Sol olhou para a porta, depois para Henzo, o olhar firme, o queixo erguido, mas o peito subindo e descendo num ritmo que ela lutava para disfarçar. A tensão ainda vibrava no ar, densa, quase palpável.
— Vaza. — disse, a voz fria, cortante. — Saia. Agora.
Henzo permaneceu por um segundo onde estava, os olhos cravados nela, como se desafiasse a ordem. Mas havia algo na forma como ela disse aquilo — uma mistura de comando e vulnerabilidade escondida — que o fez recuar. Sem mais uma palavra, ele virou o corpo e saiu, batendo a porta atrás de si.
O som ecoou pelo quarto, e então o silêncio veio pesado. Sol continuou de pé, imóvel, olhando para a madeira fechada, o coração disparado no peito. Só quando teve certeza de que ele não voltaria, soltou o ar que prendia desde o momento em que ele a beijara.
Foi como se o corpo inteiro dela lembrasse de respirar de novo.
A perna fraquejou, e ela apoiou as mãos na penteadeira, o espelho à frente revelando o reflexo de uma mulher que tentava parecer intacta. Tentava — porque a pele ainda queimava onde ele a tocara, a boca latejava com o gosto do beijo, e o corpo inteiro pulsava em desordem.
Mas Sol era orgulhosa demais para admitir. Nem pra si mesma.
Endireitou a postura, ergueu o queixo e observou o próprio reflexo com um meio sorriso irônico.
— Controle, lembra? — murmurou para si, os lábios ainda trêmulos. — Quem manda aqui sou eu.
Mesmo dizendo, sabia que uma parte dela mentia. Porque, por mais que tivesse virado o jogo, o beijo de Henzo deixara marcas invisíveis — e ela sentia cada uma.
Minutos depois, Sol desceu. O barulho dos saltos ecoava no piso de mármore do corredor, ritmado e seguro — como se cada passo fosse calculado para reafirmar que ela continuava no comando. Henzo já a aguardava no salão, sentado à mesa ampla do hotel, a postura ereta e o semblante tenso.
Assim que ela entrou, o ambiente pareceu mudar. Conversas diminuíram, olhares desviaram discretamente para a morena que caminhava com elegância natural, os cabelos ainda úmidos caindo sobre os ombros. A mesma sensação de sempre — todos os olhos em Sol — e Henzo, mesmo sem admitir, sentiu. Sentiu e odiou. Porque, de todas as mulheres naquele salão, ela era a mais bonita. A mais viva. A mais provocante.
Sol se aproximou, ajeitou a cadeira e sentou-se com calma, cruzando as pernas.
Henzo quebrou o silêncio primeiro, a voz firme, porém rouca de irritação:
— Sol, deixe de palhaçada e mande os policiais irem embora.
Ela ergueu os olhos do cardápio, arqueando uma sobrancelha, um sorriso leve brincando nos lábios.
— Eu vou tomar meu café. — disse, serena. — Depois, a gente tenta entrar em um acordo. Aí, quem sabe, eu penso se eles vão embora… ou se você volta pra cadeia.
Henzo apertou o maxilar, respirando fundo. Ela se virou para o garçom e fez o pedido em português brasileiro, sem sotaque, fluente, a voz macia e natural. O homem sorriu, encantado, antes de se afastar.
Henzo, por sua vez, não olhou o cardápio.
— Um café. — disse, seco. — Sem açúcar.
O garçom anotou e saiu, deixando o ar carregado entre os dois.
Sol apoiou o queixo na mão, estudando Henzo com um brilho divertido nos olhos.
— Está irritado, amor?
Ele manteve o olhar fixo nela, os dedos tamborilando na mesa.
— Estou com fome. — respondeu, frio. — Mas minha raiva é maior.
Sol sorriu de canto, satisfeita, e disse quase num sussurro:
— Que Peninha.
O café não demorou a chegar a mesa.
Sol levou a xícara aos lábios devagar, saboreando o café como se o tempo girasse ao redor dela — e talvez girasse mesmo. Cada movimento era calculado, cada olhar medido para tocar onde ela sabia que doía em Henzo.
Ela cruzava e descruzava as pernas com elegância, a bainha do vestido subindo sutilmente; mexia no cabelo, deixava o perfume espalhar no ar, falava com o garçom num tom leve demais. Henzo observava tudo em silêncio, o maxilar travado, os dedos fechando e abrindo num ritmo contido de fúria.
— Está quente — ela comentou, soprando o vapor do café, fingindo inocência. — Mas eu gosto assim. Queima… desperta.
Henzo desviou o olhar por um segundo, mas logo voltou a encará-la.
— Termina logo com isso, Sol.
Ela sorriu, provocante.
— Mas eu ainda nem comecei. — Deu mais um gole lento, os olhos fixos nele. — Você parece nervoso.
— Nervoso não. — Ele se inclinou um pouco, a voz baixa e grave. — Só estou tentando não perder a paciência.
Ela riu, curta e melodiosamente. — Que gracinha… tentando.
O tempo se alongou. Henzo m*l tocou no café; Sol, por outro lado, fez da bebida uma arma de tortura. Tomava um gole, mexia a colher, olhava o relógio, sorria e comia seu pãozinho lentamente. Um espetáculo particular, e ele era a plateia forçada.
Quando o garçom finalmente voltou para recolher a mesa e se afastou, Sol se recostou na cadeira, cruzou os braços e olhou diretamente para ele.
— Agora, vamos conversar, querido.
Henzo soltou um riso seco, quase um suspiro de alívio e irritação.
— Finalmente, princesa. Pensei que não terminaria nunca.
Sol inclinou o corpo para a frente, os cotovelos apoiados na mesa, e a voz veio firme:
— Não se esqueça que as regras sou eu quem dita. Primeiro ponto: quero um celular. E você não vai me impedir — nunca mais, enquanto respirar — de conversar com a minha amiga e com a minha mãe. Não se atreva.
Henzo a olhou em silêncio por alguns segundos, avaliando o tom dela, a firmeza, o olhar que não tremia. Depois, assentiu com um movimento quase imperceptível.
— Ok.
Mas logo completou, em tom de ordem:
— Agora mande os policiais irem embora.
Sol soltou uma risadinha baixa, cruzando as pernas de novo, o olhar brincando de desafio.
— Calma, meu bem… — disse, com doçura envenenada. — Estou só começando.
Ela se inclinou para trás, relaxando na cadeira, e acrescentou com ironia suave:
— Você não vai querer me apressar justo agora, vai?
Henzo respirou fundo. A paciência dele era um fio fino — e ela, com prazer, dançava em cima dele.