Catarina
Olho pela janela do quarto, apesar das grades por fora do vidro a vista ainda era bem nítida. Via inúmeros homens altamente armados, alguns conversavam enquanto outros fumam um pouco mais distante. Era visível a quantidade de carros estacionados também, e eu poderia imaginar a quem eles pertenciam.
Ainda não sabia seu primeiro nome, apenas que o chamaram de Hernandes. Ele estava aqui, ele me vira novamente, ele novamente estava em meu caminho. Mas, quando ele me viu há alguns anos, apenas ignorou a cena que via. Eu estava sendo arrastada e novamente condenada, e ele? Ele apenas olhou tudo, e fora embora!
Suponho que isso deixa claro que ele não é alguém que ofereceria refúgio, não seria alguém tão diferente dos homens os quais me trouxeram aqui. Talvez ele não se importe, ou apenas esteja ocupado demais com sua própria vida, para se importar com qualquer outra coisa ao redor!
Mas, dentro de mim algo se encheu de esperanças, principalmente quando naquele pouco gesto, o qual salvou a minha vida, me traria tanta força para continuar. Eu pela primeira vez em tantos anos, senti algo totalmente diferente. Senti algo que achei impossível depois de tantos anos, senti que estava segura, enquanto aqueles braços a minha volta me impediam de cometer um grande erro. De tirar a minha vida!
TOC TOC
Ouço uma batida na porta, rapidamente me afasto da janela e vou para um canto do quarto. Pegando um abajur que tinha em cima de uma mesa, o segurando firmemente em minhas mãos.
Olho atentamente vendo aquele homem entrar, ele estava com a mulher aquela mulher rude, e mais um dos seus seguranças.
— Não irá precisar disso, parece que sua estadia aqui será mais curta do que eu queria. — afirma, franzi minhas sobrancelhas confusa com aquilo — Venha, tem um carro te esperando!
Ele simplesmente vira-se e sai, não sabia se o que dizia era verdade, mas quando os outros o acompanham e deixam a porta aberta decidi não esperar para que mude de ideia.
Ainda segurando aquele abajur começo a andar rapidamente, eles estão bem mais a frente. Apresso os meus passos para poder acompanhá-los, logo já estou ao lado de fora. Fico espantada ao realmente afirma que um segurança está me aguardando, segurando a porta de um dos carros a frente aberta para mim.
— Se quiser voltar, saiba que estarei aqui te esperando branquinha! — ouço aquele desgraçado sussurrar enquanto me olha, trinco meus dentes e sem esperar mais começo a me aproximar do carro, mas me lembro de algo:
— Minhas coisas, quero de volta! — ele ergue uma sobrancelha — Quero o que roubou de mim, agora! — por mais que meus sentidos me alertassem, não pude deixar de protestar querendo o que era meu.
— Não precisará disso, tenho certeza...
— Não importa, são minhas e quero de volta! — ele estala um dedo, um dos seguranças sai de dentro da casa com minha bolsa em mãos, ele vem em minha direção e me entrega.
— Boa sorte, talvez precise realmente! — seu tom era sarcástico, mas não me importei com aquilo, apenas me virei e sem nem hesitar entrei naquele carro.
O homem fecha a porta e enquanto olho pela janela vejo o sorriso cínico dele, quando o carro começa a se mover me senti que poderia enfim respirar, baixo meus olhos e começo a revirar minha bolsa, vendo que boa parte do dinheiro que estava dentro havia sumido. Isso sem contar nas coisas pessoais que também não estavam mais.
Tinha agora apenas alguns documentos falsos, uma certa quantia em dinheiro e por sorte o terço de meu pai!
— Aquele desgraçado... — sussurro — Pode me levar até o aeroporto? Pagarei um bom valor para me levar até lá!
O motorista não responde, então começo a pensar em algo:
Qual a probabilidade de Dante ter me deixado partir tão pacificamente? Qual a razão de não ter hesitado? E aquele homem que eu vira lá?
Confirmando o meu pensamento sinto que não estava só no grande veículo, senti que alguém me olhava, e quando levanto meus olhos lentamente o vejo sentado no banco a minha frente.
