[...]
Clarice sentia-se muito bem com a presença de Ricardo, ele era completamente diferente de todos que ela já tinha conhecido e um dos poucos que a ouvia com atenção e não tinha o olhar julgador como os outros, pelo contrário, ele parecia muito interessado no que ela falava e em nenhum momento demonstrou que aquele seu interesse era apenas por pena ou ficou entediado com a companhia dela.
Ainda era cedo e as ruas próximas à praia estavam cheias de turistas e moradores locais indo e vindo. O clima estava gostoso e a conversa divertida. Clarice contava a Ricardo o que tinha feito com as amigas após elas falarem coisas horríveis sobre ela, as quais ele achou de uma grande falsidade.
— Você fez tudo isso? — Perguntou rindo.
— Fiz, Ricardo! — Riu. — Decidi que não vou deixar mais ninguém me usar, se não sou uma pessoa que agrada, então é melhor a pessoa ser sincera do que fingir que gosta de mim e quer a minha amizade. — Disse.
— Acho que você amadureceu um pouco nesses últimos dias. Mas como elas irão voltar para o Brasil? Você não se preocupa com isso? — Ela negou.
— Elas não terão problemas para voltar, estão com as passagens de volta já e ainda terão sorte que irão voltar de primeira classe, mas é a última regalia que elas terão por terem a minha amizade e abusarem da minha ingenuidade. — Respondeu, parecia ter se ferido com a ação de suas amigas, mas que não lhe afetava mais como afetaria antes.
— Eu acho que você está fazendo a coisa certa em não querer pessoas como essas duas em sua vida. Elas não souberem valorizar a amizade que você tinha para oferecer e apenas usavam a sua boa vontade para continuar exibindo uma vida que não as pertence mais, elas só queriam tirar vantagens com a sua amizade. — Disse, enquanto caminhavam devagar ao lado dela.
— Acho que essa limpeza na minha vida será essencial para essa nova fase da minha vida. E eu tomei uma decisão já. Irei seguir os conselhos que me deu na última noite que nos encontramos. — Ela sentiu que deveria revelar para ele a sua decisão.
— Vai voltar a estudar? — Ficou surpreso.
— Sim, voltarei a estudar moda. E independente do que as pessoas próximas a mim falem, eu não vou dar ouvidos, continuarei com o meu sonho. É o único sonho de verdade que nasceu do meu coração, que não foi plantado por meus pais. — Ela sorriu, parecia animada e aquilo deixou Ricardo feliz, ele não entendia porque, mas estava feliz.
— Eu acredito em você, acredito que será capaz de se tornar alguém de sucesso e de muita importância nessa área e se precisar de qualquer coisa, saiba que agora tem um amigo com quem pode contar e que não vai ficar chateado se você falar sobre novas tendências, lançamentos e gostos pessoais. — Deixou claro que ela podia contar com ele.
Clarice pegou no ombro dele, dando-lhe dois apertos com a ponta dos dedos.
— Você é de verdade mesmo ou é apenas uma ilusão da minha cabeça? — A pergunta dela fez Ricardo sorrir.
Ele segurou a mão dela, permitindo que a mesma sentisse o calor dela em seguida depositou um beijo suave nela, fazendo-a sentir a barba dele em sua pele.
— Sou bem real! — Respondeu olhando nos olhos dela, que adquiriram um brilho diferente após aquele toque.
Clarice engoliu seco.
— Sim, bem real. — Falou sentindo sua voz falhar e sua respiração ficar pesada.
Ricardo percebeu, mas ficou quieto.
— Então, quando essa conferência que você está participando termina? — Perguntou, tentando mudar de assunto.
— Já terminou, mas amanhã ainda teremos um café da manhã comemorativo, só para despedida mesmo, porque eu não vejo nada muito vantajoso que possa ser comemorado. — Respondeu. — Acredito que não deveria ter feito essa viagem e recusado o convite. — Completou.
— Ah, mas se não tivesse aceito e estivesse aqui, não teríamos nos encontrado. — Clarice disse feliz. — Pelo menos você trouxe-me um pouco de felicidade essa noite e fez-me sentir bem, essa noite não será marcada por tristeza e solidão graças a você ter aceito vir à essa conferência chata. — Confessou.
— Que bom que você pensa assim, encontrar você aqui foi a única coisa boa nessa viagem. — A voz dele soou suave deixando-a com as mãos trêmulas.
— Pelo menos não estarei sozinha quando a noite virar e à meia noite e vinte meus vinte e três anos chegarem. Claro se não se importar de ficar comigo, também não quero ser um incômodo. — Falou, sentindo que podia ter ido longe demais.
