MARCO
Franco começa a se afastar, mas não antes de dar uma piscada de olhos para Catarina. Aquilo simplesmente fora a gota d'água, ele sabe muito bem os motivos de minha visita nessa palhaçada de evento, sabe que devia me informar qual a quantidade de armas que deseja, me dar de uma vez logo a merda de papéis com toda essa p***a.
Mas, decidiu me afrontar diante de meus olhos, dançando com ela como se aquilo fosse algo que eu concordara. Ele estaria morto por muito menos, fiquei esperando suas mãos descerem para o lugar errado, fiquei aguardando apenas um deslize. Para enfim liberar meu ódio em cima dele!
Catarina literalmente não anda em seu juízo normal, e depois que virou aquela bebida tudo piorou. Ela não teme o perigo, não vê as coisas da forma que eu vejo. Ela parece que carrega consigo uma loucura, qual alimenta como coragem.
Não estaria assim por uma simples dança, na verdade, nem me importei com isso. Estou pela audácia que ela carrega, aquela que ninguém em sua sã consciência faria.
Será a bebida que deu essa gota a mais de loucura a ela? Ou apenas novamente terei que usar de minhas palavras rudes, para ela acordar e notar quem está ao seu lado?
— Que p***a é essa? — pergunto segurando em seu antebraço, ela me olha com seus olhos brilhantes, com uma cara mais sínica e despreocupada.
— Por que está agindo assim Marco? Foi apenas uma dança! — diz puxando seu braço de minha mão, respiro fundo e ela continua — Você estava nos olhando de longe, como se fosse atacar aquele homem...
— É porque eu iria, se ele tentasse qualquer coisa com você eu iria! — minhas palavras saem, mas até mesmo eu me senti confuso com oque acabara de dizer, ela me olha em silêncio por um longo momento, fitando cada canto de meu rosto.
Minha face raivosa não a assusta, disso não se resta mais dúvidas. Mas, o que está passando novamente nessa cabeça?
— Quer saber, vamos sair daqui. — ela segura minha mão, no mesmo segundo estreito meus olhos.
— Espere, você quer ir por minha culpa?
— Também, visivelmente não está bem para ficarmos mais.
— Qual seu problema Marco, o que quer dizer? — no mesmo segundo puxo-a para mais perto, ela pisca algumas vezes e por um raro instante o medo passa pelo seu olhar.
— Eu te disse que estaríamos no meio de pessoas perigosas, e você decide dançar com uma delas? Que p***a é essa? — ela passa a língua nos seus lábios, que p***a ela está pensando?
Parece não estar me ouvindo, parece que apenas aquela taça de bebidas deu mais que coragem para ela, literalmente ela não está no seu normal, se é que existe um!
— É apenas por isso, porque eu dancei com ele. Isso te irritou? — meu maxilar se tranca de raiva, ainda lembrando da cena dos dois nesse salão, respiro fundo e ela ergue uma sobrancelha.
Como se não fosse necessário mais uma resposta, sabendo que sua pergunta fora respondida por ela mesma!
— Tudo bem Marco, desculpe por ter te irritado. Mas precisa controlar sua raiva, você quer me afastar de você? É isso?
— Catarina... — a advirto, ela não se importa, apenas aperta a minha mão que segura e continua:
— Se você não deseja isso, pode tentar o que eu te disse.
— Que seria? — a pergunta me escapa, não era para estar alimentando isso, não era para alimentar as palavras dela que me fazem ir contra as minhas...
Porra!
— Vamos fazer assim... — ela sorrir satisfeita, olha de um lado ao outro e em um instante aproxima mais seu corpo do meu — Vamos dançar, e se você se sair bem te desculpo por suas palavras de agora pouco!
— Nem pensar. — respondo e ela n**a com a cabeça.
— Acontece Marco, que isso não foi uma pergunta! — ela definitivamente não está em seu juízo normal, ou está bêbada, ou literalmente quer me desafiar de tal forma, um homem como eu?
A música segue, é uma lenta e ela usa isso para bailar comigo. Por mais que tinha ciência de que não aceitara aquilo, ela não se importou. Sua cabeça descansa sobre meu peito, passo meu braço por seu quadril, pude jurar por um instante que senti ela enrijecer.
Mas, logo não quis resistir aquilo, quando a realidade me abraçou já dançávamos naquele salão, tão lentamente que cada passo pareceu ser introduzido em minhas veias, o perfume do seu cabelo e do seu corpo se entranhou em mim de um segundo ao outro, em diversos momentos que olho para baixo, encontro um sorriso dela no canto dos lábios, enquanto segue de olhos fechados.
Ela parece não se importar com nada mais, como se aqui, bem aqui em meus braços... tivesse a certeza de que estava segura!
Talvez seja o álcool, ela não está em seu normal. Ela com toda certeza está procurando isso no local errado, parece não entender que nada de bom pode ser cultivado de mim.
Por tão pouco tempo que estar ao meu lado, a forma que vêm lidando com a sua realidade é algo surreal.
Certamente ela ainda deve estar em choque, deve estar com problemas em sua mente, e tudo deve estar tão embaralhado que sua noção de segurança se rebaixou a mim.
