Lembre Constante

974 Palavras
— Assim que chegarmos na França, eu volto a estudar. — disse Sol, firme, sem olhar pra ele. Henzo ergueu os olhos, incrédulo. — Isso não. Tá maluca? Ele empurrou a cadeira pra trás e se levantou, o corpo inteiro tomado por tensão. Sol, sem se abalar, levantou lentamente o olhar e disse com a voz baixa, porém cortante: — Sente-se. Eu ainda não terminei. Henzo ficou parado por um instante, como se estivesse avaliando até onde ela ousaria ir. — Mulheres de mafiosos não estudam, Sol. — disse, num tom frio, como quem dita uma regra antiga. Ela arqueou uma sobrancelha, o sorriso voltando, sarcástico. — Eu vou estudar. — respondeu, pausadamente. — Quero dar continuidade à minha faculdade. — Não. — ele rebateu de imediato. — Não, não e não. Sol girou o pescoço de leve, um estalar discreto ecoando, e então falou com doçura disfarçada: — Eu posso estalar os dedos e falar sobre a máfia francesa… será o que os policiais vão achar disso, hein? Henzo parou. O olhar dele endureceu. Por um momento, o silêncio entre os dois pareceu mais perigoso do que qualquer ameaça. Ele se sentou devagar, os olhos cravados nela. — Você não faria isso. — disse, tenso, quase num aviso. Sol inclinou o rosto para o lado, um meio sorriso brincando nos lábios. — Pague pra ver. Ela não tinha coragem de fazer — nem pretendia —, mas ele não precisava saber disso. Sol sabia jogar. E pressionaria até onde pudesse. Henzo inspirou fundo, o maxilar marcado pela raiva e pela rendição misturadas. — Tá bom, Sol. — disse por fim, vencido. — Mas teremos problema com isso. O conselho não aceitará. Ela apoiou o queixo na mão, olhando-o com serenidade provocante. — Então é um problema seu, não meu. — respondeu. — Resolva você com o conselho. Eu só quero estudar. Henzo ficou em silêncio, o olhar preso nela, e pela primeira vez percebeu o quanto Sol era mais perigosa quando falava calma do que quando gritava. Sol recostou-se na cadeira, olhando para ele como quem saboreia a própria vitória. — Já que chegamos a um acordo… — começou, deslizando o dedo sobre a borda da xícara vazia — tem mais algumas coisinhas. Henzo fechou os olhos por um segundo. — Lá vem. — murmurou, baixo. Ela continuou, impassível: — Quero um carro. Meu. Sem motorista me vigiando. — Absurdo. — ele respondeu de imediato. — Não perguntei sua opinião, só estou informando. — disse ela, calma, o olhar fixo. — E também quero ter livre acesso à conta que está no meu nome. Henzo a olhou, incrédulo. — Sol, você não tem noção do que está pedindo. — Tenho. — retrucou, seca. — E ainda não terminei. Quero poder sair quando quiser, sem escolta armada me seguindo a cada esquina. Henzo deu uma risada sem humor. — Agora exagerou. Sol inclinou-se sobre a mesa, os olhos faiscando: — Eu disse que estou só começando, lembra? Ele ficou quieto por alguns segundos, o olhar alternando entre irritação e admiração. Por fim, soltou um suspiro pesado. — Tá bom. — disse, rendido. — Tudo isso… mas com uma condição: você não me desafia em público. Sol sorriu, satisfeita. — Fechado. Henzo passou a mão no rosto, exausto, como quem reconhece que perdeu uma batalha que nunca deveria ter começado. — Pode avisar aos policiais que podem ir. — disse, num tom leve, quase entediado. Henzo a observava em silêncio, ainda tentando entender em que momento ela passou de “interrogada” a quem dava as ordens. — E retirarei a queixa também. — completou, olhando para ele com um sorrisinho. — Afinal, já consegui o que queria. Henzo a encarou, sem saber se queria beijá-la ou esgana-la. — Você é insuportável, Sol. Sol arqueou uma sobrancelha, o sorriso cheio de veneno e charme. — Será um prazer continuar sendo ainda mais… pra você. — disse, a voz baixa e provocante. Henzo soltou um riso breve, sem humor. — Depois de irmos à delegacia e você retirar a queixa, vamos a um almoço de negócios. — anunciou, tentando retomar o controle da situação. Sol cruzou as pernas, apoiando o braço na mesa com elegância ensaiada. — Bem lembrado, Henzo. — disse com falsa doçura. — Sobre esses seus “almoços e jantares de negócios”, quero que me comunique com antecedência. Hoje, por exemplo, não estou disponível. Henzo arregalou os olhos, sem acreditar no que ouvia. — Como é, Sol? Ela inclinou o rosto, fingindo pensar. — O que você ouviu. Sempre que me informar de algo que me envolva em cima da hora, eu não estarei disponível. Henzo bufou, o maxilar travado. — E o que inferno você vai fazer agora que não pode me acompanhar a um almoço de negócios? Sol apoiou o queixo na mão e o encarou com um olhar calmo, perigoso. — Nada, Henzo. Não farei nada. — respondeu, sem piscar. — É só pra te informar que, pra você, eu não estou disponível o tempo todo. O silêncio se instalou entre eles. Ela o olhava com serenidade; ele, com incredulidade e raiva contida. — As coisas não serão como você quer, querido. — completou, um sorrisinho satisfeito no canto da boca. — Acostume-se com a ideia. Henzo ficou imóvel por alguns segundos, absorvendo o golpe. Pela primeira vez, parecia que Sol não era apenas uma mulher atravessando o caminho dele — era uma força que ele não conseguia dobrar. E isso o deixava louco. Ela pegou a bolsa, levantou-se com elegância e disse antes de virar as costas: — Agora, vamos à delegacia. Depois, se quiser mesmo almoçar, sugiro que encontre outra companhia. Hoje… você almoça sozinho. Henzo a observou sair, o som dos saltos ecoando pelo salão como um lembrete constante de quem realmente estava no comando.
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