por mim, mantenha sua manta sobre ela. Conforte o nosso coração, pois nosso reencontro será sobre tua base!" Digo em pensamento, fazendo o que em toda manhã eu podia para enfrentar tudo... orando e ansiando por um milagre!
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