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Clarice conseguiu causar um grande alvoroço na vida de Henrique, que tinha se tornado o assunto mais falado nos últimos dois dias, além de ter perdido metade dos seguidores que ele tinha conseguido graças ao namoro que tinha com ela. Claro que todo aquele escândalo tinha chegado aos ouvidos de seu pai, que não podia voltar ao Brasil, mas que já lhe dava ordens para não tomar nenhuma atitude precipitada antes da volta dele e as atitudes precipitadas que ele se referia, era a sua filha terminar o namoro com Henrique.
Ela não o ouviu e não tinha nada para terminar, aquele namoro já não existia há muito tempo. Ela nunca tinha se sentido tão bem quanto se sentiu ao sair daquele compromisso com o modelo.
Ela tinha quebrado um ciclo e um novo se iniciava, estava a caminho de uma viagem para comemorar os seus vinte e três anos e em seus pensamentos as palavras de Ricardo ecoavam sem parar, onde ela o via dizer que nunca era tarde para recomeçar e de fato não era, ela era tão jovem, estava apenas começando a viver, não tinha que desistir na primeira decepção.
— Eu ainda não consigo acreditar que o Henrique traiu você. — Elen disse, tentando disfarçar que aquilo não era nenhuma novidade pra elas.
— Nem eu. Você não merecia isso que ele fez. — Viviane comentou.
Clarice sequer ouviu o que as duas disseram, seus pensamentos e os seus dedos estavam ocupados, teclando com o seu mais novo amigo. Ricardo estava mantendo contato com ela nos últimos dois dias.
— Clarice? Clarice! — Chamou Elen.
— O que foi? Você me assustou. — Disse dando atenção às duas amigas.
— Estamos falando com você há um tempão e você não nos ouve, o que você faz nesse celular? — Perguntou.
— Ah, só estava conversando com a minha mãe. — Mentiu.
— Mas o que vocês estavam falando mesmo? — Perguntou.
— Sobre o Henrique ter traído você, o que ele fez não tem perdão, ele não podia…
— Eu não quero falar sobre o Henrique, ele já faz parte do meu passado, por favor não falem mais no nome desse homem perto de mim. — Pediu.
— Você já esqueceu tudo que viveram? — Viviane perguntou.
— Mas ele e eu não vivemos quase nada, ele estava sempre ocupado para mim. E por que eu teria que lembrar de uma pessoa que me fez tão m*l? — Perguntou.
— É, você tem razão. Então vamos mudar de assunto. — Disse Elen. — O que você preparou para esses três dias que vamos ficar aqui? — Perguntou Viviane.
— Ah, eu andei pesquisando algumas coisas e eles têm uns barzinhos beira-mar, algumas baladas no centro da cidade, bem a nossa cara, e próximo ao resort que vamos ficar, eles oferecem umas baladas em lanchas, em alto mar. — Clarice negou.
— Nós estamos aqui, mas não vamos participar de nada disso. Meu pai impôs alguns limites e dentre eles está tudo isso que vocês citaram. E hoje a noite iremos comemorar o meu aniversário no resort mesmo, eles oferecem alguns serviços para quem está comemorando alguma data especial e eu vi algumas fotos dos locais de festa, e é simplesmente incrível. Mesmo que sejamos só nós três, acho que vamos nos divertir. — Respondeu.
— Nós vamos ter que seguir um roteiro imposto pelo tio Humberto? — Elen perguntou chateada.
— Sim, era isso ou não teria viagem. Mas vai ser divertido, vocês vão gostar. Mas saibam que isso é tudo culpa daquele desgraçado do Henrique. — Clarice garantiu.
— Claro, vai ser muito divertido. — Viviane disse revirando os olhos.
Quando as três desembarcaram na cidade de Cancun, ainda era manhã e o voo a noite tinha deixado Clarice muito cansada, ela só queria chegar no resort, tomar banho e descansar para estar com bastante energia para a noite aproveitar o máximo.
— Eu não acredito que diante desse paraíso você vai deitar e dormir, Clarice. — Viviane perguntou eufórica.
— Eu vou, o voo foi cansativo e eu estou com sono, quero descansar para a noite estar disposta. E vocês deveriam fazer o mesmo. — Respondeu.
— Vamos descansar quando voltarmos para o Brasil, aqui a gente vai aproveitar ao máximo. Você pode ficar descansando aí, mas a gente vai aproveitar esse lugar maravilhoso, quem sabe não conseguimos alguém que pode nos mostrar como nós divertir. — Elen disse.
