Henzo ficou ali, parado, respirando fundo, como um animal selvagem enjaulado. Não era medo — era o peso do controle que ele lutava para manter. As narinas inflavam, os punhos fechavam e abriam, o maxilar trabalhava como uma engrenagem prestes a quebrar. A cada segundo que passava, a sensação era a mesma: estava no território dela. Não importava o quanto o mundo lá fora obedecesse às suas ordens; ali dentro, entre paredes arranhadas e cacos de vidro, Henzo estava nas mãos de Sol.
Ela percebeu. Claro que percebeu. Sol não só sentia isso como se alimentava dessa tensão. Sua risada baixa cortou o ar, arrastada, quase felina.
— É engraçado ver você assim, Henzo. Tão grande… e preso num quarto. Preso em mim. — ela deslizou a ponta do dedo sobre a própria clavícula, sem pressa, os olhos fixos nos dele. — Não é bonito?
Ele engoliu em seco, o peito subindo e descendo devagar.
— Não se iluda, Sol. Isso não vai durar.
Ela riu de novo, inclinando-se levemente para ele, como quem dá o bote.
— Vai durar o quanto eu quiser. — o tom era baixo, afiado. — E olha só… os policiais estão do meu lado. Você acha mesmo que eles estão aqui para te proteger?
Henzo fechou os olhos por um instante, tentando se recompor. Quando abriu, o olhar era de aço, mas ainda assim ele não se mexeu.
— Você está jogando um jogo perigoso demais.
— Sempre joguei, amor. — ela se endireitou, puxando a barra da camisola como se fosse um vestido de gala. — A diferença é que você está acostumado a jogar com peças que tremem. Eu não tremo. — deu um passo, agora tão próxima que sentiu o calor do corpo dele. — E quer saber a pior parte? Você sabe que tá perdendo pra uma mulher que você diz ser uma pirralha
O canto dos lábios de Henzo tremeu — não era sorriso, era raiva misturada a algo que ele não queria nomear. Ele se inclinou, a voz grave, quase um sussurro:
— Você acha que me conhece?
Sol ergueu o queixo, o olhar faiscando.
— Não preciso e nem quero, sei o bastante, sei que você é um i****a. — roçou os dedos na gravata dele, devagar, quase um carinho. — Sei quando você acha que está no controle… e sei quando não está.
Henzo segurou o pulso dela, mas sem a força habitual. Era uma prisão simbólica, nada mais.
— Isso não vai durar, Sol, estou te avisando e por isso, repetindo.
Ela arqueou uma sobrancelha, sorrindo de canto.
— Então vire o jogo, Henzo. — falou baixo, quase desafiando. — Se conseguir.
Ele ficou em silêncio. O peso das palavras dela ecoava no peito. Pela primeira vez, não tinha resposta. E isso — isso era o que mais o irritava.
Sol inclinou o corpo, os lábios a um sopro do ouvido dele:
— Enquanto isso, respira fundo. Lembra que agora é a minha vez.
Ela se afastou com a mesma calma com que um predador se afasta do animal capturado, caminhando até o banheiro sem olhar para trás. O som da porta se fechando, o barulho da água caindo no chuveiro, tudo parecia um aviso: por horas, talvez por dias, Henzo estava no tabuleiro dela.
Ele ficou de pé, imóvel, olhando para o vazio, a fúria crescendo por baixo da pele. Não fazia ideia de quando viraria o jogo. E o pior — não sabia se ainda seria capaz de virar.
O vapor saiu primeiro, denso, escapando pela porta entreaberta do banheiro. Depois, veio Sol. A toalha justa moldava o corpo ainda úmido, gotas deslizando pelo colo e sumindo no tecido branco. O cabelo solto, pesado de água, caía pelas costas como se fosse parte da provocação. Na penteadeira, ela abriu o vidro do hidratante e começou a espalhar devagar pelas pernas, os movimentos longos, sensuais, como se estivesse sozinha — mas, claro, sabendo muito bem que ele a devorava com os olhos.
Henzo não resistiu. O corpo dele moveu-se antes da mente calcular as consequências. Em dois passos, estava sobre ela. Segurou seu rosto com firmeza e a beijou com raiva, com gosto, como quem precisava recuperar o controle arrancado. Foi intenso, bruto, desesperado.
Sol correspondeu por um instante — não pela entrega, mas pelo prazer de sentir o quanto ele estava perdido nela. Então, sem aviso, ergueu a mão e deu um tapa seco no rosto dele, cortando o ar.
Henzo congelou, os olhos queimando, a respiração descompassada.
Ela sorriu, erguendo o queixo como se fosse a dona da cena.
— Vai ter que aprender, Henzo… — a voz baixa, firme. — Só quando eu autorizar.
Ele respirou fundo, o rosto marcado pelo tapa, e deixou escapar entre os dentes:
— Pilantra.
Sol gargalhou, o som ecoando pelo quarto como uma vitória. O riso dela era insolente, leve, quase musical, mas carregado de veneno.
— Pilantra, não. — ela se aproximou, encostando o dedo indicador no peito dele, riscando devagar. — Você me acha uma putä de uma gostosa. Isso sim.
Henzo fechou os olhos por um segundo, como quem tenta se controlar, mas era inútil: ela estava certa.
Henzo respirou fundo, tentando se recompor depois do tapa. O rosto ainda ardia, mas não tanto quanto o orgulho. Ele fechou os punhos, obrigando a voz a sair firme, carregada de falsa calma.
— Não se iluda, Sol. Eu estou no controle. — disse, a mandíbula travada. — Já tive mulheres bem mais bonitas que você, na minha cama, de joelhos pra mim.
Sol virou o rosto devagar, primeiro para a toalha que ainda a cobria, depois para ele. Um sorriso preguiçoso e malicioso se abriu nos lábios dela. Sem pressa, soltou o nó e deixou o tecido deslizar pelo corpo, caindo ao chão. Ficou nüa, sem qualquer pudor, erguendo o queixo como quem assina uma sentença de vitória.
— Olha bem pra mim, Henzo. — ela girou o corpo, de frente, sem se esconder. — Acha mesmo que eu sou mulher de me sentir ofendida porque você vai a puteir0?
Henzo engoliu em seco, o olhar traindo a tentativa de manter firmeza.
Sol deu dois passos à frente, tão perto que ele sentiu o calor da pele dela.
— Não, né? — disse, a voz suave e irônica. — Porque, no fundo, você sabe…elas você precisa pagar, e eu? nem você, pagando eu quero.
Henzo apertou os dentes, mas o músculo do maxilar tremia. O coração batia descompassado, e por mais que tentasse sustentar a farsa do controle, sabia: ela tinha acabado de virar o jogo outra vez.