Capítulo 27

1892 Palavras
CATARINA O silêncio cai sobre nós, sigo com os olhos fechados agradecendo a Deus por evitar aquela chacina qual pressenti que aconteceria. Aquele homem que encarava Marco tinha um ódio imenso em si, pude sentir em suas poucas palavras, assim como também em seu olhar quando me olhou. Ele atiraria em mim, atiraria e faria para apenas irritar Marco. Por um instante tudo pareceu bem claro, mesmo quando ele se pôs em minha frente, tomando a mira daquele homem, senti que aquilo fora apenas para irritá-lo. Minha vida continuara sem valor, e no caminho de Marco eu sentia que os outros absorveriam disso para alcançá-lo. Exatamente como aquele homem que dançou comigo, quis mencionar! Após abrir meus olhos e notar que já estávamos de volta a mansão não quis esperar muito, o carro m*l parou e logo fui abrindo a porta, saindo rapidamente e indo em direção a entrada. Em cada passo podia sentir os olhos dele em mim, sei que já estava fora do veículo e me olhando enquanto me afasto. Entro e sigo até a sala, ainda processando tudo que acaba de acontecer em apenas uma noite. Processando aquelas palavras que ele usou para mim, e ainda mais sentindo novamente as lágrimas embaçarem minha visão, tudo por saber que pode ter razão. Pode estar certo sobre minha mãe, sobre como tento criar uma figura forte de mim mesma e enxergar bondade, mesmo que não devesse. Em como suas palavras dolorosas para mim, fazem sentido e me machucam! — Catarina. — fecho meus olhos, uma lágrima sai deles. Ouço sua voz atrás de mim, mas não me viro para olhá-lo. Apenas me mantenho em frente aquela lareira, em pé no meio da sala, lidando com os pensamentos dolorosos e verdadeiros. — Disse que não queria conversar, respeitarei isso. — a voz estava cada vez mais próxima — Mas, o que te disse antes... — Você tem razão Marco. — digo e ele se cala, viro-me e o encaro — Tem razão quando afirma que sou mais fraca do que tento expor, de que estou em uma fossa imensa, e de que meu único sonho que restou... possa se tornar meu maior pesadelo se um dia o alcançá-lo! — Aquilo não era para ser dito, eu fiz isso e sei que te magoei. — Você usa suas palavras para me afastar, usa minha dor para cravar algo em meu peito. E é assim que alimenta esse lado obscuro que carrega! — digo e ele fica em silêncio, enxugo meu rosto enquanto dou um passo em sua direção. — Eu sou alguém quebrada, mas ainda carrego esperança comigo. E talvez essa seja a minha fraqueza, mas nunca mais te permito falar comigo daquela forma! Ele franze as sobrancelhas, seu olhar estuda cada reação minha. — Já fui muito quebrada, magoada e usada. Com muito sacrifício tento sair desse ciclo que me persegue, por isso não permito que se alimente dessa dor! — ele dá um passo em minha direção, e apesar de saber quanto estava exigindo de um homem c***l e rude como ele, não deixo o medo se apoderar de mim, apenas ergo minha cabeça. — Eu sinto muito, mas isso é oque eu sou. Um homem mau, alguém que vê tudo o que se aproxima de mim, se quebrar e ser corrompido com a minha escuridão. — fecho meus olhos, mais lágrimas escapam dele, mas dessa vez... sinto uma mão tocar e recolhe-las. — Mas pela primeira vez em muito tempo, me senti totalmente culpado por fazê-la se sentir dessa forma. Não me orgulho disso, e não quero vê-la assim! Finalmente algo que não fossem palavras ásperas estavam saindo da boca dele, ele parece realmente expressar algo em suas palavras, mesmo que seu rosto permaneça com aquele olhar frio, e a imensidão escura ainda o têm em volta. Pela primeira vez ele parece realmente expressar algo! Algo que não estava me machucando, ou fazendo criar dúvidas de mim mesma, da minha sanidade e limite de esperanças. Naquele momento eu senti em meu peito quebrado, senti que ele ainda tem algo dentro de si, algo além do monstro que alimenta sempre! — Posso te pedi uma coisa? — sussurro, me aproximando ainda mais dele, que estreita o olhar. — Sim. — Pode me dar um abraço? — as palavras parecem pegá-lo de surpresa, e um rápido traço de expressão passa em seu rosto. — Catarina... — Por favor! — o interrompo, noto como respira fundo. Sem esperar uma resposta, cuja sei que pode não vir. Vou em sua direção e passo meus braços em sua volta, ele enrijece com isso, mas logo sinto um de seus braços a minha volta. Diferente da primeira vez que o abracei, dessa ele se permitira corresponder, descansando seu queixo no topo de minha cabeça enquanto o aperto forte contra o meu corpo. — Obrigada. — sussurro, não conseguia olhá-lo nos olhos, mas dentro do meu peito sabia que ele tinha uma expressão em seu rosto agora mesmo, mesmo que fosse aquela raivosa, eu tinha certeza que alguma ocupava o local. — Se você me conhecesse de verdade, você fugiria de mim! — sua voz baixa afirma, não senti raiva nela, apenas... culpa! — Não tente me afastar de você, sei que carrega algo dentro de si... — faço uma pausa, erguendo meu rosto e encontrando os olhos dele — Não quero mais ter medo, se você quiser conversar sobre o que te machuca, saiba que estou aqui! Aquela expressão de raiva passa por um instante em seu olhar, ele respira fundo enquanto seu braço me puxa novamente para seu peito, me abraçando e apertando nele. Como se minhas palavras