Narrado por Maísa Green O jantar estava silencioso. A mesa era grande demais para dois. Tudo ali parecia montado para uma vida que não era a minha: candelabros elegantes, janelas de vidro abertas para a mata fechada, pratos fundos com comida refinada, guardanapos de linho impecáveis. Mas não havia calor naquela casa. Nem um traço de paz. Hero se sentava na outra ponta, cortando o filé como se aquela fosse apenas mais uma noite comum. Sempre calmo. Mas era esse o problema: ele era calmo até demais. Como se nada fosse capaz de tirá-lo do eixo. Como se estivesse sempre cinco passos à frente. Cada vez que eu levava o garfo à boca, sentia os olhos dele sobre mim. Não de maneira grosseira, mas avaliando. Lendo meus gestos. Meu silêncio. Meu medo. — A comida tá boa? — perguntou, a voz baixa,

