Marco
Até onde estaria disposto a ir com isso? Quão errado pode ser querer proteger, quando tudo que aprendi e fiz ao longo dessa vida fora destruir!
Foi o que me foi ensinado, e não por alguém. Mas sim por mim mesmo! Eu carrego coisas em mim, coisas e atos que me condenam à aquele conhecido "inferno" qual tantos temem. E ao contrário do que muitos pensam, eu não busco redenção. Não consigo implorar por ela!
Eu sou arruinado, e o que me resta é o calor do inferno!
Entretanto, eu me negaria a cair nele e deixá-la aqui, a mercê de qualquer um que queira feri-la novamente. Catarina vêm se aproximando, e isso é completamente errado. Eu sei!
Mas, após mostrar minha verdadeira face inúmeras vezes, ela ainda persiste nisso. Em me deixar sem meu conhecido controle sob tudo, em não reconhecer tais gestos.
Será apenas por estar presa a mim? Será que não haver outra saída, esteja influenciando sua mente?
Ou será verdade o que me disse, que sente algo por mim? Um monstro, um demônio, alguém que deveria apenas querer distância, o que realmente pode estar acontecendo?
O carro para em frente a um campo, o local era afastado da capital da cidade. Um local qual também me pertencia, e desde que havia recebido juntamente ao pagamento de uma das minhas negociações... só imaginei ela aqui!
Em meio a tranquilidade que esse lugar carrega, e ainda mais por ter um enorme campo florido!
— Chegamos? — pergunta enquanto a ajudo, tirando seu cinto de segurança.
— Sim. — respondo, ela deixa aquele sorriso animado escapar de seus lábios, logo em seguida olha pela janela do nosso carro.
— É uma fazenda?
— Acredito que os antigos proprietários tinham uma aqui! — digo enquanto me estico e abro a porta do lado dela, que me olha no mesmo instante, deixando seu hálito doce banhar o meu pescoço.
— Vamos, quero te mostrar uma coisa!
No mesmo segundo ela concorda com a cabeça, logo vai saindo lentamente do veículo. Saio em seguida e ela sem esperar segura em minha mão, olho aquele gesto com minhas sobrancelhas um pouco franzidas, mas logo ela diz:
— Meu Deus! Aqui é enorme! — seu olhar estava ao redor do local, como se aquele gesto de agora pouco não fosse algo incomum.
— Quer conhecer o restante? — pergunto enquanto dissipo meus pensamentos, não posso deixar de manter o controle... ao menos o pouco que parece me restar!
— Com toda certeza quero! — sua mão aperta a minha um pouco, começamos a nos aproximar da grande mansão no centro daquele lugar, e percebo que Catarina continua com aquele sorriso despreocupado.
— Aqui é tão lindo... — sussurra.
— Tem uma parte que provavelmente irá achar mais! — ela traz seu olhar até os meus.
— É mesmo? — assenti ela continua com aquele sorriso largo nos lábios.
Seguimos pelo local em passos lentos, Catarina em diversos momentos apertava minha mão, principalmente quando via algo que achava bonito. Ela ainda não imaginava a real razão de tê-la trazido aqui, mas pelo brilho e sorriso que carrega em seu rosto, isso já estava funcionando!
— Marco... — sussurra, quando enfim chegamos ao fundo desse lugar.
Onde também estava o que eu, Marco Hernandes pela primeira vez me via fazendo um gesto que não fosse para causar algum m*l!
— Achei que gostaria daqui! — ela solta minha mão, paro de caminhar enquanto observo-a ir em direção ao campo de flores, onde também tinha uma lagoa grande e uma parte de recreação.
Uma grande árvore tinha um balanço, e não muito longe alguns brinquedos deixados pelos antigos proprietários!
— É... lindo! — ouço-a sussurrar, se abaixando um pouco e pegando uma das rosas, logo leva ao seu rosto e noto como respira fundo.
— Eu realmente amei! — vira-se e me olha enquanto diz.
— Que bom que gostou! — ela começa a voltar em minha direção, trazendo em sua mão aquela rosa.
— Você... esse lugar...
— Foi aderido por mim em uma das minhas negociações do trabalho, não é exatamente algo que eu aceite sempre. — interrompo-a, ela ergue uma sobrancelha.
— E por que fez isso agora?
Respiro fundo ficando em silêncio por um momento, ergo uma mão e coloco uma mecha do seu cabelo atrás de sua orelha. Ela mantém seus olhos brilhantes aos meus, e quis muito beijar seus lábios ao invés de ter que responder isso. Principalmente pelo fato de não saber me expressar de uma forma boa em palavras!