Ele segura um copo de bebida, mas seus olhos estão presos nos meus, fitando-me enquanto uma expressão indecifrável ocupava sua face.
— Aeroporto, me diga Catarina. Aonde deseja ir realmente, e de quem está fugindo? — engulo em seco, a voz dele é grave e totalmente sombria, me dando um longo arrepio que cobre o meu corpo.
— Você me tirou de lá? — ele ergue uma sobrancelha — Você fez com que ele me libertasse?
Ele não responde, apenas vira o líquido do seu copo em um único gole. Aperto minha bolsa contra meu colo, me vendo nervosa e sem saber o que esperar desse homem a minha frente.
— Vou refazer a pergunta, de quem está fugindo? De Vicent? — apenas de ouvir aquele nome estremeço, ele parece notar isso. — Então é verdade, você é a garota que novamente decidiu entrar em meu caminho.
— Decidi? Não! — logo interrompo — Nunca imaginei que o viria novamente, principalmente após tanto tempo.
— Mas aqui estamos nós, novamente com os caminhos se cruzando. — concordo com a cabeça.
— Então foi para isso que me tirou de lá? Para me tratar como aqueles desgraçados, me deixando novamente a mercê de alguém... — meus olhos ardem e o desvio dele — Ou provavelmente está apenas me levando para Vicent!
— Em algum momento te forcei a entrar nesse carro? Está vendo cordas em volta dos seus pulsos? — volto a olhá-lo enquanto enxugo as lágrimas que caem — Não trabalho para aquele porco, para ninguém, na verdade!
Minha mente acredita nas suas palavras, mesmo que era para eu ter mais cautela ainda, aquelas palavras dele realmente me dão um pouco de paz. Não sei por qual motivo simplesmente acredito no que diz, mas de certa forma eu estava tão cansada de tanta dor, que a menor hipótese de um minuto de paz era mais que bem-vinda!
— Então... — respiro fundo — Então por que me tirou de lá?
Por um instante ele mostra um tipo de expressão, embora sua face permaneça um tanto inflexível, ele franze as sobrancelhas parecendo confuso. Mas isso não dura muito tempo, logo o olhar sombrio toma o lugar enquanto ele se estica no banco alcançando a garrafa no frigobar no carro. Enquanto enche seu copo, e como vi que não me responderia, decido então continuar:
— Seja como for, obrigado. — ele para de encher o seu copo, paralisando com minhas palavras — Obrigado por me tirar daquele lugar!
Ele não responde, apenas mostra uma expressão de ódio. Como se eu tivesse xingado ele, ou até mesmo o tivesse ofendido.
Logo ele vira aquele copo, e após engolir o líquido vira um pouco o rosto de lado, olhando para o seu motorista:
— Para o aeroporto!
— Sim, chefe! — o homem responde.
— Vai mesmo me deixar lá? — pergunto e ele volta a me olhar.
— Sim, seja de quem está fugindo. Ou para onde está indo, poderá fazer isso agora! — seu olhar novamente se mostra sombrio para mim, brilhando em meio aquela pouca iluminação de dentro do carro.
Respiro fundo e tento desviar meus olhos, mas era algo totalmente inútil. Era como se eu precisasse olhá-lo, pode ser o medo da escuridão que aquele homem carrega em seu olhar, ou pode ser apenas pelo fato de estar em um ambiente tão pequeno quanto desse veículo, eu não sabia nada sobre esse Sr. Hernandes. Mas, imaginava ser alguém poderoso e muito perigoso!
Meus sentidos se mantém em alerta, em um momento até mesmo pensando o que seria de mim se esse homem simplesmente decidisse me matar, aqui, agora!
Não acredito que faria isso, mas também não duvidaria. Vi de perto o nível da maldade do homem, e por mais que ainda tento me manter firme. Sei que a confiança é algo que pode causar sua morte!
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Consigo notar que carros estão nos escoltando, assim também como a todo momento os seguranças se comunicam pelo rádio mudando a estrada que passarão, eles usavam diversas línguas para se comunicar, mas entre algumas conseguia entender.
