Carro Importado

1126 Palavras
Maurice desligou o celular, jogando-o sobre a mesa com um suspiro pesado. Passou as mãos pelos cabelos, impaciente. Já estava arrependido de ter mandado Henzo e Sol para aquela missão que, em teoria, era simples: apenas marcar presença no casamento de Barão e Lupita. Mas ele sabia — nada era simples quando se tratava da máfia, e enviar Sol e Henzo, talvez não tivesse sido a melhor escolha. O casamento era mais do que uma celebração; era parte de um acordo importante, um elo entre famílias que ele próprio, sem intervenção do conselho, vinha tentando fortalecer há meses. Qualquer deslize poderia custar caro. Enquanto ele tentava controlar a irritação, ouviu o som suave dos passos de Violeta descendo as escadas. Ela vinha linda como sempre, os cabelos soltos, um leve perfume que enchia o ambiente. — Problemas? — perguntou, observando a expressão dele. Maurice ergueu o olhar, abriu os braços e a puxou para um abraço apertado, selando um beijo rápido nos lábios dela. — Sua amiga Sol — disse, ainda com a voz grave e um toque de exasperação — não quer ir ao casamento de Barão e Lupita. Violeta arqueou uma sobrancelha, mas conteve o sorriso que quis escapar. Ela conhecia Sol como poucos. Sabia que aquilo era puro charme, um jogo para medir limites — e para testar a paciência de Henzo. — Acha que devo mandar o Henzo comprar flores e implorar de joelhos? — perguntou Maurice, meio sério, meio sarcástico. Violeta gargalhou, inclinando o rosto de leve. — Conhecendo ela como conheço, se ele fizer isso, ela o fará engolir pétala por pétala. Maurice soltou uma risada curta. — Então o que ele deve fazer? Violeta ajeitou o cabelo, pensativa, mas por dentro já sabia a resposta. Sol podia fingir desinteresse, mas jamais perderia um evento daquele porte, ainda mais no morro, onde o poder e o prestígio se misturavam como um espetáculo. Era o tipo de ambiente que ela queria ver de perto — mas nunca admitiria isso. — Fale pra ele alugar um carro importado — disse Violeta, num tom confiante. — Deixe Sol dirigir. Ela vai baixar a guarda. Maurice arqueou as sobrancelhas, curioso. — Só isso? — Só isso — respondeu Violeta com um sorriso malicioso. — Sol gosta de sentir o controle, de ter o volante nas mãos. E principalmente de está no comando... e ela vai ceder. Maurice riu, encostando a testa na dela. — Você e suas leituras infalíveis. Violeta deu de ombros, ainda sorrindo. — Não é leitura, é convivência. Maurice se afastou um pouco, pegou o celular outra vez e murmurou: — Que Deus tenha piedade de Henzo... porque Sol, definitivamente, não vai ter. O celular de Henzo vibrou sobre o balcão de mármore da floricultura, o cheiro doce das orquídeas misturando-se ao perfume forte das rosas vermelhas. Ele atendeu sem nem olhar o visor, a voz seca: — Fala logo, Maurice. — Henzo, larga tudo o que estiver fazendo — disse Maurice direto. — Aluga o carro mais caro e importado que tiver e deixa Sol dirigir. Henzo arqueou a sobrancelha, incrédulo, e olhou para o buquê que segurava. — Eu tô no meio de uma floricultura, escolhendo um presente, e você me liga com essa loucura? Do outro lado da linha, Maurice bufou. — Floricultura? Pelo amor de Deus, Henzo, você tá tentando amansar Sol com flores? Ela vai rir na tua cara. Henzo suspirou fundo, apoiando uma das mãos no balcão. — Eu tava tentando ser diplomático, é crime agora? — Diplomacia com Sol? — ironizou Maurice. — Ela vai pegar essas flores e te fazer engolir pétala por pétala. Henzo apertou os olhos, impaciente. — Então o que diabos você sugere? — Faz o que eu tô mandando — disse Maurice, firme. — Aluga um carro importado e deixa ela dirigir. Dá poder a ela, deixa sentir que tem o controle… é a única forma dela baixar a guarda. Henzo soltou uma risada curta e descrente. — Você tá me pedindo pra entregar um carro de luxo na mão de uma garota que dirige igual uma maluca? — Tô te pedindo pra sobreviver, Henzo — retrucou Maurice. — Se Sol não for ao casamento de Barão e Lupita, o conselho vai querer a sua cabeça. Henzo olhou novamente para o buquê, o cheiro agora o enjoando. — Tá bom, tá bom. Eu faço isso. Mas se ela destruir o carro, eu jogo a culpa em você. Maurice deu uma risada breve. — Se ela destruir o carro, você já vai estar mort0 mesmo. Então aproveita a viagem. — E desligou. Henzo olhou o celular por um momento, resmungando baixo: — i****a. Depois virou-se para o atendente e apontou para o buquê que já estava pago. — Pode ficar com isso. Dá pra alguma noiva infeliz. Saiu da floricultura bufando, o sol forte refletindo nos vidros do hotel ao lado. Enquanto caminhava para o estacionamento, ligou para a locadora de luxo indicada por Maurice. — Quero o melhor carro que vocês tiverem — disse, curto e grosso. — Preto, novo e com tanque cheio. Fez uma pausa e completou: — E de preferência, com seguro. Enquanto esperava o carro ser preparado, acendeu um cigarro, olhou para o alto do hotel e murmurou, entre os dentes: — Vamos ver se você continua com essa marra quando te der o volante, Sol… bandida. Henzo voltou ao hotel com o peso da decisão ainda na garganta. Ao abrir a porta do quarto, encontrou Sol estirada no sofá, completamente entediada, mexendo no controle da TV como se a vida inteira dependesse da programação. — Sol — chamou ele, seco — se veste. Vamos comprar o vestido e tudo que você precisa pro casamento de amanhã. Ela nem olhou para ele. Só levantou uma sobrancelha, tipo: “Tá falando comigo, ou com a TV?” — Tá vendo como você me ignora? — resmungou ele, se aproximando. — A gente tem um problema sério aqui, Sol. — Problema? — ela fingiu espanto, ainda segurando o controle — O problema é você falando demais, Henzo. Henzo respirou fundo, contornando a frustração com uma pontada de humor: — Tá bom, princesa, vou simplificar. Preste atenção: se você não se vestir agora, vai passar o resto do dia me irritando… e eu posso ser c***l quando irritado. Sol finalmente lançou-lhe um olhar, tipo: “Crueis? Você? Hahaha!” — e voltou a mexer na TV. Henzo suspirou, jogando as mãos para o alto. Então, pegou-a pelo braço, firme, mas sem machucar, e a arrastou até a janela. Lá fora, no estacionamento, reluzia o importado preto, impossível de ignorar. — Tá vendo aquele carro, Sol? — disse ele, olhos fixos nela. — Ele está esperando você amassiar ele.
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