Catarina
Olho pela janela do carro, já faz um bom tempo que saímos da mansão e estamos na estrada. As ruas estão pouco movimentadas, via apenas algumas pessoas em meio ao trânsito que pegávamos.
Marco segue em silêncio ao meu lado, ele praticamente nem volta a olhar para mim. Suponho que as minhas palavras de agora pouco não o agradaram, mas, não menti em nenhum momento, por mais que fosse totalmente loucura da minha parte querer uma aproximação dele, eu sabia que longe eu já passara por m*l bocados suficientes. Sem dúvidas ele é alguém qual deve carregar um passado bem sombrio, pois toda vez que tento apenas falar em algo bom, ele cria uma barreira a sua volta.
Os seus olhos castanhos escuros se tornam sombrios de um segundo ao outro, sua reação parece que mataria qualquer um, mas, além disso posso notar algo a mais. Noto como parece ter sido restingo de tais coisas, assim como eu!
O pouco de lembranças boas que carrego, foram antes de meus 13 anos. Antes de ter entrado naquele avião há tanto tempo, antes de ter que carregar as marcas que me acompanham até hoje.
Em minha mente, minha alma, e em meu corpo!
Mas, em meio a tanto, ele simplesmente me salvou. Ele não quis nada em troca do que fez, eu decidi estar aqui, ao seu lado e agora.
Mesmo que ainda acredite que apenas ela possa me ajudar a encontrar minha mãe, eu tenho outra certeza em minha mente.
Deus não nos colocaria no caminho um do outro, por um simples acaso. Talvez possamos nos ajudar!
— Esse evento... — começo, ele vira a cabeça para me olhar — O quê devo esperar?
— Tudo, não existem pessoas boas naquele lugar. — ele vira a dose da bebida que carrega em mãos — Talvez em lugar nenhum que for comigo!
— Por que diz isso? Eu não preciso procurar pessoas boas a minha volta Marco, se eu me sentir bem e segura, nada me impedirá de continuar! — ele ergue uma sobrancelha.
— Você provavelmente ainda não tem noção do que diz! — respiro fundo, colocando uma mecha de meu cabelo atrás de minha orelha.
— Você se julga demais, todos em certos momentos da vida erramos... faz parte do nosso ciclo!
— Alguns não têm opção Catarina, não existe outro caminho. Apenas entenda isso!
Franzi minhas sobrancelhas, ele desvia o olhar dando aquela conversa como encerrada. E julgando pela sua postura rígida, não adiantaria discutir sobre esse assunto. Apenas o deixaria bravo, e consequentemente tendo outra crise de explosão como mais cedo!
Assim que o carro para em frente há um lugar, um segurança abre a porta de Marco. Ele desce e vem até a minha, abrindo-a e estendendo a mão para mim.
Respiro fundo e pego, sentindo um rápido arrepio se espalhar por mim. Ele coloca minha mão em seu antebraço enquanto começamos a caminhar em direção a entrada.
Os seguranças nos acompanham mantendo apenas alguma distância, olho impactada pelo redor vendo a imensidão do lugar. Parecia um enorme castelo, tinha uma música de fundo que parece vir de dentro do lugar, algumas outras pessoas caminham com taças e suas belas vestes finas, cada vez mais que nos aproximamos sinto os olhares em nossa direção.
Principalmente dos homens, eles olhavam com uma expressão de fúria, aquilo me alerta em certos momentos. Marco por sua vez mantém consigo um olhar indecifrável, assim como aquela máscara fria ao seu redor.
— Me ouça com atenção... — diz enquanto paramos bem na porta principal, aproximando um pouco seus lábios de meu ouvido, me dando outro arrepio involuntário.
— Não estava brincando quando disse que muitos querem me matar, e alguns deles estão nesse lugar. Por isso não queria que viesse, pode ser perigoso!
— Entendi, vai dar tudo certo! — olho para ele, vendo piscar os olhos algumas vezes, como se não entendesse minha resposta — O quê?
— Você é um total mistério Catarina. — ele não diz aquilo de uma forma qualquer, os seus olhos miravam em meu rosto de uma forma estranha.
— Marco Hernandes!! — Pisco algumas vezes ao ouvir uma voz masculina, ele mantém seu olhar por mais um instante até enfim virar o seu rosto. — Enfim presente no nosso inferninho, é realmente um prazer!
O homem parece ter uns 45 anos, ele é alto com seus olhos negros e cabelos um pouco grisalhos, vestindo um terno fino e com um copo de bebida em sua mão direita.
Seguro um pouco mais forte no braço de Marco, que apenas lhe olha friamente em sua frente.
— Franco, enfim nos reencontramos. — o homem sorrir de canto, então desce seus olhos até mim.
— E quem é essa? — ele estende a mão, hesito em pegar, mas acharia pouco educado se não fizesse.
— Catarina. — assim que pego ele segura a ponta de meus dedos, e aproxima seus lábios das costas dela.
Pude jurar que ouvi um rosnado ao meu lado, mas logo afasto minha mão e recuo um pouco, ficando mais para trás.
