Sol precisou pensar e agir rápido.
Ou retomava o jogo naquele instante, ou perderia todo o terreno que tinha conquistado até ali.
Respirou fundo, ergueu o queixo e deixou que um sorriso debochado surgisse nos lábios.
— Até que não foi tão r**m assim — disse, com um tom leve, quase preguiçoso, como se falasse de algo sem importância.
Henzo arqueou uma sobrancelha, surpreso com a calma dela.
Sol deu mais um passo à frente, os olhos firmes, a voz carregada de ironia.
— Mas, sinceramente? Já vivi emoções mais intensas sozinha, no banho, mas, como estou na seca, você quebrou meu galho.
Henzo ficou imóvel por um instante.
O olhar dele se estreitou, a respiração pareceu prender no ar.
Sol deu de ombros, mantendo o sorriso provocante.
— De qualquer forma, obrigada. Foi… educativo.
Henzo riu sem humor.
— Educativo?
— É. Agora sei exatamente até onde posso te desestabilizar — retrucou, passando por ele com o ar mais tranquilo do mundo, como se não tivesse acabado de incendiar a atmosfera entre os dois.
Henzo virou lentamente, acompanhando-a com os olhos.
Ela caminhava com calma, o corpo ainda coberto apenas pela toalha, mas a confiança voltava a cada passo.
Ele passou a língua pelos lábios, a voz grave soando atrás dela:
— Cuidado, Sol. Brincar com fogo… pode queimar mais do que imagina.
Sol olhou por cima do ombro, o sorriso ainda ali, afiado.
— E quem te disse que eu tenho medo de queimadura?
Henzo respirou fundo, tentando recuperar o controle da própria voz e dos próprios pensamentos. Ainda sentia o gosto dela, o calor, o arrepio que o corpo insistia em lembrar. Mas antes que dissesse qualquer coisa, Sol ergueu a mão num gesto seco.
— Henzo… — a voz dela soou firme, mesmo com o tom rouco de quem ainda tentava se recompor. — Eu vou tomar um banho.
Ele arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.
— Espere, Sol. — disse, num tom mais calmo, quase estratégico. — Você precisa escolher o vestido que vai usar amanhã no casamento de Barão e Lupita.
Ela parou por um instante, a mão já no trinco da porta do banheiro. Virou o rosto o suficiente para encará-lo, os olhos ainda brilhando com aquele misto de desafio e ironia.
— Ainda não sei se estarei com disposição para ir.
Henzo estreitou o olhar, o maxilar travado.
— Não é um convite, Sol. É uma ordem.
Ela soltou um riso curto, debochado, e abriu a porta.
— Pois é, Henzo… — disse antes de entrar. — Eu nunca fui boa com ordens.
A porta bateu com força, deixando o som ecoar pelo quarto.
Henzo ficou parado no meio da sala, a mão passando lentamente pelo cabelo, respirando fundo.
A raiva vinha misturada com algo pior: a incerteza.
Sol era imprevisível.
E, naquele momento, ele tinha plena certeza de uma coisa — iria ter problemas para convencê-la.
Ele olhou para a porta fechada do banheiro, um meio sorriso cansado surgindo nos lábios.
— Problemas… e dos grandes — murmurou.
Henzo ficou imóvel por um instante, o silêncio pesado preenchendo o quarto. O som da água correndo no chuveiro vinha abafado, mas cada gota parecia marcar o compasso da inquietação dele.
Ele cheirou e depois chupou os próprios dedos que tinha cheiro e gosto do praz£r de Sol.
— Bandida… — murmurou baixo, mais para si mesmo do que para o ar.
O celular de Henzo começou a vibrar sobre a cômoda, quebrando o silêncio pesado que restara entre ele e Sol. Ele olhou o visor e viu o nome de Maurice piscando.
Suspirou fundo, passou a mão pelos cabelos ainda desgrenhados e foi atender — mas não ali. Não queria que Sol ouvisse.
Saiu do quarto com passos firmes, ajustando a gravata meio solta e fechando a porta com cuidado. Caminhou pelo corredor do hotel até uma área mais reservada, próxima a uma sacada lateral, onde o vento frio da noite batia com força. Só então deslizou o dedo na tela e atendeu.
— Fala, Maurice.
Do outro lado, a voz grave e direta do parceiro soou como de costume:
— Comprou o presente de casamento do Barão e da Lupita? A cerimônia é amanhã, não me venha dizer que esqueceu.
Henzo deu um meio sorriso cansado. — Já está resolvido. Mas eu tenho um probleminha.
— Qual? — Maurice perguntou, seco, já pressentindo encrenca.
Henzo encostou o ombro na parede, olhou para o horizonte escuro e respondeu:
— Sol não quer ir.
Houve um silêncio curto, seguido de um riso contido.
— Henzo… Sol ainda vai fazer dezenove anos. Você não pode deixar uma menina te colocar no bolso.
Henzo riu de canto. — Olha quem fala… o Dom que quase abandonou o império por uma garota de dezoito.
— É diferente.
Henzo arqueou a sobrancelha, provocando:
— Claro que é. Eu não estou apaixonado feito um i****a como você.
Maurice soltou uma risada curta do outro lado da linha — daquelas que vinham carregadas de ironia e um certo tom de desafio.
— É mesmo, Henzo? — provocou ele. — Pois me parece que você está indo pelo mesmo caminho…
Henzo recostou-se na parede fria do corredor do hotel, o olhar perdido no vazio. O corredor estava silencioso, iluminado por luzes amareladas que davam ao ambiente um ar quase teatral.
— Não se engane — respondeu, seco. — Eu só quero que ela me obedeça.
— Obedeça? — Maurice repetiu, rindo baixo. — Você não está criando uma soldada, Henzo. Está lidando com uma garota que aprendeu a sobreviver sozinha com a mãe.
Henzo fechou os olhos por um instante, inspirando fundo. — Eu sei o que estou fazendo.
— Sei… — Maurice respondeu, agora mais sério. — Mas lembre-se: controlar alguém como Sol é o mesmo que brincar com fogo. Você pode até aquecer as mãos… mas vai se queimar.
Henzo olhou para o relógio, impaciente. — Quer me dar sermão agora ou quer falar do Barão?
Maurice prosseguiu:
—Vocês estão aí para representar a máfia francesa. Se sua futura esposa não aparecer, ele vai ver como um desrespeito. E você sabe o preço disso.
Henzo cerrou o maxilar. — Eu dou um jeito.
— Espero que dê — respondeu Maurice, num tom que os dois sabiam significar.
A ligação terminou.
Henzo guardou o celular no bolso e ficou ali parado, olhando o chão por um instante. Passou a mão pelo rosto, exalando um suspiro cansado.