Antecedência

1259 Palavras
Sol cumpriu exatamente o que havia dito. Na delegacia, manteve a postura impecável, respondeu o necessário e, sem demonstrar emoção, retirou a queixa contra Henzo. O delegado, confuso com a mudança repentina, ainda tentou confirmar se ela tinha certeza, mas o olhar firme dela bastou. Quando saíram, Henzo abriu a porta do carro pra ela em silêncio. Nenhum dos dois falou no caminho de volta. O ar estava pesado, mas não de raiva — e sim de tensão contida. Ao chegarem ao hotel, o gerente os esperava no saguão, nervoso, e informou que o quarto deles precisaria ser trocado. Sol arqueou a sobrancelha, sem esboçar arrependimento algum. — Quebrou tudo, foi? — perguntou Henzo, sem disfarçar o tom irônico. Ela o olhou de lado, um meio sorriso brincando nos lábios. — Quase tudo. — respondeu. — Mas não o que merecia ser quebrado. Henzo balançou a cabeça, respirando fundo, enquanto o gerente entregava as novas chaves com um cuidado excessivo — provavelmente temendo outra cena parecida. No novo quarto, a atmosfera era mais tranquila. Ele cumpriu o que prometera: levou Sol até uma loja luxuosa, e ela escolheu o celular que quis — o mais caro, o mais sofisticado, o mais moderno. Não pediu permissão, apenas apontou o modelo e disse: — Esse. Henzo apenas passou o cartão. De volta ao hotel, Sol sentou-se na cama, desbloqueou o aparelho e, com um brilho genuíno nos olhos, ligou primeiro pra Violeta. — Eu tô ótima, amiga. — disse, sorrindo. — Melhor do que você imagina. A risada de Violeta do outro lado da linha trouxe um alívio real, quase imperceptível. Depois, ela ligou pra Mãe Madaleine. A voz da mulher, terna e firme como sempre, encheu o quarto de uma paz que Sol não sentia há dias. — Filha, está tudo bem mesmo? — perguntou Madaleine, com aquele tom de quem enxerga além das palavras. — Tá sim, Mãe. — respondeu, suavizando o tom. — Eu tô bem. De verdade. Enquanto isso, Henzo conversava ao telefone no canto da sala. Do outro lado da linha, Maurice falava baixo, mas direto: — Não a confronte, Henzo. — alertou, com a seriedade que o cargo exigia. — Pelo menos enquanto estiverem no Brasil. Ela tem apoio, tem visibilidade… e você não precisa de mais escândalos agora. Henzo passou a mão pelo cabelo, respirando fundo. — Você tá me pedindo pra deixá-la no controle, é isso? — Tô te pedindo pra ser inteligente. — respondeu Maurice. — Quando voltarem pra França, você resolve como quiser. Mas aí, deixe Sol acreditar que está vencendo. Isso pode salvar vocês dois e a máfia francesa. Henzo olhou para o reflexo dela no espelho — sentada na cama, rindo leve com a mãe, o cabelo solto e o celular novo nas mãos — e sentiu algo que não sabia nomear. Raiva, desejo, rendição… talvez tudo junto. E, pela primeira vez, ele entendeu o que Maurice quis dizer: Enquanto estivessem no Brasil, era mais seguro deixar Sol no comando. Sol finalmente se despediu da Mãe Madaleine quase uma hora depois, com a voz mais leve e um cansaço bom nos olhos. Guardou o celular com cuidado, como se fosse um símbolo da liberdade que acabara de conquistar. Henzo se aproximou devagar, como quem se aproxima de um animal selvagem que, se provocado, morde sem pensar duas vezes. — Sol… — começou, a voz surpreendentemente cuidadosa — você poderia mudar de ideia e me acompanhar no compromisso? Sol o encarou e abriu um sorriso lindo… perigoso. — Henzo, querido… — disse com doçura venenosa — uma coisa que você vai aprender sobre mim: eu nunca mudo de ideia. Eu não vou com você. Fez uma pausa e acrescentou, como se ele não tivesse importância