Logo a mim, um homem que faz o que eu faço, que lida com o que eu lido, não tem isso ao lado!
— Você tem sonhos, Marco? — ela sussurra, em meio a toda aquela situação que jamais me imaginara, ela ainda solta uma pergunta dessa.
— Não, não tenho. — ela abre os olhos, me olhando enquanto deixa sua cabeça ainda pressionada ao meu peito.
— Nem mesmo um?
— Não, tudo que eu um dia já quis foi conquistado. E o que não pude, arranquei de minha mente! — os olhos dela me miram, não desvio o olhar.
— Você tem essa capacidade? De arrancar algo de sua mente, se desejar? — fico em silêncio por um instante, nossos corpos estavam literalmente colados, e ainda seguíamos dançando.
— Eu aprendi a fazer isso.
— Penso que isso é errado. — ergo uma sobrancelha — Talvez não devesse arrancar seus sonhos de dentro de você, tem que lutar por eles por mais difícil que seja.
Fico em silêncio, apenas olhando no fundo de seus olhos enquanto a música se torna ainda mais lenta, aquelas palavras eram um erro, não poderia ou deveria falar sobre nada que pudesse me levar a pensar em meu passado. Isso sim seria uma explosão de nervos, no local, e em frente a pessoas erradas.
— Você ficou pensativo, então confirmo o que eu disse...
— Pare. — interrompo-a — Pare com isso, não tente enxergar dentro de mim. Não vai encontrar nada aqui!
— Você diz isso a si mesmo, mas eu estou enxergando totalmente o contrário. — paro de guiar nossos passos, ela afasta a cabeça de meu peito. Tenho certeza que fora minha respiração irregular, toda vez que começava a me aproximar da beirada de lembranças do passado era assim.
— Sabe, eu acho que sobrevivi tantos anos, por que coloquei para fora as coisas me machucavam. — meu maxilar se tranca, mas ela continua — Se quiser, estou aqui para isso!
Fecho meus olhos por um instante, tentando respirar fundo. Quando os abro ela estava erguendo uma de suas mãos, tinha certeza que viria até meu rosto, e isso... realmente não poderia acontecer!
— Você não percebe mesmo né? Eu não quero sua bondade, não quero que pense que dessa forma vai me curar, me ajudar... se é isso que acredita que eu preciso! — ela fica séria me olhando, minha voz sai totalmente fria.
— Se preocupe com o que deseja, apenas isso. Quer ir para sua casa e encontrar sua mãe? Tudo bem eu te ajudo nisso, provavelmente morrerá assim que chegar lá. — os olhos dela a essa altura estavam completamente cheios de água.
— Ou provavelmente ela já morreu, e quando chegar confirmará isso!
As palavras foram simplesmente saindo, e antes que eu pudesse parar... elas foram jogadas em cima dela!
A música que tocava já havia acabado, mas, o que via em minha frente era algo totalmente irreversível. A mão que estava próxima de meu rosto, agora estava sobre o rosto dela, as lágrimas que saem de seus olhos cobrem ela. A palma da sua mão não fora o suficiente para tampar o soluço qual escapara de seus lábios, e pela primeira vez em tantos anos...
Eu quis retirar algo de r**m que acabara de sair de minha boca!
Pela primeira vez, quis consertar algo que sei que quebrei com minhas palavras!
— Catarina... — começo, erguendo minha mão.
Ela n**a com a cabeça enquanto aperta seus olhos, recuando e se afastando de mim.
— Fique longe de mim! — fora a única coisa que ela conseguiu dizer em meio ao choro, logo em seguida gira seus calcanhares e começa caminhar em direção a saída.
Meus seguranças ao canto começam a segui-la, e por mais que eu sinta a frieza e minha escuridão me consumir, vi que o que acabara de dizer-lhe... foi totalmente injusto da minha parte!
Respiro fundo e começo a seguir seus passos, passando quase correndo em meio a todos no salão, sem me importar com os olhares curiosos, e muito menos com os cochichos de muitos, que provavelmente ouvira minhas palavras a ela!
Ela segue de cabeça baixa, seus ombros tremem confirmando que está aos prantos. Suas mãos estão ainda sobre seu rosto enquanto caminha rapidamente, em alguns momentos empurro alguns que estão em meu caminho, tentando ao máximo alcançá-la!
— Catarina. — alcanço seu braço, ela para de costas para mim, ouvia seus soluços.
Do outro lado do salão Franco e outros negociantes olhavam tudo atentos, me aproximo um pouco mais, a fim chamá-la para poder esclarecer minhas palavras.
Mas, antes que qualquer palavra pudesse sair de mim, no canto esquerdo do salão bem por onde ela estava prestes a passar até a saída o vejo... era aquele desgraçado qual me ameaçou na noite da reunião!
Ele me encara fixamente, segurando um copo de drink. Não demora muito para erguê-lo como se comemorasse o que via, e isso não foi tudo. O vejo sussurrando algo baixo:
— Interessante... Hernandes! — pude lê aquilo da sua boca imunda, e eu sabia que se referia a cena que via de mim e Catarina.