— Eu já disse que você não é nenhum incômodo e sim, eu posso ficar com você e ser o primeiro a te desejar feliz aniversário. — Respondeu.
Clarice ficou feliz. Os dois pararam em um lugar menos movimentado, a vista era magnífica. A lua estava linda e banhava o mar com a sua luz, as luzes da rua também clareavam a praia, lhes permitindo uma ótima visão daquela beleza natural.
— Ricardo, e quanto aos seus filhos. Como eles reagem a essas viagens? — Ela queria mudar de assunto, tinha ficado muito nervosa com o toque dele.
— Eles não me cobram muito a respeito disso, eu tento ser o pai mais presente possível. Estou sempre disponível para eles, mesmo que seja apenas por telefone. Nunca perco uma reunião de pais, estou sempre bem informado sobre os estudos deles e nunca volto pra casa muito tarde, procuro estar sempre presente e fazer alguma coisa com os dois. Eles sofreram muito com a perda da mãe, agora eles só têm a mim, então não quero que os meus filhos se tornem adolescentes que odeiam o pai por ele ser ausente na vida deles. — A resposta dele a deixou sorridente.
— Uau, isso é incrível! Você não mistura família com trabalho e está sempre presente nos dois. Você é um homem muito inteligente, sabe conciliar a vida de empresário bem sucedido com a de pai. Isso é muito admirável, Ricardo. — Clarice disse eufórica, aquilo a encantava.
— Acredite Clarice, eu não seria um empresário bem sucedido se não fosse um bom marido, um bom pai. — Respondeu.
— Você deveria dar umas aulas ao meu pai. — Brincou.
— Acho que agora não será mais possível, você cresceu com a ausência dele. — comentou.
— Não só dele, com a ausência da minha mãe também. Foi uma infância difícil, Ricardo, e que eu nunca vou esquecer. Se um dia eu for mãe estarei sempre presente na vida dos meus filhos. — Falou e ele viu uma pontinha de tristeza no olhar dela.
— Você só precisa colocar sua família acima de qualquer outra coisa, nada é mais valioso e importante que isso. — Ela assentiu.
— Você se sente realizado nas duas áreas? Já realizou seus sonhos como empresário e como um homem de família? — Perguntou, apoiando seu braço em uma meia parede que dividia a praia e a rua.
— Como empresário sim, mas como pai ainda não. Ainda tenho um longo caminho para seguir até sentir que realizei meus sonhos como pai também. Eles ainda são jovens e nem finalizaram o ensino médio, então, acredito que só terei todos os meus sonhos realizados quando vê-los formados e trabalhando na área que decidiram seguir. — Respondeu.
— Eu tenho certeza que você vai realizar esse seu sonho. — Disse.
— E você, Clarice. Tem alguma meta pessoal, como mulher? — Perguntou.
Clarice respirou fundo e o encarou por alguns instantes.
— Não! Eu não tenho. — Disse tristonha.
— Ei, não, não fique triste. Desculpe-me pela pergunta, não quero vê-la triste. — Deu dois passos em direção a ela, segurando o queixo dela com a mão direita. — Eu não deveria ter feito essa pergunta, fui muito infeliz em questioná-la desta forma. — Ficou nervoso.
— Não precisa se desculpar e nem ficar preocupado. Eu estou bem e já estou acostumada a olhar para o meu futuro e não enxergar nada nele. Nunca fui de pensar no futuro, exceto quando pensava que teria o melhor casamento do mundo e me enganei. — Respondeu. — Bom, pelo menos agora eu decidi voltar a estudar e quero me tornar alguém que tenha o seu valor. Porém, a minha vida pessoal é algo que eu não sonho com nada pra ela. — Concluiu.
— Acho que você só precisa de tempo, só precisa ser paciente e se cercar de pessoas que a ame de verdade. — Ficou de frente pra ela. — Só não se sinta pressionada e não deixe que os outros interfiram nos seus sonhos, por mais pequenos e simples que pareçam ser, tudo bem? — Perguntou um pouco preocupado em ter estragado a alegria que tinha conseguido trazer pra ela naquela noite.
— Você é sempre gentil e amável assim? — Ficou curiosa.
Ele sorriu balançando a cabeça.
— Nem todo mundo dá o espaço para que eu seja tão intrometido assim. — Riu.
— Você não está sendo intrometido. Você foi a pessoa certa em todos os momentos que eu precisei. Você me aconselhou sem me julgar, me ajudou sem se importar com os meus chiliques de patricinha e foi você que encorajou-me a seguir meus sonhos sem preconceitos. Então, você não é nada intrometido. — Confessou.
— Assim eu sinto-me mais relaxado. Estava com medo que estava aceitando minha aproximação apenas por educação. — Ela negou.
