Capítulo 24

2129 Palavras
MARCO Entro no meu quarto e vou diretamente para o banheiro, lanço algumas coisas ao chão, a explosão me faz dar um forte soco no espelho. E no mesmo instante que ele se quebra um flash me alcança, tento afastar aquilo de minha mente. Mas, fora uma tentativa totalmente inútil, como das outras vezes... as lembranças me engoliram: Olho de um lado ao outro, ainda tentando entender porque todas essas pessoas cantam essas músicas estranhas. Usam até mesmo algumas palavras em outra língua, isso tudo me deixa confuso, mas não falaria nada para minha mãe. Desde que ela encontrou esse lugar não tem bebido mais, é parecido a uma igreja comum, mas... o estranho é que eles adoram e veneram um homem! Não sei o seu nome, e nem como minha mãe entrou nesse tipo de culto. Entretanto, se faz bem para ela? É mais que bem-vindo! — Levante filho, tome... — ela me entrega um papel com as palavras da música, e praticamente exige que eu levante daquele banco, faço rapidamente. — Não quero cantar isso, desculpe mamãe. — Marco, tente. Esse lugar é maravilhoso, não queremos ser expulsos não é? — respiro fundo, abro aquele papel e começo a cantar baixinho. Minha mãe até mesmo dançava, ela estava estranha, mesmo que eu goste de vê-la feliz, ela parece um tanto fora de si. Seu cabelo está penteado e coberto de enfeites de flores, seu rosto maquiado, assim como o vestido rosa que usa. Desde a morte de meu pai ela não fizera isso, até hoje! — Lindo, irmãos, senti cada palavra fazer efeito dentro de meu pobre e bondoso coração! — o homem ao palco fala, todos voltamos a nos sentar. Ele anda pelo palco enquanto parece deixar todos maravilhados com suas palavras, alguns até mesmo choram. Como se até o som de sua voz, os deixasse em um tipo de transe! Minha mãe? Ela sorria de uma forma estranha, e aquele homem olhara diretamente em sua direção, ele parecia conhecer ela e tinha alguma intenção. Olho tudo ainda confuso, sem saber qual reação tomar ou a forma certa de agir. Mas, tendo apenas 11 anos e a partir desse dia, o inferno chegaria em minha vida. Ele chegaria com promessas, palavras, e ofertas. E transformaria o que eu já estava sentindo na minha pele, em um verdadeiro tormento! ━━━━━━━》❈《 ━━━━━━━ Eu sou o que sou, não tem volta, não tem arrependimento e muito menos outro caminho para mim. A minha vida está em carregar aquelas marcas demoníacas, está na certeza de que minha alma fora corrompida, e que o inferno... é o que me aguarda! Abro meus olhos lentamente, minhas mãos tremem e o sangue respinga na pia. Estavam cortadas e marcadas, mas aquilo não doía em mim. Era difícil saber se algo ainda poderia me afetar, se poderia me machucar, ou abalar minha mente. Talvez eu seja totalmente estragado, talvez a vida não fora justa, ou apenas encontrei com demônios em meu caminho! — Sr. Marco... — viro-me com os dentes trincados, vendo um dos seguranças cautelosamente abrir a porta de meu quarto, assim que ele me vê e olha o sangue em minhas mãos, desvia o olhar. — Mande que alguma das mulheres arrume Catarina. — desvio meu olhar novamente ao espelho quebrado — E preparem os carros, em menos de uma hora vamos para aquele evento infernal! — Sim, senhor! — ouço o som da porta se fechar, não me viro para olhar, apenas continuo me olhando e encarando no espelho. Como uma pessoa em sua sã consciência confiaria em alguém como eu? Como preferiria estar ao meu lado, sob meu domínio do que distante? Ela provavelmente é louca, Catarina não deve estar em seu juízo normal. Ela sofrera de inúmeras formas, e talvez seja isso... ela me enxerga como seu herói! Mas, eu não sirvo para isso. Eu seria o pior lado do pesadelo de alguém, aquele lado macabro o qual a pessoa se desespera para querer acordar e esquecê-lo! Sentir seu abraço foi estranho, eu nunca permito aproximação das mulheres que se deitam em minha cama, ela não está aqui para me dar prazer, mas mesmo assim, não permito e não quero