— Tudo bem, vocês quem sabem. Mas levem os celulares e peguem o número e endereço do resort, caso aconteça algo. — Clarice aconselhou.
— Certo, Clarice. Nós vamos fazer isso, não somos crianças e sabemos nos cuidar. — Clarice sentiu um pouco de aborrecimento na voz dela.
— Só estou sendo cuidadosa e espero que vocês também sejam. — Disse Clarice, chateada.
— Certo, certo. Não precisa bancar a nossa mãe só porque está arcando com todas as despesas dessa viagem. Estamos aqui para nos divertir e não para ouvir sermões. Vamos Vivi. — Elen a chamou, indo em direção à porta do quarto.
Clarice ficou no quarto, se perguntando o porquê de suas amigas estarem agindo daquela forma com ela. Contudo, ela sabia que não podia ir contra o pedido de seu pai, afinal, ela não queria que ele cancelasse todos os seus cartões de crédito.
Acreditando que elas não estavam chateadas com ela, Clarice fechou as cortinas do quarto, deixou o ar em uma temperatura confortável e deitou-se, ela só queria descansar para a noite comemorar a chegada dos seus 23 anos sem nenhuma preocupação, esquecendo tudo que aconteceu nos últimos dias em sua vida.
Já era fim de tarde quando Viviane e Elen voltaram para o quarto, Clarice despertou quando as duas adentraram o quarto, tentando não fazer barulho para não acordá-la, no entanto, m*l sabiam elas que a amiga não estava dormindo.
— Eu não disse que ela ainda ia estar dormindo. — Clarice escutou Viviane sussurrando.
— Então vamos aproveitar que ela está dormindo, nos trocar logo e sair sem que ela acorde. — Disse a morena.
Clarice ficou confusa, pensou em mostrar que estava acordada, porém, ela queria saber porque elas estavam agindo daquela forma.
— Como que alguém consegue vir para um lugar como esse e ir dormir? — Elen perguntou.
— É a Clarice, esqueceu? Super estranha e acostumada com lugares como esse desde criança. Tanto faz pra ela estar aqui ou na casa dela. — Viviane respondeu. — Agora vamos, não podemos deixar os rapazes esperando muito. — Disse.
— O que vamos falar pra ela se ela nos ligar perguntando onde estamos? — A mais velha das três quis saber.
— Não vamos falar nada, os celulares estarão desligados e amanhã quando a gente voltar inventamos qualquer desculpa como sempre fazemos e ela vai acreditar, ela sempre acredita. — Viviane riu.
— É, afinal, o que pode dar errado? Ela sempre acredita no que dizemos mesmo. Vamos tomar banho juntas para economizarmos tempo. — Elen disse.
Clarice sentiu-se muito m*l com o que estava ouvindo. Então todas as vezes que ela queria sair com elas e não podiam, estavam apenas mentindo pra ela. Mas ela já não era a mesma de duas semanas atrás e não ficaria daquele jeito.
Ela permaneceu deitada, queria saber o que mais as suas amigas pensavam sobre ela e além disso, não deixaria que mais ninguém a enganasse. Preferia passar aquela data sozinha do que com pessoas que estavam sendo tão falsas com ela. Ela ouviu quando as duas saíram do banho e começaram a se trocar.
— Vivi, e se ela não quiser mais falar com a gente? Já imaginou perder todas as regalias que estamos tendo? Você sabe que não é fácil ser filhas de pais falidos como os nossos e ser amiga da Clarice tem seus benefícios. — Disse.
— Nós não vamos perder a amizade dela, sua boba. A Clarice é uma dondoca fácil de manipular, super sensível e sentimental.
— Além de super i****a. — as duas riram baixinho e voltaram para o banheiro para se maquiar.
Clarice sentiu os olhos arderem pelas lágrimas embaixo da máscara de dormir. Mas se manteve calma e não deixou que as duas percebessem que ela estava acordada e ouvindo tudo que estavam falando.
— Que ela possa se divertir em um lugarzinho qualquer do resort. — Viviane disse.
— Como você é c***l, Vivi. — Elen disse.
— Eu só disse o que você estava pensando. — Riu baixinho.
— Mas foi você que falou. Agora vamos, não podemos acordá-la. — Respondeu.