Ele provavelmente nos observava, maldito seja Dante. Acreditei que ele já havia resolvido essa merda, e agora veja!
— Pode me soltar, por favor? — a voz baixa dela me alerta, no mesmo instante solto seu braço, ela não volta a caminhar, mas ainda conseguia ouvir seus soluços.
— Vamos embora, tá bom? — sem me olhar, nem se virar ela apenas balança a cabeça, concordando com o que eu digo.
Vou até o seu lado, mesmo que mantendo o olhar naquele filho da p**a no outro lado do salão. Aponto para o outro lado e ela sem protestar começa a andar, ainda de cabeça baixa e sem erguer o rosto.
Faço um sinal para meus seguranças que logo parecem entender, vindo em nossas direções e se mantendo alerta olhando além de nós. Capitando com toda certeza o olhar daquele porco maldito!
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Ao lado de fora os nossos carros já nos esperam, meus seguranças mantém seus olhares atentos atrás de nós. Assim que descemos o último degrau, eu mesmo abro a porta para ela, que para por um instante. Ainda se mantendo de uma forma hesitante, eu não conseguia enxergar seu belo rosto, e sabia que estava o escondendo por minha culpa. Por tê-la magoado, e tirado novamente as lágrimas de si.
— Catarina, eu... — engulo as palavras, vendo no alto da escadaria da porta, ele aparecer... Heitor!
Ele tem alguns homens ao seu lado, um sorriso frio no canto de seus lábios, e também uma arma em seu punho, mesmo que a mantenha com o cano para baixo.
— A festa apenas começa, e você sai sem se despedir? — ele sussurra, Catarina se vira também para olhar.
Meus seguranças colocam as mãos em seus ternos, já preparados para alcançarem suas armas.
— Realmente aqui tem tudo que é lixo desse pais acumulado, achei que encontraria muitos corruptos, e confirmei ainda mais isso te vendo aqui!
— Vai se f***r, vim aqui te avisar de uma coisinha palhaço. — trinco meu maxilar de ódio, noto o olhar assustado de Catarina — Acha que enviaria aquele traficante de merda para me matar, e iria ficar por isso mesmo?
Ele ergue a arma, ponho Catarina rapidamente atrás de mim e puxo a minha da cintura. Meus seguranças e os dele miram uns aos outros, e sabia que sangue seria derramado bem aqui.
— Te disse que nos encontraríamos, e aqui Marco... você parece ter mais a perder do que eu! — ele se estica um pouco e olha além de mim, sabia que se referia a Catarina, me ponho ainda mais em sua mira enquanto grito:
— Olhe para mim, mire em mim, vá em frente e comece essa guerra... veremos quem terá mais a perder! — ele sorrir friamente, engatilho minha arma, sinto as mãos de Catarina apertar um pouco o tecido de meu terno, bem nas minhas costas.
— Vamos parar com essa merda! — Franco grita, enquanto sai pela porta juntamente a vários dos homens que estavam dentro daquele evento, todos com armas em punhos.
— Por mais que um pouco de sangue faça bem, não estou afim de sujeiras hoje. — ele lança apenas um olhar para Heitor, que trinca os dentes mas baixa sua arma.
Continuo com a minha erguida, assim como meus seguranças, já mirando exatamente no meio da testa daquele desgraçado, crendo que seu desafio a mim fora totalmente aceito, e que ou o meu sangue se derramará, ou o dele!
— Marco, aqui não. — Franco diz descendo alguns degraus, quando para, vira sua cabeça um pouco de lado, e eu tenho certeza que era para encontrar Catarina atrás de mim.
— Não quero estragar minha noite, aliás... tive uma dança que alegrara muito ela! — sentia as mãos dela tremerem, baixo minha arma e a guado.
Meus seguranças mantém a porta aberta, viro e ajudo ela a entrar. Apesar de seu olhar magoado estar lá, o susto dessa situação fazia com que todo seu pequeno corpo tremesse.
Fecho a porta e sem esperar mais dou a volta no veículo, mas antes de entrar pude vê o olhar frio e fuziante de Heitor em minha direção.
Lanço um olhar de fúria em sua direção também, logo em seguida abro a porta e entro no carro. Vejo meus seguranças irem rapidamente aos outros veículos, sem demorar praticamente nada a saírem cantando os pneus daquele lugar.
Respiro fundo e enquanto guardo a arma em meu coldre olho para meu lado, encontrando catarina com seus olhos fechados, seus lábios se mexem e ela sussurra algo baixo.
Fico confuso com aquilo, mas não interrompo. Não sabia ao certo o que fazia, se estava se controlando por raiva das minhas palavras de antes, ou se esperava que eu ouvisse o que estava dizendo.
— O que está falando? — ela abre os olhos, mas não vira seu rosto para me olhar — Ei, eu...
— Não quero falar com você. — me interrompe — Não agora! — com toda certeza ela estava com raiva de mim, e por um instante não quis estar no controle, ou ter a razão.
— Tudo bem. — mantenho meu olhar ao dela, que por sua vez, descansa a cabeça na janela do carro enquanto volta a fechar seus olhos.