essa aproximação. Isso é perigoso, e julgar por tudo que já nos cerca. Ela não vai querer mais esse problema para si, ela deve ter uma grande bagunça dentro daquela mente, e por mais que eu não queira vê-la sofrendo como disse que já aconteceu. Ela precisa realmente entender quem eu sou, entender não haver espaço para bondade ou um herói dentro de mim, de uma vez por todas ela precisa enxergar o d***o que me tornei! ──────❁────── CATARINA Vejo-me nua em frente ao espelho do boxe, um cabide está próximo da porta. Nele um lindo e longo vestido azul-escuro me aguarda, uma das mulheres trouxe ele para mim, ele tem um longo decote, mas por sorte as costas não ficam visíveis! Uma etiqueta indicava ser novo, mas por sorte quem houvesse solicitado pareceu notar que eu não queria deixar meu corpo totalmente exposto. Só pude agradecer a deus por isso! — Quer que eu ajude com o seu banho? Posso encher a banheira, colocar algo bem perfumado... — ouço a voz da mulher do outro lado da porta. — Não precisa, não entrarei na banheira... já vou sair! — Tudo bem, estou te esperando! Mordo levemente meus lábios e começo a tomar o banho na água quente do chuveiro, agradecia mentalmente por Marco ter permitido que eu o acompanhasse, realmente não queria ficar aqui sem ele. De certa forma eu me sentia segura com ele, talvez porque me libertou daquele lugar antes, ou talvez porque ele mesmo que negasse a si próprio, parecia alguém que não machucaria alguém, pelo menos que não merecesse. Ainda não sei com o que trabalha, mas tenho certeza de que é algo perigoso. Tenho certeza de faz algo ilegal, talvez seja esse o motivo de sua frieza. Na sua casa não vejo fotos, retratos de sua família, provavelmente é alguém sem família. Talvez não seja alguém que se tornou quem é hoje porque quis, talvez carregue alguma dor dentro de seu coração. Uma dor suficiente para ser rude, bravo e sozinho! Mesmo que odeie quando faz essas coisas, quando é rude principalmente, eu noto na sombra de seu olhar. Que há algo o que possa atormentá-lo, algo que o cubra com essa frieza que tem. Ele carrega sinais de dor, e só pude identificar, porque tenho o mesmo comigo! Saio do banheiro já vestida, meu cabelo está enrolado na toalha enquanto uso outra de rosto para enxugar o meu. — Ah, ficou linda! — ela diz se levantando da cadeira e me olhando com um sorriso — Trouxe algumas maquiagens, vai ficar ainda mais! — Eu não gosto muito dessas coisas... — digo baixo, não querendo expor minhas lembranças qual Vicent ordenava que eu estivesse muito bem maquiada, para ter o prazer de vê-la borrar com as minhas lágrimas. — Farei algo simples, apenas vamos valorizar esses belos olhos azuis e um pouco de batom! — respiro fundo e concordo com a cabeça. — Tudo bem! — ela sorrir, me sento na beirada da cama e logo ela se aproxima, começando a passar tudo em mim, sem esconder seu sorriso largo. Ela não parece ter mais de 25 anos, sua pele morena e seus cabelos cacheados são lindos, e por cima ainda fala muito bem inglês e albanês. Ela não se mostrava alguém que queria uma amizade comigo, mas noto como é gentil e inteligente, ela está aqui porque quer e não porque fora obrigada! ━━━━∙⚚∙━━━━ MARCO O cigarro queima lentamente na ponta de meus dedos, olho fixamente pela janela da sala, vendo meus seguranças preparando os carros para a saída de hoje a noite. Eles colocam inúmeras e diferentes armas no porta malas do carro, isso além das que carregam consigo mesmo. Em meu coldre na cintura também carrego duas pistolas, mas, eu já participara de eventos como este o suficiente para saber que nada é exatamente o suficiente, surpresas sempre acontecem, ainda mais para mim. Sei que lá estarão muitos, principalmente inimigos meus, e nesses eventos eles têm um lema bem sombrio: "Sem um pouco de sangue, a festa não começa completamente!" Parece loucura levá-la para lá, ainda mais por saber que estaria pela primeira vez desde que entrei nesse