Catarina
A luz da manhã ilumina meu rosto, pisco meus olhos algumas vezes até enfim abri-los completamente. Pela cortina ainda um pouco fechada vejo que já amanhecera, passo lentamente a mão nos meus olhos enquanto me estico na cama.
Há muito tempo não dormia tão tranquilamente, não deixava o sono me envolver de tal forma. Aliás, era quase impossível antes, quando não me mantinha em alerta por medo de um dos capangas de Vicent entrar, eu estava tão machucada que perdia qualquer vestígio de sono.
Mas, sentia como se meu corpo enfim tivesse sido envolvido por um bom descanso. Eu não deveria estar tão tranquila, eu sei. Entretanto, apesar da minha situação e as palavras de Marco, eu consegui me permitir ter um pouco de sossego. Me permitir realmente deixar que meu corpo e mente tivessem paz, ao menos foi o que eu tentei!
— Que bom que acordou! — dou um pulo da cama, qual quase caio ao chão pela beirada da cama.
Olho para onde aquela voz vinha, e confirmando o que minha mente já sabia. Marco estava sentado em uma poltrona perto da lareira apagada, ele segura em sua mão um copo vazio de bebida.
— Quer me matar de susto? — pergunto ofegante, arfando o lençol e cobrindo o meu corpo, ele segue meus movimentos com os olhos.
— Estava aguardando que acordasse, precisamos conversar. — cruzo meus braços, enquanto faço uma careta.
— Como assim? Pensei que esperaria ao menos que eu tomasse um banho, que fosse ao seu encontro!
— Sou um homem impaciente. — a voz dele é totalmente fria.
— Isso eu já notei, mas preciso de um tempo Marco. — no mesmo instante que digo seu nome, pude jurar que os seus olhos escureceram ainda mais do que já estavam.
— Tem 10 minutos, venha ao meu escritório no primeiro andar. — ele se levanta e vira de costas.
— Poderia ser menos grosso se quisesse, sabe disso não é? — ele já estava quase alcançando a maçaneta, não sei de onde apareceu essa coragem de enfrentar um desconhecido, mas só de imaginar que me observava enquanto dormia me deixa brava, talvez o suficiente para isso.
— Tem razão, mas eu não quero. — ele me olha novamente por cima do ombro — Quero que se sinta exatamente como agora em relação a mim, quero que saiba que não deve confiar em mim, que deve ter cautela e de forma alguma imaginar demais em sua mente.
— Imaginar demais o quê? — vejo como estreita os olhos — Eu estou aqui há menos de um dia, e em momento algum você tentou ser educado, ou bondoso. Então parabéns! Está despertando de mim exatamente o que você quer!
— Ótimo, assim não teremos problemas. — respiro fundo, será mesmo possível que ele seja esse ser totalmente arrogante quanto aparenta? — Tem roupas naquelas sacolas, use-as e venha me encontrar. Oito minutos! — sem dizer mais ele sai, e ainda bate a porta com força enquanto faz.
Tiro um dos travesseiros e o lanço naquela porta, totalmente enfurecida pela forma que ele se dirigi a mim. Tudo bem que estou acostumada a ser usada, agredida, e até mesmo tratada m*l. Mas, eu realmente esperava que ele faria isso diferente, ele me tirara das mãos de um homem r**m apenas para se mostrar da mesma forma para mim?
Por mais que minha mente novamente me alertasse sobre isso, eu não poderia acreditar. Pelo menos enquanto ele vestia essa máscara fria e c***l consigo, eu ainda podia jurar que era tudo uma fachada. Que toda essa superfície obscura é algo que criou para afastar as pessoas, um homem r**m salvaria uma garota de um cárcere? E se sim, porquê?
Olho para o relógio ao lado da cama e me levanto, caminho pelo quarto até que chego perto das sacolas que ele apontou, ajoelho e começo a abrir elas, vendo as roupas finas e saltos dentro dela. Tinha algumas peças que eu nem sabia se eram partes de baixo, ou peças intimas.
Olho em outra sacola esperando encontrar algo que esconda mais minha pele, e realmente acho. Só tinha um problema... minhas costas ficariam visíveis!
— Uh! — gemi baixo, totalmente frustrada. Sabia que ele me aguardava, e que praticamente nada do que trouxe realmente seria confortável para usar.