— Do jeito que ela está dormindo, só vai acordar à noite. — Falou.
As duas saíram do quarto, sem saber que Clarice estava acordada e tinha ouvido tudo que haviam dito e que ela não seria mais a i****a que as duas disseram que ela era. Clarice levantou-se, tirou o pijama e antes de sair do quarto juntou todas as suas coisas e as colocou em sua mala, assim como todos os pertences das duas que estavam lhe acompanhando. Quinze minutos depois ela estava de frente para a recepcionista do resort, com sua mala do lado.
— Senhorita Aliperti, há algum problema? — Perguntou a moça com educação.
— Sim, eu quero outro quarto. — Respondeu.
— Tem algum problema com o que a senhorita está? — Indagou.
— Cobras! — Disse, deixando a mulher surpresa.
— Co… Cobras? Eu vou chamar a segurança, bombeiros. Meu Deus, como isso foi acontecer, nada disso nunca aconteceu. — Falou a recepcionista muito nervosa, pegando o telefone.
— Calma, Alexia! Não é desse tipo de cobra que eu estou falando, as cobras que estou me referindo, eu mesma trouxe. — Alexia a encarou confusa. — As duas jovens que estavam comigo, lembra? — A recepcionista mexeu os olhos, como se buscasse na memória de quem ela estava falando.
— Claro, elas saíram agora há pouco. — Respondeu.
— Pois é, eu as ouvi chegar e sair e além disso, elas disseram algumas coisas sobre mim, por isso eu quero outro quarto e as duas não estão me acompanhando mais, nenhum gasto delas no resort será minha responsabilidade. Eu quero que tirem as coisas delas de lá e deixem aqui na recepção e quando elas voltarem, avise as duas que se elas quiserem ficar aqui, terão que arcar com suas próprias despesas. — Disse.
— Eu não sei o que aconteceu, mas como a senhorita está pagando por tudo irei fazer o que me pediu. Tenho apenas mais uma suíte disponível, estamos com o resort lotado, têm alguns empresários participando de uma conferência de vendas. — Revelou.
— Ficarei com ela. — Afirmou. — Ah, e se elas perguntarem em qual quarto estou, por favor não diga.
— Claro, senhorita. Aqui está a chave, o outro quarto já foi cancelado. — Disse.
— Ah, quanto ao serviço de hoje à noite, eu gostaria de cancelar, apenas irei jantar no restaurante do resort mesmo e talvez faça um passeio. Não posso comemorar meu aniversário sozinha. — Respondeu.
— Mas e quanto ao jantar, ao bolo e doces que a senhorita encomendou? — Perguntou.
Clarice ficou pensativa por alguns instantes.
— Aqui por perto existe alguma instituição que possa ser doado esse jantar e tudo que reservei? — Perguntou.
Alexia ficou pensativa.
— Sim, no bairro onde eu moro, existe uma associação que acolhe crianças órfãs. — Falou.
— Ótimo! Doe tudo para eles, na verdade, peça o dobro do que eu pedi e leve para essas crianças. — Alexia piscou repetidas vezes.
— A senhorita tem certeza? — Perguntou.
— Sim, Alexia! Hoje é o meu aniversário e eu sempre tive tudo o que quis no dia de hoje. Porém, a tradição que segui por vinte e dois anos foi quebrada, eu não tenho com quem passar essa noite e acho que essas crianças vão aproveitar bem mais que eu. Esse é o primeiro passo para mostrar que não sou tão fútil como dizem. — Alexia estava com os olhos lacrimejando. A recepcionista apenas assentiu.
— A senhorita tem um coração imenso, não sabe o quão feliz essas crianças vão ficar. — Disse a recepcionista.
— Acho que esse será o melhor presente de aniversário que eu já ganhei em toda a minha vida. Agora eu vou para o quarto, até mais, Alexia! — Respondeu sorrindo.
— Até mais senhorita, muito obrigada e feliz aniversário! — Ela assentiu e saiu, puxando sua mala em direção ao quarto indicado por Alexia.
Clarice começou a ouvir o que Ricardo tinha lhe dito. E pensando no que haviam conversado, ela decidiu que mais ninguém ia se aproveitar dela ou lhe dizer o que ela tinha que fazer e como fazer. Talvez era a hora de amadurecer, a hora de trilhar seu próprio caminho e lutar contra os obstáculos que poderia enfrentar pelo seu caminho.