mundo, expondo alguém comigo. Eles podem pensar que ela é minha fraqueza, podem tentar usar disso em seu favor. Eu deveria ter dito simplesmente não! Mas, porquê não fiz isso? Ela está indo pelo caminho errado, mesmo que não veja! O perigo fora daqui pode cercá-la, mas, só lhe alcançará literalmente se persistir ao meu lado! Nada que seja bom, nenhum sentimento puro, se constrói ao lado de um demônio! — Isso vai te matar... — ouço um sussurro, viro-me e dou de cara com ela descendo as escadas. Ela está perfeitamente arrumada, seu cabelo penteado e até mesmo as luvas que cobrem suas mãos combinam com o vestido que usa, assim como combinam também com o prendedor que usa. A minha garganta simplesmente trava, ela não tinha aquele olhar assustado ou de medo. Ela tinha sua cabeça erguida, juntamente a um sorriso no canto de seus lábios. Como ela ainda consegue isso? Como pode encontrar motivos ainda para sorrir, para se manter firme após tudo? — Sério, isso vai te matar um dia! — ela aponta para meu cigarro, já parando bem na minha frente. — Isso, ou qualquer outro que queira minha morte! — assim que digo, o olhar dela desce até meu coldre, provavelmente vendo as pistolas nele. — Isso te assusta? Ela não responde, apenas engole em seco e volta a me olhar. — Não é um evento de diversão, não costumo ter pessoas boas ao meu redor. — ela ergue uma sobrancelha, como se não acreditasse no que eu digo. — Não vai me assustar Marco, então vamos! — ela passa por mim, indo em direção a porta como se zombasse do que eu digo. Ela é louca, não tenho dúvidas. Lindamente louca, e mais uma vez tem a audácia de usar minhas palavras contra mim mesmo. Começo a caminhar até o lado de fora, vendo-a a minha frente. Um dos seguranças abre a porta e ela entra, logo consigo vê aquele olhar me fitando de dentro do veículo. Passo algumas ordens aos meus seguranças, assim que termino entro no carro. Ela estala seus dedos, como se estivesse nervosa ou até mesmo ansiosa. — Eu estou ansiosa, precisava vê pessoas novamente. Acho que esqueci de como é estar na presença de tantas outras pessoas! — o carro começa a se mover juntamente aos outros, olho para ela ainda com minhas sobrancelhas franzidas. — Sabe que isso que novamente está fazendo, é outra decisão perigosa. Não sabe? — ela estreita o olhar para mim — Eu não estou brincando, não sei o que se passa nessa sua mente. Mas, é totalmente o contrário do que está pensando... ao meu lado, tudo pode tentar te matar! — Marco — ela sussurra, ouvir meu nome daquela forma me fez engolir as palavras — Eu sei que tivemos aquela discussão mais cedo, e que disse que iria embora. Mas realmente me sinto bem aqui, e acho que pode me ajudar a encontrar o meu lar. No mesmo instante desvio meu olhar, ergo um pouco minha cabeça e fito o teto do carro. Ela continua: — Sei que disse que não é meu herói, ou nada disso. Mas, você fez algo que me deu esperança. — ela faz uma pausa, no mesmo momento olho novamente para o seu rosto — Por mais que diga e se veja como um homem mau, eu tenho fé em você. Quero ser sua amiga, quero que também enxergue isso de si próprio! Assim que ela para de falar sinto meu maxilar trancado, aquelas palavras eram realmente contrário de tudo que aceito ao meu lado. O ódio de ouvir aquilo é tão visível que sinto minhas veias vibrarem, a dor e raiva de um passado correm por ela. E mesmo que Catarina não tem culpa de suas palavras, não tem culpa em tentar sempre vê um lado bom até mesmo da dor, ela acabara de assinar uma longa e fria distancia de mim! Talvez o certo realmente seja procurar o endereço de sua mãe, tirá-la do meu caminho e deixar que morra longe de mim. Pois, é isso que acontecerá assim que voltar a sua cidade natal. Talvez ela ainda não percebera o nível de que isso tudo está, e por mais que tente ver a bondade e luz em tudo. Provavelmente sua alma está sentenciada a dor, agonia e morte!
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