Desvio meus olhos para a minha bolsa ao canto, eu não tinha roupas, apenas algumas peças manchadas de sangue ali. A única roupa que me restava, era o vestido o qual sai da casa de Dante!
Após me vestir, e fazer um coque meio solto caminho pelo corredor. Diferente de ontem a noite a casa estava movimentada, mesmo que pouco, ainda assim já encontrava algumas pessoas que limpavam, enquanto outras passam com frutas, verduras e vão em direção da cozinha.
Mas, o que me chama atenção é que todas me encaravam com olhares curiosos, parece que esse tal de Marco é mais sombrio do que penso. Ou talvez, eles apenas não estejam acostumados a vê estranhos aqui!
Caminho pelo corredor do segundo andar, tinham muitas portas, mas ao passar por uma delas ouvi um som vindo de dentro, decidi então abri-la. E confirmo o que pensei, vendo atrás de uma grande mesa, sentado em uma poltrona imensa e teclando rapidamente em um notebook!
— Sente-se. — ele diz enquanto ainda abria meus lábios para anunciar que cheguei, confirmando não precisara olhar para saber que eu estava aqui.
Sento em uma das cadeiras em frente a mesa dele, que permanece sem me olhar. Assim que me acomodo ele diz:
— Pensei que tivesse deixado roupas para você.
— Elas... não couberam! — só então ele me olha, estreitando o olhar como se tivesse um tipo de detector de mentiras, e conhecesse a minha!
— Você me chamou e estou aqui. — desconverso, ele fecha a tela do notebook e se encosta na poltrona.
— Sim, agora é o momento em que você começa a falar. — respiro fundo, sabendo que ele não me daria mais tempo, que ele exigia minhas respostas e que eu não conseguiria me desviar disso.
— Vou contar o que deseja saber, só... — hesito.
— Apenas diga, preciso saber o que enfrentarei!
Aquelas palavras me fizeram franzir minhas sobrancelhas, pela expressão em seu rosto, até mesmo ele parecia procurar entender o que falara. Mas não dura por muito tempo, logo a sua face fria toma o local de volta.
Ele parecia ser alguém um tanto confuso, ao menos não conseguia entendê-lo. Uma hora me dizia coisas, se mostrava frio e indiferente. Mas, em outras parecia que do momento em que eu voltara para aquele carro, em que eu tomei a decisão de continuar ao seu lado... que mais nada me alcançaria!
— Eu nasci aqui, no Brasil. Minha mãe e pai sempre cuidaram muito bem de mim, mas meu pai viajava muito, trabalhava com entregas para grandes empresas. Ele sofreu um acidente o qual lhe custou sua vida. — fecho meus olhos — Eu tinha apenas 11 anos quando o enterramos, vivíamos de uma forma muito simples desde então. Minha mãe trabalhava em dois lugares, e eu tentava ajudá-la também, mas um pouco depois de meus 12 anos ela participou de uma reunião, a qual mudou minha vida completamente. Eles prometiam muito, e em momento algum desconfiamos do que realmente poderia se tratar! — abro meus olhos, vendo que ele me observa atentamente.
— Continue, eu quero saber tudo. — engulo em seco, ainda me preparando mentalmente para reviver tudo aquilo, porque isso aconteceria enquanto as palavras fossem ditas.
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Meu queixo treme, uma lágrima dolorosa rola meu rosto, e o gosto que tinha em meus lábios me dava ânsia de vômito.
Eu havia lhe dado o que me pediu, contei como fui parar naquele pesadelo, como fui usada enquanto ainda era uma menina, e lhe contei como saíra de lá também.
Tudo foi como eu imaginei, um terrível e doloroso flash de meu passado. Havia contado boa parte, deixando de fora apenas poucas coisas. Ele não demonstrou surpresa, não demonstrou sentir repulsa ou raiva pelo que lhe contara. Apenas manteve sua expressão fria, enquanto diversas vezes serviu em um copo a sua frente doses de bebidas.
Aquilo de certa forma quebrou um pouco a minha esperança de que pudesse contar com sua ajuda, mas... não totalmente!
— Você é a favorita dele, sabe que virá busca-la. Não sabe?
— Eu preferiria morrer, do que estar novamente em sua mão. — digo enquanto enxugo meu rosto com as costas das mãos — Ele é um sádico, por nove anos ele tentou me destruir. Tentou tirar minha fé, minha persistência e minha luz! — Marco segura o copo com mais força, noto isso.
