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Clarice entendia que tinha muitas manias e agia de uma forma muito diferente das outras pessoas. Ela tinha conhecimento do quão difícil era conviver com ela, no entanto, não suportava quando as pessoas eram falsas. Preferia mil vezes ser ignorada e não ter algumas pessoas como suas amigas do que serem legais com ela achando ela a pessoa mais insuportável do mundo.
Mas ela não conseguia entender o porquê das pessoas acharem ela tão fútil e mimada ou não gostarem dos assuntos que ela costumava falar, afinal tem pessoas que gostam de conversar sobre futebol, outras preferem falar sobre política, outras já costumam falar sobre religião e há aqueles que quando estão juntos só sabem falar das suas conquistas ou de seus empregos. Então, qual era o problema dela falar sobre moda e seus gostos pessoais? Ela não estava cometendo nenhum crime e nunca machucou alguém com seus assuntos ou falou m*l de alguém por causa do seu estilo, assim como as pessoas que falam sobre futebol, política e religião se ferem com opiniões contrárias.
Portanto, o costume de estar acostumada com todas as rejeições não dava o direito às pessoas que conviviam com ela agirem como estavam agindo ultimamente. Clarice se perguntava o que de tão c***l ela tinha feito para essas pessoas para fazerem aquilo e até mesmo as que ela considerava como irmã e mãe, não lhe apoiaram nas suas escolhas? Julieta e Camila não acreditavam que ela seria capaz de alavancar uma carreira de sucesso na área de moda, que uma profissão onde não tinha tantos holofotes direcionados para ela seria a melhor escolha a ser feita.
Enquanto se arrumava para comemorar seu aniversário sozinha, Clarice via uma filme da sua vida passar diante de seus olhos, de todas os anos, que naquela data ela estava rodeada de pessoas fazendo todas as suas vontades, de todas as festas glamourosas que os seus pais lhe proporcionaram, de todos os anos que os seus desejos foram realizados e como todos aqueles convidados estavam ali apenas por estar, que não existia amor e nem carinho de verdade por ela. Tudo que viveu havia sido uma farsa e que dali em diante, sua vida teria uma mudança drástica, que seria apenas ela por ela e mais ninguém, ela seria sua própria companhia e só aceitaria em sua vida quem estivesse ao seu lado por ela ser quem era e não pelo dinheiro do seu pai.
O vestido vermelho em decote V que ia até metade de suas coxas fora escolhido a dedo, lhe servia como uma luva e realçava a cor de sua pele. Os cabelos loiros, ondulados apenas nas pontas caiam como cascata, cobrindo metade de suas costas. O sapato nude completava o look, mas as jóias que usava dava um destaque único, jóias de valor altíssimo e de coleção única, mais um conjunto de vários que ela tinha e que eram peças exclusivas feitas especialmente por Ricardo, um homem que ela sempre admirou pelo trabalho impecável e pela delicadeza de cada peça que criava é que tinha sido uma pessoa tão especial em momentos difíceis de sua vida.
Ela estava feliz, mesmo tendo seus pais tão distante naquele dia, depois de ter terminado um relacionamento que acreditava existir muito amor e após ouvir todas as coisas ruins que suas amigas, que não eram nada amigáveis, falarem sobre ela. Aquela amizade era uma amizade comprada e ela não aceitaria nenhuma outra pessoa que se aproximasse dela por interesse.
Ela saiu do quarto com uma confiança que nem mesmo a própria Clarice acreditava que tinha, ia apenas jantar, caminhar pela orla da praia que estava cheia de turistas, esperar a meia noite chegar, trazendo seus 23 anos e voltaria para o quarto. No dia seguinte voltaria para o Brasil, não havia motivos e nem companhia para ficar ali até a segunda, mesmo que aquele lugar fosse um verdadeiro paraíso. Sua companhia era a melhor possível, mas ela ainda tinha que se acostumar com aquela ideia, tinha passado todos os seus últimos anos rodeada de pessoas.
No restaurante ela aceitou a sugestão do garçom e provou um dos melhores salmão grelhado com salada de sua vida, era um prato simples, mas com um sabor surpreendente. Dispensou a sobremesa e ao sair do restaurante do resort se viu tentada a ir até o pequeno bar a parte que eles tinham ali, era um lugar aconchegante, a música era suave, diferente dos que ela estava acostumada a ser levada por Elen e Viviane. Ela adentrou o lugar e havia várias pessoas ali. Sentou-se de frente para o barman e pediu um de seus drinks favoritos, gin tônica com morango.
Clarice tinha chamado a atenção de muitos homens ali. Sua beleza era estonteante e não passaria despercebida aos olhos deles. Ela era jovem, bela e estava sozinha, alguns se sentiam tentados e outros tinham curiosidade para saber o porquê de uma mulher tão linda estar sozinha em lugar como aquele ou só estava esperando alguém. Após dois goles de seu drink, enquanto vasculhava suas redes sociais, foi surpreendida com uma ligação e ela não podia acreditar no que os seus olhos estavam vendo, ela só podia estar vendo coisa, imaginou. Não estava bêbada, disso ela tinha certeza, dois goles não eram o suficiente para deixá-la bêbada. O nome de Ricardo na tela do celular a deixou nervosa.
— Alô! — Disse com um sorriso suave nos lábios.
— Oi, como você está? — A voz rouca soou tão sedutora do outro lado da linha e a pergunta fez um nó se instalar em sua garganta.
— Eu diria que estou sobrevivendo e você está bem? — Perguntou, engolindo seco., após alguns segundos.
