Sol olhou primeiro para Henzo… depois para o carro reluzindo lá embaixo. Seus olhos estreitaram, desconfiados, e a boca se curvou num sorriso lento, quase perigoso.
— Você tá blefando, né? — ela disse, cruzando os braços. — O que é que você tá aprontando?
Henzo ergueu as sobrancelhas, completamente sério.
— Tô falando sério, Sol. Mas, claro… tem uma combinação.
Ela inclinou a cabeça, estudando cada traço dele.
— Qual é a combinação, Henzo?
Ele aproximou o corpo ao dela, falando baixo, firme, como se estivesse negociando um tratado de paz com uma rebelde.
— Você vai comprar a roupa do casamento. E nós vamos juntos ao casamento de Barão e Lupita. Sem discussão.
Sol fez um estalo com a língua, olhando de novo para o carro.
— Hm. Tá tentando me comprar com um brinquedo caro? — provocou.
Henzo tirou a chave do bolso, segurou-a pelas pontas e… colocou na palma da mão dela.
Sol arregalou minimamente os olhos ao sentir o peso gelado do metal.
— Espero que você não se arrependa, Henzo… — disse ela, girando a chave entre os dedos com um sorriso travesso.
Henzo bufou, passando a mão pelos cabelos.
— Eu já tô arrependido.
Sol deu uma risadinha curta, empolgada, m*l conseguindo esconder o brilho de expectativa no olhar.
— Então vamos, né? — disse ela, finalmente levantando do sofá, pronta para causar.
Henzo olhou para a porta, depois para Sol, e soltou um suspiro resignado.
— Vamos… antes que eu desista de vez.
E Sol passou por ele com a chave balançando no dedo, toda marra, toda provocação, já se sentindo dona do carro — e de parte da sanidade dele também.
Sol entrou no carro com um brilho nos olhos que era quase infantil — só que com vontade de devorar o mundo. Fez a ignição com um estalo satisfeito e, antes que Henzo pudesse entender, pisou fundo. O importado respondeu como uma fera: ronco grave, aceleração que grudou os corpos nos bancos.
— Sol! — Henzo deu um salto, segurando o painel como se aquilo fosse mantê-lo vivo. — Vai com calma! Vai com calma!
Ela só riu — um riso alto, liberador, que ecoou pelo vidro aberto. O vento puxou o cabelo dela, as ruas correram, e as pessoas na calçada desviaramm os olhos, algumas sorrindo, outras boquiabertas.
— Relaxa, Henzo! — ela gritou, com os olhos brilhando de adrenalina. — Confia em mim!
— Confiar?! — ele quase urrava, já pálido — Você tá me matando! Vai devagar, pelo amor de Deus!
Ela fez uma curva mais apertada do que o recomendável, puxou o volante com aquele ar de quem dirige desde sempre, e a traseira do carro deu uma leve derrapada controlada. Henzo prendeu o ar, os músculos tensos, a voz reduzida a um fio:
— Eu vou morrer, Sol. Está me ouvindo? Eu vou morrer!
Sol bateu um dedo no volante, divertido, e diminuiu um pouco a velocidade, só o suficiente para não provocá-lo um infarto.
— Calminho, drama king. — disse ela, ainda rindo. — Eu sei o que faço. Só gosto de sentir o motor, a pressão, a velocidade. É divertido.
Henzo passou a mão pelo rosto, tentando recompor a dignidade, enquanto era literalmente levado pelo rastro de adrenalina dela. A cada semáforo, ela espiava pelo retrovisor e fazia careta engraçada quando ele fazia mais uma oração silenciosa. Quando ultrapassaram um grupo de carros, ela fez sinal com a mão, uma provocação — e os motoristas responderam com buzinadas indecisas entre reprovação e admiração.
— Mais devagar na próxima rotatória! — pediu ele, já em tom de súplica. — Eu não sou um boneco do seu brinquedo!
— Tá bom, tá bom — ela cedeu, freando com mais jeitinho — Mas só porque você implorou com cara de cachorro abandonado.
O trajeto virou um teatro: risadas dela, berros dele, olhares alheios entretidos com aquela dupla. E, no meio do caos, havia algo que ele não admitiria em voz alta: o carro nos dedos dela parecia obedecer a cada comando — não porque ela fosse perfeita, mas porque tinha coragem e espontaneidade.
Quando finalmente estacionou com precisão surpreendente em frente à loja de vestidos — com uma manobra que deixou até Henzo meio sem saber se devia aplaudir ou reclamar — Sol abriu a porta, saltou pra fora, gargalhou alto como quem acabou de ganhar um troféu, jogou a chave pra ele com ar de conquista e disse:
— Viu? Não te matei. Só te dei emoção.
Henzo inalou profundamente, as pernas ainda levemente bambas do percurso. Recolheu a chave, olhou para ela, e não conseguiu evitar uma cara fechada.
— Emocionante demais pra mim — resmungou. — Mas tá bem… vamos lá. Só… sem mais trajetos k******e, por favor.
Sol piscou, soltou outro riso e entrou na loja puxando-o pela mão, já visualizando o próximo terreno a conquistar: os vestidos.
Sol entrou na loja como quem pisa num palco. Henzo, por outro lado, parecia mais preocupado em recuperar a alma que tinha ficado no banco do passageiro. O celular dele tocou — claro — e ele atendeu imediatamente, andando de um lado para o outro pela loja, resolvendo assunto atrás de assunto, sem prestar um milímetro de atenção nela.
Sol observou de r**o de olho, encostada num corredor repleto de vestidos brilhantes. E pensou, com aquele cinismo doce que só ela sabia carregar:
“O m*l de uma mulher é confiar demais num homem.
Mas esse erro eu não cometo.”
E realmente, não cometia.
Já Henzo, coitado, cometia. E cometia bonito. Confiava que ela estava lá escolhendo um vestido “adequado”, um look comportado, algo no estilo “digna do evento, sem dar trabalho”.
Ingênuo.
Ele achava que o perigo era ela dirigindo. Não tinha a menor ideia de que o verdadeiro risco estava acontecendo naquele exato segundo — e em silêncio.
Sol passeava pelos cabides com calma, puxando tecido por tecido, analisando cortes, cores, brilhos. Não queria só um vestido. Queria um impacto.
Bom, Henzo teria o infarto completo. Talvez dois.
E foi justamente isso que a fez sorrir enquanto separava três opções que fariam qualquer segurança do morro engasgar.
Henzo, do outro lado da loja, estava tão mergulhado na conversa — “Sim, Maurice, eu já resolvi.” “Não, Maurice, ela não vai aprontar.” “Claro que não, Maurice, ela tá tranquila, escolhendo um vestido simples, finalmente domei a onça…” — que nem percebeu quando Sol desapareceu no provador com o modelo mais ousado que encontrou.
Ele sequer olhou. Nem levantou a cabeça.
Confiando.
E Sol, enquanto fechava a cortina do provador com um estalo suave e malicioso, pensou:
— Tadinho… amanhã ele vai aprender a nunca tirar o olho de mim.
E continuou provando, com um sorriso perigoso e felino nos lábios, pronta para se divertir às custas do homem que ousou confiar demais.