Capítulo 16

1974 Palavras
Marco Ando tranquilamente em direção de minha casa, minha mochila está pesada em minhas costas, mas é normal já que hoje recebi inúmeros livros novos da minha professora. Fico animado em mostrar aquilo para minha mãe, ela vai pensar que sou um bom menino, um estudante de verdade. Talvez isso dê uma alegria a ela, talvez ela enfim reaja já que anda triste há um bom tempo. Abro a porta e entro em casa, sinto o odor de fumo e as garrafas vazias em cima da mesa afirma o inevitável. — Você chegou, estava te esperando Marco. — ela anuncia se levantando do grande sofá — Por que demorou tanto? — Eu... a professora pediu que eu ficasse até mais tarde! — ela faz uma careta, ficando com uma expressão totalmente furiosa — Ela queria me dá isso mamãe... — coloco minha mochila no chão, mas antes que pudesse abri-la ela diz: — Vá para o seu quarto, já disse que não quero você se aproximando de ninguém, não disse? — sua voz é raivosa, um cigarro queima na ponta de seus dedos. — Sim, mas... — antes que pudesse falar algo, meu rosto queima com o forte tapa que ela defere. Caio ao chão enquanto coloco a mão no local, meus olhos queimam com o peso das lágrimas, mas sem expressar sentimento algum ela apenas sussurra: — Vá para o seu quarto agora! — sem esperar mais me levanto e corro em direção a escadaria. Passei o restante do dia chorando, me culpando por deixar ela esperando, e me culpando por não entender que minha mãe se sente só. Meu pai morrera naquela guerra há algumas semanas, e desde então ela convive com uma dor maior que poderia aguentar. Por mais que isso me deixasse em fúria, principalmente quando ela me batia, algo que não acontecia antes. Tento entender seus motivos, aliás eu também estou sofrendo desde aquela notícia. Ela é minha mãe, e mesmo tendo apenas 8 anos, preciso ser forte e confortá-la. Meu pai iria querer isso! — Filho? Está acordado? — ouço-a sussurrando, enquanto abre a porta de meu quarto e entra. — Sim, mãe! — levanto-me e olho em sua direção. Ela se aproxima, depois se ajoelha no chão enquanto me olha. — Eu não queria fazer aquilo com você, mas quero que saiba que não consegui imaginar você conversando com sua professora... — Por que mãe? Ela é boa para mim, me ensina as coisas... — paro de falar quando noto sua mão apertando o lençol, ela parece não gostar do que eu afirmo. — Marco, eu sou boa para você. Também tem muito que posso te ensinar. — os olhos dela estavam estranhos, não entendo muito daquelas palavras, mas sem esperar mais a abraço fortemente. — Mãe, estou com você. Não precisa sentir medo... — sussurro apertando ainda mais ela em meus braços. — Você é meu, promete que nada irá nos separar? — concordo com a cabeça. — Eu prometo mamãe! Ouço a melodia fraca de sua risada, sentia as lágrimas dela molhando o meu pescoço. Dou um beijo em sua testa, sentindo sua mão deslizando pela minha coxa, logo antes de me levar pela cintura ao seu colo. Afasto um pouco o meu rosto encontrando o dela, que mira nitidamente em meu rosto. A ligação que eu pensava que a dor da perda iria causar, ia terminar ali. Naquele dia em diante decidi que viveria junto dela, cuidando e atendendo sua dor. Eu preciso dela, e ela de mim... para sempre! ━━━━━━━》❈《 ━━━━━━━ Abro meus olhos rapidamente, o solavanco do carro me alerta. Mas, antes que eu percebesse já estava com o dedo no gatilho da arma que tinha em mãos, solto no mesmo segundo antes que ela disparasse. Em seguida respiro fundo afastando aquelas coisas de minha mente, afastando as lembranças do passado, o qual eu já deveria ter deixado para trás, mas... é algo totalmente impossível! Ainda mais que aquilo está entranhado em mim, na minha infância! — Chegamos chefe! — meu motorista anuncia enquanto desliga o carro, olho