— Ele conseguiu?
— Não, porque nunca desistiria de voltar para minha casa. Nunca desistiria de minha liberdade! — baixo meus olhos — Infelizmente para isso, perdi alguém que queria ao meu lado.
— Ela foi a culpada por seu sequestro, ela condenou você aquilo. E mesmo assim lamenta por sua morte? Estou curioso Catarina!
— Ela fazia o que precisava para sobreviver, mas se arrependeu por seus atos. Sem ela, eu não teria chegado até aqui! — ele volta a ficar em silêncio — Ela merecia uma segunda chance, merecia ter sobrevivido...
— Você também merece, se algumas pessoas tiverem que morrer por isso... porquê lamenta tanto? — pisco algumas vezes, ainda processando o que ele acaba de falar, e a frieza enquanto faz.
— Não Marco, eu não quero mais sangue. Quero apenas poder rever a minha mãe, saber como ela está, lhe dizer que estou viva e com um coração repleto de saudades!
— Você é uma pessoa quebrada, teve seus momentos no inferno e o carrega consigo. Mas, ainda assim... tem um coração e uma alma! — ele faz uma pausa, virando a sua bebida de uma única vez — Você é forte, mas muito ingênua para chegar aonde quer!
Levanto da minha cadeira no mesmo momento, a raiva corria por mim juntamente a um sentimento novo, o sentimento de que ele não se importa com minha dor, de que talvez esteja fazendo apenas como Vicent, apenas se alimentando dela!
— Você queria a verdade e eu lhe dei isso, mas não tem o direito de me dizer tais coisas. Está certo, carrego um inferno dentro do meu peito. Mas a minha vontade de viver é maior, e a minha vontade de reencontrar minha mãe também! — faço uma pausa, ele apenas me olha com uma expressão indecifrável — Eu chegarei aonde eu quero, porque já fui quebrada o suficiente. Não descansarei antes disso!
— Você tentaria se matar naquela tarde...
— Sim, porque fui estuprada por anos. Fui agredida e usada como se minha vida não significasse nada, eu não aguentaria passar por isso novamente!
Os olhos dele por um instante escurecem ainda mais, vi que seu maxilar se trancou pelo que acaba de escutar. Talvez então essa seja uma reação, aquilo pareceu deixá-lo com raiva, mesmo que ainda tentasse manter sua expressão séria.
— Sabe Marco porquê eu não entrei naquele aeroporto? — faço uma pausa novamente enxugando o meu rosto — Porque achei que seria pior arriscar entrar ali, do que estar ao lado de alguém que pela primeira vez em tantos anos... me arrancou de um novo pesadelo!
O ombro dele sobe e desce lentamente, como se estivesse se aquelas palavras estivessem pela primeira vez, causando mais de um efeito em sua mente tão fria.
— Achei que deveria ser alguém que me ajudaria novamente se quisesse, você parece alguém sombrio, não n**o. Mas, parece também alguém que poderia fazer algo bom, bastaria apenas querer! — as lágrimas caem, e já não queria enxugá-las.
— Pensei que talvez você quisesse me ajudar, já que da primeira vez que nos vimos você apenas ignorou a cena. Acreditei que de algum modo, a bondade pudesse ter lhe tocado...
Viro-me e caminho até a porta do local, quando minha mão alcança a maçaneta olho novamente para Marco, que está de pé agora, com as mãos sobre a mesa enquanto me olha atentamente. Respiro fundo, e por fim digo:
— Mas eu vejo que me enganei, você se parece com oque quis me passar desde ontem. Parece alguém frio e arrogante demais, para se importar com outra pessoa além de si mesmo! — abro a porta — Eu irei embora, sairei do seu caminho para que continue... seja lá o que você faça!
Os olhos dele pareciam duas bolas negras e sombrias quando termino de falar, suas mãos estavam fechadas em punhos agora, mas não quis olhá-lo mais. Só precisava sair daqui, porque desse homem eu não receberia uma gota de bondade!
Viro-me e dou um passo, mas... a minha vista escurece totalmente. Senti meu corpo inteiro amolecer de um segundo ao outro, não conseguia me apoiar em nada, e sabia que estava prestes a cair com força ao chão.
Entretanto, senti braços fortes me alcançarem antes que a dor do impacto chegasse.
Não consegui ouvir nem falar mais nada, apenas fui engolida pela escuridão!