Entretanto, aquele olhar e rosto angelical à minha frente... era inevitável escapar de uma resposta!
— Porque pensei em você. — noto ela engolir em seco — Pensei em você nesse lugar Catarina!
Em resposta ela ergue a outra mão, aproximando-a de meu rosto e logo acariciando um lado dele. A outra pressiona aquela flor em seu peito, mesmo embaixo de seu vestido azul-escuro, conseguia notar sua respiração ofegante, assim como senti seus batimentos acelerados.
— Eu amei esse lugar Marco, e mais ainda por saber que quando seus olhos o avistaram você pensou em mim! — baixo um pouco meu rosto, o suficiente apenas para deixar nossos rostos a poucos centímetros.
Catarina fica na ponta dos pés, trazendo-me o que eu desejava desde o momento que acordei ao seu lado essa manhã.
Seus lábios doces pousam aos meus, passo meu braço em volta de sua cintura a erguendo um pouco do gramado. Minha língua desejava o seu sabor, e quando encontrei a sua... envolvi elas lentamente!
Ela suspira enquanto faço, e sua mão desliza lentamente pela minha nuca se prendendo em meus fios, me arrancando alguns rosnados.
Mas, logo nos afastamos aos poucos, queria que ela se sentisse bem, principalmente após o acontecido de ontem a noite.
E essa é a maior razão disso, de até mesmo um homem como eu... tentar fazer algo do que se parecesse bom!
Ao nos afastarmos ela ofega um pouco, lentamente vou colocando-a no chão. Ao abrir meus olhos, vejo fazer o mesmo com um sorriso de canto.
Ela era a única nisso, em sair da escuridão e quando me encontrava não demonstrava medo, receio, angustia, apenas me dava esse lindo sorriso em resposta!
— Segura ela para mim? — me oferece aquela rosa, hesito, mas ela pega minha mão e entrega.
— Posso? — acena com a cabeça em direção ao local atrás de si, concordo com a minha embora estivesse ainda processando algumas coisas... essa rosa em minha mão, por exemplo!
— Sim, não precisa me pedir permissão. — dou um beijo no topo de sua cabeça e ao me afastar completo — Nunca precisa!
— Tá bom! — ela sorrir, em seguida vira-se de costas e ergue um pouco a bainha do seu vestido com as mãos, tirando suas sandálias rasteiras e logo correndo em direção ao campo florido.
Via aquela cena satisfeito, principalmente por vê-la espontânea e completamente alegre. Ela corre e para no meio do lugar, ajoelhando-se e tocando mais as flores a sua volta. Quando olha por cima do seu ombro, aquele belo sorriso está entregue em minha direção.
Um de canto nos meus lábios se formou, mas... logo foi sumindo lentamente!
Que tipo de homem eu sou?
Embora eu tenha feito isso hoje, e vê o sorriso satisfeito dela me causou e causa algo é completamente impossível negar.
Esse ato não muda o passado, não muda ao que hoje... me condena completamente!
Que tipo de homem eu sou?
Algumas horas depois
Seguro as sandálias dela e aquela flor em minha mão, observando-a um pouco mais de longe, um dos empregados desse local está a minha frente, falando e me informando alguns detalhes dessa propriedade.
Mas, não ouvia nenhuma palavra. Meus olhos, mente e ouvidos estavam nela... Catarina!
Ela estava sentada no gramado à beira do rio, seus pés molhavam no lago, e sua cabeça descansa em um lado de seu ombro, enquanto parecia totalmente pensativa!
— Os animais e plantações estão em ótimo estado, podemos prosseguir com eles? — desvio meu olhar de volta ao homem, ele me olhava enquanto segura uma planilha em sua mão.
— Sim, continuem com o trabalho de vocês neste lugar. — digo e percebo ele se alegrar com minha resposta — O pagamento será depositado certamente, quero apenas que mantenham tudo como já fazem!
— Faremos isso! — ele estende uma mão para me cumprimentar, apenas olho enquanto seu olhar desce ao meu coldre. — É... — gagueja abaixando a mão — Preparamos o jantar como o senhor solicitou!
— Ótimo, já iremos entrar! — ele assente, rapidamente se vira e sai.
Pego um cigarro no meu bolso e o acendo, meus seguranças estão espalhados pela propriedade desde que chegamos, embora eu tenha informado para que manteassem uma certa distância.