pela janela vendo que chegamos na mansão de Dante. — Avise aos outros, mesmas ordens! — ele assente enquanto me olha pelo retrovisor, sabendo que as ordens eram para matar caso houvesse qualquer atitude suspeita. Desço do meu carro e acendo um cigarro, olho para a mansão em silêncio, apenas contando quantos dos deles tem espalhados pelo local. Havia muitos, mas não tão bem treinados quanto os meus, isso era completamente nítido pela posição que seguram suas armas. — Sr. Hernandes? — um dos empregados anuncia enquanto sai pela porta. — Exatamente. — ele concorda com a cabeça, não deixo de notar algumas garotas que passam pelo fundo da casa, todas com roupas minúsculas, fora as garrafas de bebidas em suas mãos. — O Sr. Soares teve um rápido imprevisto, mas já está retornando... — ergo uma sobrancelha, vendo que isso não estava nos meus planos e aquele filho da p**a não havia comunicado nada — Ele pediu que aguardasse em seu escritório, irei servir uma bebida! Não pude evitar de mostrar minha indignação em meio a tudo aquilo, lanço o cigarro longe ainda decidindo o que farei. Essa negociação era totalmente importante, mas parece que esses brasileiros têm um tipo de problema, quase todo acordo parecem estar de brincadeira comigo. — Chefe, esperamos sua ordem. — meu segurança afirma ao meu lado. — Vamos entrar, se ele demorar mais que 10 minutos matarei um homem em cada minuto. — meu segurança me lança um sorriso frio, logo me viro para o homem e concordo com a cabeça. Ele nos acompanha até dentro do lugar, era bem luxuoso e enquanto subimos as grandes escadarias meus seguranças também se separam, cobrindo rapidamente toda a mansão. O homem me leva até um longo corredor no terceiro andar, em meio a algumas portas ele abre uma. Revelando um grande escritório! Entro e rapidamente ele serve um uísque para mim, quando estava prestes a me dizer algo uma empregada mais velha entra com os olhos ao chão, se aproximando dele com cautela. — Ela está pronta, protestou bastante. Mas conseguimos arrumá-la! — ela sussurra em português, mas consigo entender claramente enquanto bebo o líquido. — Ótimo, Sr. Hernandes deixarei a sós. Logo o Sr. Dante chegará, qualquer coisa é só chamar! — não o respondo, ele logo sai. Dois dos meus ficam na porta da sala, me olhando atentamente. Ando até a janela do lugar enquanto respiro fundo, sentindo algo profundo dentro de mim se alertar. Algo totalmente sombrio, possivelmente essas coisas já me acompanhem. Coisas ruins! Aprendi desde muito cedo que essa seria a minha realidade, viver com o ódio, dor, e carregando um inferno na alma... se é que ainda tenho uma depois de tudo que já fiz! — Desgraçado, me fazendo esperar... brasileiro imundo! — xingo enquanto viro todo aquele líquido em meu copo, logo em seguida arremesso ele longe, vendo-o quebrar em diversos pedaços ao se chocar na parede. — Vamos te acompanhar chefe. — meu segurança afirma, enquanto vê eu me aproximando da porta. — Não é preciso, eu já volto. — ele concorda com a cabeça, passo pela saída e sigo pelo corredor. Enquanto ando por ele me vejo novamente com a repulsa do meu passado, era uma péssima hora para esses pensamentos estarem me alcançando. Mas, como das outras vezes... eu não controlava isso! Não controlava quando ou onde estaria cada vez que as minhas memórias viessem, não controlava o meu lado demoníaco e doentio entranhado em minhas veias! — Droga!!! — meus pensamentos se afastam ao ouvir alguém protestar em um dos andares abaixo, a voz se parecia daquela mulher que agora pouco esteve no escritório. Aproximo-me do corre mão da escadaria, vendo algumas mulheres correrem de um lado ao outro, meus seguranças não se movem, significa que seja o que for, não é uma ameaça para minha segurança nesse