alguma: — E falando em compromisso… vou descer. Estou morrendo de fome. Henzo franziu o cenho, os braços cruzados numa última tentativa de controle. — Então… se você não vai comigo… pelo menos almoce no quarto. — sugeriu. Sol piscou devagar, inclinando a cabeça com sarcasmo elegante. — E por qual motivo eu almoçaria no quarto? Henzo abriu a boca… mas nada saiu. Ele não diria que era porque todos os olhares sobre ela o incomodavam profundamente. Porque ter todos os homens admirando sua esposa… o deixava louco. — Nada. — respondeu seco. — Só é mais seguro aqui. Eu não estarei no hotel. Sol deu um sorriso aberto, debochado, e o encarou como quem fere sem encostar. — Não vejo por que ter medo. Afinal… sou casada com um mafioso. E com essa frase, ela passou por ele, abriu a porta e saiu como se desfilasse — deixando um perfume doce e vitória no ar. Henzo ficou parado, observando a porta se fechar. O silêncio do quarto pareceu zombar dele. E então a verdade caiu como chumbo em seu peito: Se queria Sol ao seu lado no casamento do Barão e de Lupita no dia seguinte… teria que se humilhar. Teria que baixar a cabeça para a fera que ele mesmo soltara. Ele passou a mão pelo rosto, sentindo a derrota amarga. Pelo menos por algumas horas… ele não ousaria mexer com ela. Henzo se lembrou, como um estalo incômodo na memória, da regra que Sol havia imposto: se quisesse a companhia dela, teria que avisar com antecedência. Ele respirou fundo, ajeitou o terno e desceu até o restaurante do hotel. Encontrou Sol sentada à mesa, folheando o cardápio como se o mundo estivesse perfeitamente sob seu controle. Ele puxou uma cadeira e se sentou sem pedir permissão. Sol ergueu uma sobrancelha. — Vai almoçar? — perguntou, seca. — Já fiz meu pedido. Henzo tentou manter a postura de “chefe da máfia”, mas a voz saiu mais cuidadosa do que ele gostaria. — Amanhã é o casamento do Barão e da Lupita. E nós precisamos ir. — declarou, como quem comunica algo inevitável. Sol fechou o cardápio com calma. — Vou pensar. — disse simplesmente. Henzo respirou fundo, sentindo o peso do orgulho ferido junto com a paciência sendo esmagada. O garçom chegou e serviu o almoço de Sol, se retirando logo em seguida. — O que você quer, Sol? — ele perguntou, sério, como se estivesse tratando com um negociador profissional. Ela pousou os talheres com calma, limpou o canto dos lábios com o guardanapo e o encarou com uma serenidade provocante. — Não é sobre o que eu quero, Henzo… é sobre quando eu quero. — Ela inclinou a cabeça, divertida. — E agora… não estou com vontade de casamento nenhum. Henzo cerrou os dentes, mas tentou manter a compostura. Maurice havia sido claro: não a confronte no Brasil. — Nós viemos para cá por causa disso, Sol. — disse ele mais baixo. — Apenas isso. Ela deu um sorriso cínico. — Pois então compareça ao casamento sozinho e diga a todos que sua noiva ficou… com preguiça. Ele se inclinou sobre a mesa, os olhos queimando. — Sol… sua...— a voz saiu como um aviso. Ela levantou o queixo, desafiando: — Fala direito comigo, Henzo. Só isso. — E voltou a comer, como se ele fosse um detalhe irrelevante no ambiente. Henzo achou aquilo um absurdo, mas respirou. Ele estava aprendendo — com Sol, ou ela te dobrava. — Está bem… — ele disse, forçando calma. — Podemos conversar sobre isso… depois do almoço? — Podemos — ela respondeu, bem satisfeita com a resposta adequada, sem nem olhar para ele. Ele engoliu o orgulho seco enquanto ela parecia saborear cada pedacinho da comida sem olhar pra ele.
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