— Eu vivi para vê isso, Sr. Hernandes em meu evento, e ainda acompanhado!
— Não iremos demorar. — Marco retruca no mesmo segundo, o homem apenas concorda com a cabeça lentamente.
Em seguida vira-se e começa a entrar, Marco me guia em enquanto seguimos aquele homem, os olhares caem sobre nós como se fossemos a peça principal que faltava.
Naquele exato momento senti o que ele quis me passar, o perigo em volta, e também... o arrependimento de minhas palavras!
— Quem é esse homem? — sussurro, Marco respira fundo e vira um pouco seu rosto.
— Um comprador, negocio com ele há muitos anos. Embora ainda não tivesse visitado nenhum desses eventos que provindo do dinheiro, e mortes de seus inimigos! — a saliva se trava em minha garganta.
— Precisa me falar o que faz de verdade. — paramos em frente a uma mesa, ele puxa uma cadeira para mim, assim que me sento ele toma o lugar ao meu lado, mas tenho certeza que escutou o que acabo de dizer.
— Tenho ótimos planos para fechar com você Marco, mas falaremos de negócios em outro momento. — o homem diz enquanto aponta ao seu redor, os olhares ainda continuavam, uns parecem até confusos enquanto fazem — Aproveite o evento!
— Não estou aqui para isso, você sabe bem! — Marco diz e noto a raiva em suas palavras, o homem ergue as mãos em sinal de rendição, mas ainda mantém aquele sorriso de canto em seus lábios.
— Logo voltarei, divirta-se um pouco Marco. E também... — ele me olha — Com uma companhia como essa deveria aproveitar mais! — franzi minhas sobrancelhas, o homem se vira e sai.
— Babaca... — ele rosna, um garçom enche nossos copos e logo depois se afasta, olho para Marco que permanece com um olhar sombrio.
— Por que não me diz o que faz realmente? — tento fazer que se abra, mesmo sabendo dos riscos de que ele se feche ainda mais.
— Quer saber mesmo? — ele vira a dose de bebida.
— Sim, por favor... A verdade é mais que bem-vinda! — os olhos dele estão ao meu, como se buscasse algo, até mesmo um respício de hesitação.
— Vendo armas para quem estiver disposto a pagar mais. — sua voz fora fria, seu tom não tinha nada, ele não hesitou ou rodeou, foi totalmente direto nas suas palavras.
— Você... — respiro fundo — Mas, sabe que isso é praticamente o principal motivo da morte de algumas pessoas, não sabe? Você coloca em suas mãos...
— Eu apenas forneço o que me pagam, o que faram com elas não me interessam! — ele me interrompe, pego a taça a minha frente e dou um grande gole, ainda não acreditando na frieza em que ele diz isso, como se nada ou ninguém o importasse!
— Por que escolheu isso? Por que não seguiu outro caminho?
— Não existe outro caminho para mim, nunca existiu. As coisas acontecem exatamente como tem que ser Catarina!
Volto a olhá-lo, vejo sua expressão sombria e sua postura rígida enquanto olha o homem que estava agora pouco aqui, no meio do salão e cumprimentando todos.
— Por isso se julga alguém mau? — ele me olha rapidamente — Por essa vida que leva?
— Entenda Catarina, eu não levo essa vida. Eu sobrevivo a ela, e se alguns tiverem que morrer para isso... ótimo!
Aquilo realmente era o meu limite, sem esperar mais viro totalmente a taça e engulo o líquido de vez. Ele franze as sobrancelhas por um instante, mas logo a expressão de sempre ocupa o lugar. O líquido desce queimando minha garganta, mesmo que soubesse que aquilo seria uma péssima ideia, era difícil escutar tais coisas da boca dele e digeri-las facilmente.
Ele literalmente não se importa com o que o rodeie, não se importa com a vida alheia e muito menos com os resultados de seu próprio trabalho. Não entendo muito sobre o seu mundo, mas o suficiente para saber ser algo perigosíssimo, tanto para que muitos o deseje morto, como também para saber a razão dele ter essa sombra escura a sua volta, um universo frio e sombrio.
— O jantar, licença! — um garçom após nos servir anuncia, em seguida se afasta.
Enquanto pego o talher e tento revirar um pouco daquela comida, Marco não larga o copo em sua mão, mantendo seu olhar sobre mim e me fitando.
A comida trava em minha garganta, ergo a mão para pegar novamente a taça, mas ele à segura, me impedindo:
— Você precisa comer, se continuar assim...
— O quê? Ficarei bêbada? — ele estreita o olhar, ainda com a mão em meu pulso — Não conseguia comer antes, e agora pensando em tantas mortes... muito menos!
— Pare com isso! Você está fraca, após tudo que passou insiste em vestir essa máscara forte em sua volta... — estreito meu olhar, ele faz uma pequena pausa, mas logo continua: — Acredite em mim, por mais que tente, ela não combina com você!