Queria apenas que ela se sentisse bem, e tenho certeza que a vigilância que já havia a sua volta não prospera para isso.
Enquanto sopro longe a fumaça volto a olhá-la, ela continua na mesma posição, e não precisei de muito para saber como está pensativa!
Meu olhar novamente vai aos objetos em minha mão, começo a me aproximar lentamente dela em seguida, passando pelo local e parando bem ao seu lado.
Ela olhava para frente, mas aquele sorriso que tanto queria vê não está aqui, em seu belo rosto. Na verdade, ela estava completamente séria, e seus olhos azuis... estavam completamente distantes!
— Vamos comer algo. — digo me abaixando, ela não vira para me olhar, como se não me ouvisse.
Descarto aquele cigarro jogando-o longe, coloco os outros objetos ao meu lado.
— Ei... — toco o seu ombro, só então ela pisca algumas vezes, virando seu rosto e me olhando.
— Eu... me distrai um pouco... — gagueja, ergo uma sobrancelha.
— Você está bem? — ela desvia o olhar de volta a paisagem, enquanto respira fundo.
— Sim, esse lugar me fez muito bem!
— Têm certeza? — ela volta a me olhar, e enfim aquele sorriso que quero, ressurge!
— Sim, estou bem! — concordo com a cabeça.
— Vamos comer algo, pedi que fizessem algo! — me ergo e estendo uma mão, ela logo pega e ajudo-a a se levantar.
— Vamos ficar aqui? — pergunta enquanto calça seus pés, pego aquela rosa que havia me entregado e concordo com a cabeça.
— Aqui ainda não é exatamente um local qual eu estabeleça como seguro para isso. — digo enquanto caminho, ela entrelaça a mão no meu antebraço enquanto me acompanha.
— Mas, sim... ficaremos aqui por hoje! Meus seguranças estão aqui, e alertas caso algo ou alguém de fora tentar se aproximar!
— Entendi!
Caminhamos juntos e logo entramos na casa principal, era aconchegante e em um modelo meio antigo, mas isso não escondia como era bem construída e grande!
— Deus, que cheiro maravilhoso! — sussurra.
— Achei que estaria com fome, ficou muito tempo no lago! — olho pra ela por um momento, apenas para vê seu olhar em tentar conter seus pensamentos, antes que dissesse algo o senhor que falava comigo agora pouco, e mais alguns empregados estavam bema nossa frente, ao lado de uma enorme mesa com um banquete servido.
— Bem vindos! — o homem afirma baixo, os outros concordam com a cabeça.
Catarina olha tudo atenta, continuo caminhando com ela e logo ajudo-a a se sentar em um dos lugares, me sento ao seu lado e enquanto algumas pessoas serviam nossas taças ela me olha.
— Está tudo bem, eles trabalham aqui.
— Não é isso, é que não havia visto nenhum deles quando chegamos. — sussurra.
— Estavam na casa, nos dariam privacidade na nossa primeira chegada no nossa casa nova! — ela sorrir de canto enquanto me olha, não entendia o porque, mas só então assimilei as minhas palavras.
Entretanto, não mudei o que disse, apenas pego a taça à minha frente e bebo um pouco do vinho nela.
— O cheiro está ótimo, obrigado! — ela anuncia e as pessoas sorriem, logo eles saem e nos deixam á sos.
— Eu não sei você... — sussurra enquanto alcança uma faca e corta uma grande fatia de torta salgada — Mas eu estou completamente perdida de fome!
— Isso é bom, fique à vontade! — ela assente, pegando mais um pedaço da torta e algumas outras comidas na mesa, colocando-as em seu prato e comendo sem se preocupar.
Em inúmeros momentos via ela fechando seus olhos, satisfeita e sorrindo com os lábios fechados, provavelmente ao se deliciar com a comida.
Olho-a atentamente, me vendo novamente com aquilo em minha cabeça, em como eu após tudo posso carregar essa vontade de impedir que o m*l possa alcançá-la novamente. Um homem como eu, um que se tornou o causador de tantas dores... estava pela primeira vez ao mais próximo que senti da famosa paz!
Aquela de saber que se alguma coisa, ou alguém que queira tocá-la terá que passar por mim.
E isso... não é algo tão simples de se acontecer!
Ela nota meu olhar, cortando dessa vez uma fatia e colocando-a sob meu prato, o qual não tinha nada e eu não tinha inteção de pôr nada!