pela primeira vez estivessem ocupando sua mente, senti por um instante que não estava mais me confortando depois de tudo, senti que eu o estava confortando com minha presença, dando pela primeira vez uma gota de luz a Marco. Colocando algo de bom nesse vasto peito impenetrável, ou até mesmo, acendendo novamente a luz de sua alma! — Amanhã vamos para outro local seguro, e assim que chegarmos lá, prometo iniciar uma busca por sua mãe! — a lágrima que saiu fora totalmente involuntária, ela veio juntamente aquelas palavras que iluminaram o meu coração — Eu quero estar errado naquelas palavras que te disse mais cedo, você voltará a vê-la! — Obrigada por me falar isso! — digo o apertando ainda mais. — Não permito que nenhum mau te alcance, não mais! — meu queixo tremia enquanto aquelas palavras saiam de sua boca, afasto meu rosto e o olho novamente, sua expressão é séria enquanto me mantém pressionada ao seu corpo. — Talvez não reste alma dentro de mim, talvez o que vê aqui, em sua frente... seja apenas uma casca do mau que consumiu! — n**o com a cabeça. — Não diga isso, esperarei o momento certo para se abrir comigo. Eu vejo mais em você Marco, deveria enxergar isso também! No mesmo instante ele ergue a outra mão, seu polegar segura em meu queixo, alisando levemente e o tocando. Seu rosto fica mais próximo, e por mais que deveria ter medo de tal aproximação dele, ou qualquer outro homem, isso não aconteceu! Não sabia oque viria depois, mas não quis recuar ou me afastar, principalmente por este ser o mais próximo que vi de sua alma desde que cheguei aqui! O seu hálito banhava o meu rosto, a ponta de nosso nariz em um instante se toca, por mais que aquela aproximação estivesse me deixando confusa, permanecia sem afastá-lo, sem sentir o que tanto me deu náuseas e tremor por um homem, sem sentir aquele medo e sentimento de que serei usada e quebrada! Era errado isso? Errado após tudo, permitir que tal aproximação ainda fosse aceita por mim? — Você. — a voz dele é mais como um sussurro — Você é diferente de tudo em que já se aproximou de mim, e isso pode sair do meu controle, pode quebrá-la ainda mais Catarina! Aquelas palavras se chocam em mim, a pupila dos seus olhos estavam dilatadas, e mesmo em meio a pouca iluminação da sala, acreditei que ele avançaria, que daquela aproximação sairia algo a mais! Mas, Marco mesmo que com o olhar fixo em mim, parece se afastar mentalmente, seu olhar se torna vazio e oco por um momento, e quando volta... já não era mais sua alma que eu enxergava! — Descanse, sairemos bem cedo. Mandarei que algo seja servido para que se alimente! — o seu polegar se afasta de meu rosto, assim como gradualmente ele põe uma distância entre nós, antes de enfim virar e ir em direção ao corredor de baixo. Não demora muito para ouvir uma porta ser batida com força, fico parada no meio da sala ainda processando tudo. Ele abre uma brecha, sua alma fica visível. Mas, a escuridão simplesmente o engole de um momento ao outro! Eu sei que a algo que guarda para si, algo sombrio e que o consome de tal forma para ter essa figura obscura ao seu redor. Mas, ainda não fora totalmente perdido, por mais que não consiga vê eu enxergo os gestos, olhares e toques gentis, que carregam o que sobrou de sua bondade. Se Deus me colocou no caminho dele, deve haver um propósito. Ele disse que irá me ajudar a reencontrar minha casa, minha mãe. Mas isso não é tudo, talvez eu deva ajudá-lo a reencontrar o que lhe restou de bom, o que ainda pode carregar de humanidade dentro de seu corpo e sua alma! Aquela aproximação de agora pouco me deixa confusa, me faz pensar se ele me beijaria? Ele se aproximaria de mim dessa forma? E se por um instante foi isso que pareceu, porque eu não tremi? Porque apenas aguardei para vê até onde iria? Quando tais gestos vinham até mim antes, eu senti repulsa, ódio, nojo, dor, mas... e agora? O que deveria sentir em meio a isso? — Senhorita Catarina? — ouço a voz de uma das mulheres, me viro e vejo-a no fim do outro corredor que leva até a cozinha. — Ah, olá! — digo enquanto afasto meus pensamentos. — Me acompanhe, tem um jantar aqui te esperando. O Sr. Marco pediu que a acompanhasse, e só saísse de perto quando confirmasse que comeu tudo! Dou-lhe um sorriso de canto, enquanto começo a caminhar em sua direção em silêncio. Ela me olha com aquela curiosidade em seus olhos. — Então como foi o evento? — ela põe a mão em meu ombro, enquanto vamos juntas pelo corredor. Por mais que quisesse contar tudo, minha mente ainda estava presa no que acabara de acontecer, naquele evento, nessa sala, e no que pode acontecer a partir de hoje. Marco é frio, parecesse ser alguém mais rude do que transparece. Mas, ele também é alguém que precisa se encontrar, ele tem um passado, e preciso descobrir o que de tão r**m aconteceu, o consumiu, para se tornar quem é hoje! Mas antes, lhe mostrarei que Deus pode perdoar toda alma que assim desejar, que nenhum crime é impossível de se ter o perdão quando o arrependimento sincero alcança verdadeiramente o seu coração! Ainda existe fé, e embora muitos me julgasse infantil e burra por alimentar isso, sei que foi graças a ela que me mantive firme e de pé até hoje!
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