Puxo o meu pulso da mão dele, no mesmo instante o seu maxilar se tranca. Desvio meu olhar dele sentindo novamente aquelas suas palavras me alcançarem, me deixando com raiva e com uma enorme vontade de explodir em sua frente. Mas, como ele me disse, aqui tem muitas pessoas perigosas, e não queria fazer uma cena no meio de tanto que já parece querer irritá-lo.
No mesmo instante o homem que o cumprimentou mais cedo começa a caminhar em nossa direção, respiro fundo ainda tentando me controlar ao lado dele, que de todas formas, tenta me afastar de si.
— Ah Marco, vejo que está distraído demais para admirar o que eu vejo. — ele para e me olha
— Não vê que uma dama ao seu lado precisa dançar um pouco? — olho para ele ao meu lado, que solta o ar de seus pulmões totalmente irritado, dou mais um gole em minha bebida e assim que termino digo:
— Tem razão, se importa? — ele sorrir de canto, no mesmo instante vejo enfim uma expressão no rosto de Marco, uma que não gostaria muito, mas ocupando enfim o lugar: uma bem raivosa.
— Será um prazer. — ele me oferece o seu braço e pego enquanto me levanto, Marco não tenta me impedir, apenas fica sentado com uma expressão de fúria, e por mais que meus instintos estivessem gritando me alertando, eu não queria ouvi-los, provavelmente seria efeito daquela bebida.
— Devolverei em um momento, não me mate.
— Mantenha suas mãos bem longe. — não sei ao certo se o ouvi rosnando aquilo, ou se apenas fora algo que minha mente inventara.
O homem sorrir e concorda com a cabeça enquanto nos dirigimos ao salão principal, tive sorte em não tropeçar em meus próprios pés em diversos momentos, definitivamente eu não deveria ter bebido aquela bebida daquela forma, mas estava tarde demais para me arrepender.
O salão têm algumas poucas pessoas dançando, alguns se afastam enquanto nos aproximamos. Eles nos olhavam curioso, e também conseguia reparar nos olhares maldosos de alguns dos homens.
— Ele não vai me matar, vai? — o homem sussurra, assim que põe a minha mão na dele e começa a nos guiar ainda mantendo uma distancia.
— Não, por que acha isso? — ele sorrir, como se o que eu dissesse fora uma mentira, no mesmo segundo acena com a cabeça.
— Olhe. — faço, vendo a mesa que estávamos agora pouco vazia, parado com uma bebida em suas mãos em pé, e com o olhar fixo em nós estava Marco. Poderia jurar que avançaria a qualquer momento, me tirando das mãos desse homem.
— Ele não parece se agradar com suas vontades. — o homem continua sussurrando, ele me guia lentamente, agradecia mentalmente por isso, já que diversas vezes minha vista parecia ficar turva. Marco, a cada segundo que eu olhava, parecia mais perto.
Ele se aproximava a cada volta que nos dávamos, e com certeza estava bem raivoso.
— Você tem medo dele? — pergunto, desviando meu olhar e voltando a olhá-lo.
— Você não? — fico em silêncio, ele então continua — Isso é curioso, você não ter medo de um homem como ele, e pela reação dele... você deve causar algo!
— Como assim? — ele olha além de mim, em uma parte que a música fica um pouco mais rápida ele me guia mais agilmente, embora veja sua tensão e como mantém suas mãos com cautela.
— É interessante, muitos vêm isso que ele está fazendo agora... como uma grande fraqueza! — engulo em seco.
— Você acha que ele me vê como isso?
— Eu acredito que para ele te expor e trazer aqui, seja bem importante para ele... — respiro fundo.
— Pessoas usariam isso contra ele?
— Talvez, se quisessem afetá-lo ou conseguir o que querem! — no mesmo instante paro de dançar, o pouco de noção que ainda pairava sobre mim me alerta, percebendo meu comportamento o homem então continua:
— Não se preocupe, não pretendo contar isso para ninguém, seria uma morte ainda mais dolorosa e eu não pretendo partir dessa forma!
Ele sorrir na tentativa de me acalmar, mas não confio naquelas palavras, na verdade era dificil me sentir confiante e segura com apenas as palavras de alguém. Entretanto, em momento algum eu duvidara das palavras de Marco.
Em diversos momentos ele é rude, e as suas palavras me causam tanta raiva que sinto vontade de socá-lo. E se o que esse homem diz for verdade? E se pela primeira vez Marco não esteja deixando a escuridão a sua volta falar mais alto?
Abro meus lábios para responder as palavras daquele homem, mas uma voz atrás de mim me interrompe:
— Já deu né? Pode soltá-la! — o hálito dele está tão perto que os cabelos de minha nuca se arrepiaram, o homem no mesmo segundo me solta.
— Obrigada por essa dança Catarina, mas parece que alguém decidiu reagir então. — olho para Marco por cima de meu ombro, vendo estreitar seus olhos e também seu maxilar trancado, a raiva era mais que visível.
Eu sabia que poderia ter agido errado, que ele estava irritado por minha culpa, por ter dançado com esse homem. Mas, ele não mediu suas palavras para mim, não hesitou em me dizer tais coisas que de certa forma... me magoaram!
Será isso que ele quer? Me magoar para assim, me afastar de si próprio?