O homem a minha frente segue me olhando fixamente, ele apenas desviava o seu olhar quando ia pegar sua garrafa, qual já estava quase vazia agora.
Após um bom tempo de estrada o carro estava em uma rua movimentada, parecia ser bem próxima de um centro, oque logo some quando gradualmente entramos em um grande aeroporto. Consigo identificar pela placa da frente!
— Chegamos! — ele diz enquanto balança o líquido em sua mão, o motorista desce do veículo e vem em direção da minha porta. — Sei que tem documentos, dinheiro e um bom motivo para entrar em um daqueles aviões.
Engulo em seco desviando meu olhar para a entrada do local, vendo as pessoas com suas grandes malas descerem dos táxis e entrar.
Minha mente ainda custava a acreditar que ele realmente havia me trazido até aqui, que pela primeira vez um homem não estava mentindo para mim, tentando conseguir algo em troca.
— Está livre Catarina, pode sair desse carro e seguir seu caminho. — volto a olhá-lo.
— Qual o seu nome? — ele estreita os olhos — Você mão me disse isso, gostaria de saber.
— Marco. — assim que ele responde o seu segurança abre a minha porta, olho novamente para aquela entrada do aeroporto, sentindo pela primeira vez uma hesitação correr por mim.
— Isso é um adeus então? — a pergunta foge dos meus lábios, antes mesmo que eu notasse.
— Alguns agradecem quando digo adeus. — coloco meus pés para fora do carro, mas olho novamente para ele.
— Eu não sei se é mais perigoso lá fora, ou aqui...
— Aqui, sem dúvidas! — ele nem hesita em me responder, desço finalmente do carro e conserto a bolsa em meu ombro.
Respiro fundo e dou alguns passos, o segurança após fechar a porta volta e assume o banco do motorista. Quando ouço a porta se fechar tento me controlar, mas, não consigo e novamente olho para trás. Encontrando o vidro escuro daquela janela do carro, entretanto eu sabia que ele ainda me olhava, sentia isso!
Minha consciência gritava para que eu desse mais alguns passos para longe, que entrasse naquele aeroporto e tentasse entrar em um voo. Mas quanto aos perigos que podem novamente me cercar? Quanto as pessoas perigosas que podem novamente conseguir me apanhar e me trancafiar?
Eu já havia entendido que claramente eu não saberia me virar sozinha, depois de tanto tempo tendo que conviver trancafiada, eu achei que seria simples e fácil. Que conseguiria vir ao Brasil e simplesmente encontraria pessoas boas, mas a maldade está em cada canto desse mundo. Nos corações de quem você nem mesmo imagina.
Eu tinha medo de ir até a polícia, ainda mais depois de minha experiência com a embaixada brasileira na Albânia. Tinha medo de entrar em um táxi, de pedir uma informação a um desconhecido e novamente cair em maus mãos!
Apesar de tanto medo que me cercava, eu só não sentia medo de uma coisa... de voltar e entrar novamente naquele carro!
Por mais loucura que isso pareça, era a única verdade!
Respiro fundo e novamente olho para a entrada do aeroporto, pensando se aquilo era realmente a minha única opção, ou se por algum milagre eu poderia conseguir a ajuda desse homem naquele carro. Nem que seja apenas até Maringá, que ele apenas me ajude a chegar até lá e enfim poderei sair de seu caminho.
— Pensa Catarina... — sussurro a mim mesma, novamente dou alguns passos.
Mas, então recuo e decidida a não tentar enfrentar aquilo viro-me, novamente olhando para aqueles carros pretos.
Volto em sua direção sem esperar mais, logo já estou novamente parada na porta. Em todo momento eu tinha certeza de duas coisas, ele me observava atrás daqueles vidros, e se eu entrasse naquele carro novamente estaria arriscando minha vida a um homem totalmente desconhecido!
Ouço o som das portas se destrancando, e por mais que a razão novamente gritasse em minha consciência... Coloco a mão na porta e abro-a, entro no carro novamente e após me acomodar no banco, fecho ela!