— Entediado. Espero não está incomodando. — Respondeu.
— Isso não parece nada bom e você não está me incomodando. Mas o que está te deixando entediado? Uma noite sozinho em casa? — Sorriu.
— Pior que não. Estou cercado de pessoas, mas estou me sentindo deslocado.
— E porque está se sentindo tão deslocado? — Perguntou.
A música continuava suave e em um volume confortável.
— Estava em um jantar de negócios, como sempre. — Ela sorriu, sabendo que ele também sorria do outro lado. — e eles resolveram sair para um bar e fui t**o em aceitar e agora eles estão se divertindo com esposas e namoradas, enquanto estou aqui, apenas sendo o viúvo e sozinho do grupo. — Clarice sentiu uma pontada de tristeza.
— Bom, acho que estamos no mesmo barco, também estou enteada, mas ao contrário de você, fui deixada sozinha. — Respondeu.
— Você quer sair comigo? Não sei, quem sabe dar uma volta, caminhar um pouco. — Ricardo fez o convite e ela sentiu uma raiva invadir seu coração por estar ali e não poder aceitar o convite dele .
— Eu adoraria, mas eu estou bem distante. Nesse exato momento estou em Cancun.
— Cancun? Bastante longe! Posso saber o que está fazendo tão longe de casa? — Sorriu, para que ela soubesse que era uma pergunta em forma de brincadeira e não uma especulação.
— Vim comemorar meu aniversário e agora estou em um lugar paradisíaco, depois da meia noite de hoje é o meu aniversário, estava acompanhada de duas amigas, que descobri não ser tão amigas assim e que me deixaram sozinha aqui para saírem com alguns carinhas que ela encontraram. — Respondeu.
— Então eu acho que você deveria aceitar dar uma volta comigo, ninguém merece passar o aniversário sozinha.
— Isso será impossível, como eu iria sair com você se estamos tão distantes. — Respondeu, brincando com o zíper de sua bolsa.
— Sabe, vermelho realça bastante a sua beleza. — Ela ouviu a voz de Ricardo não mais através do fone do celular, mas logo atrás dela.
Ela virou-se, permanecendo sentada, procurando de onde estava vindo a voz dele. Os seus olhos encontraram os dele, Ricardo tinha um meio sorriso formado nos lábios. Ela sentiu seu coração acelerar, sua boca ficou seca e suas pernas bambas.
— Nos encontramos de novo! — Disse, colocando o seu celular no bolso.
— Eu… Eu não sei nem o que dizer. — Ficou surpresa.
— Eu também fiquei surpreso quando a vi entrar no bar e chamar a atenção de todo mundo. — Respondeu se aproximando mais.
— Eu chamei? — Olhou a sua volta e ainda tinha alguns olhares direcionados a ela, principalmente do grupo que Ricardo estava acompanhando.
— Chamou. Você é uma mulher linda e estava sozinha, então é comum que chame a atenção. — Respondeu.
— Se fosse no Brasil, eu não estranharia, mas aqui. — Riu. — Também não esperava te encontrar logo nesse lugar. Seria isso coincidência? — Falou.
— Talvez! — Deu de ombros, ele não acreditava em simples coincidências. — Está tendo uma conferência com alguns empresários e eu fui convidado, mas confesso que está sendo um dos piores eventos que eu já participei em toda a minha vida. — Confessou.
— Está sendo tão r**m assim? — Sorriu após fazer a pergunta.
— Demais! O que era pra ser algo relacionado à negócios, virou uma disputa de quem tem mais dinheiro, propriedades, quem tem os filhos mais bem sucedidos ou quem tem a esposa mais submissa. — Revelou.
— Que horrível essa última parte. Quem gosta de ser submissa no tempo em que vivemos? Acho que um relacionamento é união, parceria e não submissão.
— Concordo, mas acredite, ainda existem pessoas assim.
— Eu não conseguiria viver em um relacionamento desse tipo.
— Falando nisso, você está bem mesmo? Digo, em relação ao que aconteceu naquele hotel. — Explicou.
— Eu estou surpresa comigo mesma, Ricardo. Não imaginei que seria tão forte e que esse término não me afetaria em nada. — Respondeu.
— Isso é bom, apesar de mostrar que não tinha o amor que você imaginava sentir por ele. — Ela assentiu.
— Verdade, eu percebi isso e sei que o que eu sentia era apenas uma atração que foi construída a partir dos elogios do meu pai a respeito do Henrique e de como ele e a minha mãe diziam que éramos o casal perfeito, mas nunca fomos isso. — Falou.
— Popularidade, contas bancárias recheadas, corpos e rostos bonitos nunca comprarão o amor verdadeiro e a felicidade. — Disse. — Bom, mas não vamos falar disso. Se não me engano você disse que adoraria sair comigo. — Ela sorriu.
— Bom, estou proibida de ir em baladas, bares muito lotados, não posso ser fotografada em um lugar desse ou o meu pai cancela todos os meus cartões. — ele riu.
— Pra sua sorte, eu não gosto de lugares assim. Você aceita? — Estendeu a mão na direção dela que a segurou sorrindo.
— Claro que sim, será um grande prazer! — Levantou-se e o acompanhou para fora do bar.
Ricardo não tinha muitas ideias de onde deveria levá-la. Só queria vê-la sorrir novamente e se livrar daquelas pessoas que estavam lhe deixando tão desconfortável. Ele só desejava respirar ar fresco e passar uma noite sem falar em negócios ou números.