lugar. Respiro fundo e enfio a mão no bolso de meu terno, procurando um cigarro nele. Assim que encontro decido voltar aquela maldita sala de escritório. Mas, no mesmo corredor perto da grande janela de vidro no fim dele uma garota chama minha atenção. Ela está de costas para mim, seu cabelo é longo e n***o, em seu corpo pequeno está um vestido rosa justo, na altura dos joelhos. Franzi minhas sobrancelhas vendo ela ficar na ponta dos pés, tentando alcançar o trinco alto da janela, e assim que consegue abre-a em um só impulso. Começo a me aproximar silenciosamente, vendo-a agora subir e se apoiar bem na beira do lugar. Poderia estar entendendo errado, algo que duvido muito. Mas, essa garota realmente parecia que iria pular. Confirmo esse pensamento ao vê-la soltando a mão esquerda lentamente, mantendo-se apoiada apenas com a direita e na ponta dos calcanhares. — Eu sinto muito, não posso aguentar isso novamente... — ouço-a sussurrar rapidamente, ela não falava completamente português, o que me intriga ainda mais. Decido então me aproximar um pouco mais, guardando aquele cigarro que iria acender e por fim sussurro: — Vai realmente pular? — ela se assusta, e quase quando ia cair seguro em sua cintura. — Não... me solte... — ela protesta, assim que noto que suas mãos estão de volta a grade de apoio solto seu corpo. — Eu vou pular, não se aproxime de mim seu desgraçado. Franzi minhas sobrancelhas, ela tinha um sotaque forte. Mas, o que mais me chamava atenção era o seu pânico, era como se realmente estivesse temendo minha aproximação, mesmo sem nem me vê. Já que se mantêm de costas, e seu longo cabelo também não deixa seu rosto visível para mim. — Eu não queria te assustar, apenas te fiz uma pergunta. — ela treme, isso era nítido. — Você me sequestrou, acha que tem esse direito? — continuo com a sobrancelha franzida, começando enfim a assimilar tudo — Se pensa que vai me usar está enganado, eu prefiro morrer! — Então está fazendo isso errado. — ela por um instante enrijece. — A queda não vai te matar, apenas machucar de uma forma bem dolorosa. — Como sabe? — me estico um pouco, confirmando o que imaginava ter lá embaixo. — A grama está alta, o suficiente para amortecer a sua queda. Não vai conseguir sua morte assim! — quando termino noto que recua um pouco da janela. — Eu... eu poderia tentar mesmo assim, então não se aproxime Dante! — enfio a mão novamente em meu bolso, pegando aquele cigarro e o acendendo sem esperar mais. — Não me confunda com aquele desgraçado, parece que o odeio em um nível bem parecido ao seu! — ela recua ainda mais, descendo do alto daquela janela e respirando fundo. Dou um forte trago no cigarro enquanto ela gira seus calcanhares lentamente, até então estar completamente frente à frente comigo. Revelando seu rosto e acendendo uma lembrança no meu subconsciente, deixando claro que novamente aquele rosto que tanto se manteve em minha mente por anos, voltaria a me fisgar como uma forte revelação renascida. Era ela, era aquela garota que vi há alguns anos. Bem diante de mim, bem a minha frente me olhando com seus olhos azuis molhados, com aquela mesma expressão que por tanto tempo se prendeu em mim. Quando acreditei que aquilo enfim havia passado, ela aparece diante de mim. Suas sobrancelhas se franzem como as minhas, parecendo que tinha a mesma reação que a minha, tendo aquelas lembranças novamente em sua mente. Era ela, estava um pouco diferente, afirmo isso. Mas, eu não tenho dúvidas... É ela! — Você... — ela sussurra baixo, sendo quase inaudível. No mesmo instante ouço passos se aproximando atrás de mim, mas não conseguia desviar meus olhos dela, ainda demorando a acreditar que novamente essa garota entrara em meu caminho!
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