Logo ela estreita o olhar, parando de comer e empurrando o talher levemente em minha direção.... Ah Catarina, só você mesma para fazer tal coisa!
Nego com a cabeça e ela cruza os braços em silêncio, então pego o talher e apanho um pouco da comida. Ela sorrir satisfeita, não desvio meu olhar em nenhum momento!
— Você vai ser a mandona então? — ela sorri com minhas palavras, enquanto volta a comer.
— Sim, vou cuidar de você por bem ou por m*l! — a comida trava um pouco ao ouvir isso, ela parece ter dito de uma forma tão expontânea que não se importou, ou mostrou arrependimento por suas palavras.
Engulo a comida, e pego mais um pouco. Só então ouço um bipe, era o celular em meu bolso!
Deixo o talher e o alcanço, olho a tela ainda bloqueada e vejo ser uma mensagem do médico:
¨ Sr. Hernandes, desculpe a demora em retonar. Estou com os resultados dos exames, poderia entregá-los amanhã mesmo se o senhor preferir!
Tomei a liberdade de vasculhar em nosso banco de dados como me solicitou, encontrei um DNA compatível. Provavelmente encontrei os da mãe dela, aguardo o seu retorno e segundas ordens!¨
Bloqueio a tela e guardo o aparelho, ainda não queria processar isso. A realidade era que eu começava a me negar, que assim que tudo isso acabar, ela estará livre... isso incluía livre de mim!
Eu quero que ela possa seguir seu caminho, que reencontre sua mãe após tudo. Mas, realmente quero que ela fique longe de mim?
Longe e livre do perigo que carrego comigo?
Sim! Séria a resposta correta. Entretanto, a que me vêm a mente é... Não!
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Estamos no quarto principal desse lugar, já se passavam das 23 horas da noite. Catarina está deitada sobre meu peito, sua imensidão azul brilhante mira em minha direção enquanto ela contorna o meu queixo com seu polegar. Minha mão também está entrelaçada em seu cabelo, acariciando lentamente enquanto nos olhavámos em silêncio.
Ela parecia pensativa como eu, mas cada dia que passava aquele medo que um dia vi em seus olhos, estava se dissipando!
— Obrigado pro ter me trazido aqui Marco! — ela sussurra, deposito rapidamente um beijo em seu lábio inferior.
— Queria que você se sentisse bem, mesmo com tudo que possa estar ainda na sua mente! — digo deslizando minha mão até sua nuca, ela estremesse.
— Isso funcionou completamente!
— Que bom! — ela sorrir largamente.
Eu estava sem camisa, e agora seus dedos contornavam algumas das minhas tatuagens no meu peito. Ela por outro lado, não quis retirar o seu vestido ou vestir minha camiseta.
Ofereci deixá-la a sós para se trocar, mas não quis insistir quando ela negou e disse que estava bem assim!
Entretanto, quando ela me beija levemente nos lábios meus dedos que estavam em sua nuca desce um pouco por dentro do tecido, e ela... no mesmo segundo se afasta!
Seu olhar estava aos meus, e seus lábios em uma curta distância.
— Não iria tentar nada, pode ficar tranquila. — afirmo, noto ela engolir em seco.
— Não é isso, eu... apenas... — gagueja.
— Está tudo bem, vou ter mais cuidado! — dou um beijo demorado em sua testa, ela no mesmo segundo relaxa e volta a deitar sobre meu peito.
Mantenho minha boca pressionada em seu rosto, enquanto vejo ela lentamente ir fechando seus olhos.
Eu sei que ela tem seus motivos e traumas, não quero que pense que quero usá-la. Na verdade, sua boca já vem nutrindo algo que nem mesmo acreditei que tinha em mim.
Sei que as barreiras criadas a sua volta são sua proteção, e isso... eu nunca forçaria que baixasse!
Enquanto a sua respiração se torna mais pesada gradualmente, a tela do meu celular na cabeçeira ao lado se acende e chama minha atenção. Estico um pouco meu braço para alcançá-lo, pego e novamente uma mensagem chega na tela, dessa vez do meu chefe de segurança:
¨ Sr. Hernandes recebemos uma informação do paradeiro de Heitor, devemos atacar? ¨
Li tudo e meus sentidos se alertaram, aquele desgraçado ainda vai pagar, mas... eu tenho que estar presente nisso!
Desbloqueio e rapidamente abro a caixa de mensagem, digitando e enviando uma resposta:
¨ Nós vamos atacar, estou indo! ¨