— A sua companhia é ótima e eu gosto de conversar com você. Aliás desejei muito um dia ter uma conversa com você. — Ricardo franziu a testa, confuso.
— Posso saber o motivo? — Ele sabia o que poderia ser, mas decidiu ouvir dela mesmo.
— Acho que você já percebeu que eu sou a dona de algumas peças únicas, cujas informações dizem que foram desenhada exclusivamente por você. — Ele sorriu.
— Eu percebi isso desde o primeiro dia que nos encontramos. — Confessou e agora encontrei a pessoa misteriosa que estava sempre à frente de outros compradores. — Às bochechas dela se tornaram rubras.
— Você é um designer incrível, sempre o admirei por isso e nunca pude dizer isso pessoalmente, mas agora eu tenho a oportunidade. Tudo que você desenha e cria é simplesmente perfeito e sempre me vejo muito tentada quando anunciam alguma nova coleção desenhada por você e como sempre são peças únicas e exclusivas, dou o melhor para conseguir comprá-las. — Revelou.
— Então eu tenho diante de mim uma fã? — Colocou as mãos dentro dos bolsos da calça e sorriu.
— Acho que sim! — Sorriu com timidez.
— Você é uma mulher incrível, Clarice! — Disse.
— Mulher? — Ele assentiu. — Você é o primeiro que me chama de mulher, os outros sempre me chamam de garotinha, jovenzinha mimada, como se fosse uma adolescente de 15 anos. — Revelou.
— Eu não vejo isso, vejo uma mulher que em breve ficará mais velha e ganhará mais experiência, também vejo alguém que terá um futuro brilhante e quando você for reconhecida mundialmente pelos seus trabalhos, serei o primeiro a te parabenizar, o seu primeiro fã. — Ela não se conteve e o abraçou.
Ricardo foi pego de surpresa, mas correspondeu ao abraço. O abraço de Clarice era um abraço gostoso, apertado e tinha um aroma delicioso e ele pôde sentir o que quase ninguém sentia por ela não gostar, Ricardo sentiu o perfume e a maciez dos cabelos dela, que não se importou que ele os tocasse.
— São meia noite, em vinte minutos você deixará todas as mágoas e tristezas que viveu durante esse ano e um novo se inicia. — Sussurrou abraçado com ela.
— Um novo ciclo, uma nova vida. — Se afastou dele. — Pode me ajudar a sentar aqui, meus pés estão doendo. Não sei de onde eu tirei a ideia de sair pra caminhar com um salto desses. — Reclamou, enquanto pedia para que Ricardo lhe ajudasse a sentar na parede que mais parecia uma calçada alta.
Ricardo a suspendeu sem nenhum esforço.
— Licença! — Pediu, tirando os sapatos dela com delicadeza. Clarice mexeu os dedos, sentindo o alívio. — Agora se sente mais confortável? — Ela assentiu.
— Sim, agora estou bem melhor. Obrigada! — Ele apenas assentiu, ficando de pé ao seu lado.
— Esse lugar é lindo, não é? — Perguntou Clarice, olhando em direção ao mar e as ondas que se formavam.
— É sim, o mais lindo que eu já vi. — Ele a respondeu, mas neste momento Ricardo não olhava para o mar, sua atenção e o elogio foram direcionados para ela, que não percebeu aquilo.
Eles ficaram em silêncio por alguns minutos, enquanto ela observava o mar e sua infinita beleza, banhado pela luz da lua. O homem que a acompanhava lhe observava sem desviar o olhar. Ele observava seus olhos que brilhavam como a lua, seu sorriso mínimo que se formavam sempre que a brisa do mar tocava seu rosto ou como o vento brincava com os fios dourados de seus cabelos.
— Clarice, faltam apenas cinco minutos para o seu aniversário. — Ela lhe deu atenção, esboçando um sorriso divertido.
— Está fazendo uma contagem regressiva?
— Sim, quero ser o primeiro a te desejar felicidades, quem sabe eu não te traga boa sorte. No entanto, estou me sentindo m*l, eu não tenho nenhum presente e a única coisa que fiz foi caminhar com você.
— Você me proporcionou o melhor aniversário da minha vida, a sua presença foi essencial e você já me trouxe boa sorte, você é a minha sorte, Ricardo. Mas ainda tem uma coisa que você pode me dar como presente de aniversário. — Ele estava curioso.
— E o que seria? É só dizer que eu lhe dou! — Deu dois passos em direção a ela.
— Os seus lábios! — Respondeu e antes que ele pudesse falar qualquer coisa, Clarice o beijou.
Clarice beijou Ricardo à meia noite e vinte, nos primeiros segundos da nova fase de sua vida.