Sol dormiu plena, envolta no caos que ela mesma tinha criado, como se o quarto destruído fosse o ninho perfeito para seu descanso. O sorriso suave nos lábios denunciava a certeza absoluta: Henzo não fecharia os olhos naquela noite.
Na delegacia, Barão chegou imponente, acompanhado de dois homens. A presença dele já era suficiente para dobrar portas e fazer muitos tremerem, mas a delegada responsável pelo caso sequer piscou. Mulher firme, olhar duro, sem se intimidar diante de sobrenomes poderosos ou rumores sobre quem estava à sua frente.
— Ele só sai amanhã cedo. — disse em tom seco, cruzando os braços. — Não interessa quem ele seja, está no Brasil e aqui as regras são nossas.
Barão manteve a compostura, mas por dentro ardia de raiva. Estava acostumado a ver a polícia ceder em minutos, e agora se via diante de uma muralha que não se movia. Maurice, decidiu confiar na palavra de Violeta que Sol não falaria nada comprometedor.
— Delegada… — Barão insistiu, ainda com sua calma habitual. — Tenho certeza que podemos resolver isso de outra forma.
— A outra forma é esperar. — ela cortou, seca. — Amanhã, às oito da manhã, ele sai. Até lá, fica detido.
Barão fechou a cara. Sabia que não tinha muito o que fazer. Henzo estava no Brasil, e por mais poder que tivesse, havia momentos em que a soberania do país falava mais alto.
Henzo, do outro lado da grade, ouviu tudo em silêncio. Não pediu que Barão insistisse, não se explicou. Apenas encarou Barão com aquele olhar sombrio, pesado, que dizia sem palavras o tamanho da sua fúria.
Enquanto isso, Sol dormia. Dormia como uma rainha que tinha vencido mais uma batalha.
E Henzo, já deveria ter aceitado a derrota da noite.
Henzo foi liberado como a delegada havia dito as oito da manhã, ele entrou no quarto ainda com o cheiro da cela impregnado na roupa, a fúria latejando no rosto. A porta bateu atrás dele, abafando o murmúrio da escolta que ficava plantada no corredor, segundo eles para proteger, Sol. O quarto ainda era o mesmo cenário de guerra da noite anterior: vidros espalhados, móveis tombados, arranhões nas paredes dos muitos jarros arremessados. Mas, no meio do caos, lá estava ela — Sol, dormindo profundamente, o tapa-olhos no rosto, o corpo entregue como se estivesse em um spa e não no epicentro de um furacão.
— Sol, acorde. — a voz dele saiu baixa, tensa, como quem luta para não explodir.
Ela bocejou, preguiçosa, puxou o lençol para cobrir melhor os ombros e se virou devagar. Levantou apenas um pouquinho o tapa-olhos, revelando um dos olhos semicerrados.
— Já voltou, marido? — disse com aquela calma insolente, como se ele tivesse apenas ido comprar pão.
Henzo fechou os punhos, o maxilar travado. — Você é mesmo uma desgraçada, Sol.
O sorriso dela se abriu, preguiçoso, provocador. — Bom dia, meu amor.
— Sua cretina. — ele cuspiu as palavras, a voz carregada de raiva contida.
Ela se esticou como uma gata preguiçosa, tirou o tapa-olhos e piscou para ele.
— Eu tinha colocado o despertador para as dez. Tomaria meu café e depois iria até a delegacia te visitar… Mas já te liberaram? — ela arqueou a sobrancelha, zombeteira. — Que país de regras bosta esse.
Henzo respirou fundo, tentando não olhar para a porta, consciente dos dois policiais de plantão. Aproximou-se, a sombra dele cobrindo a cama.
— Sol… tem dois policiais na porta do quarto.
Ela sorriu de canto, os olhos faiscando de malícia e desafio.
— Ótimo. Então acho que você está apto para uma conversa de adulto… e não de ogro, que é o que você costuma ser.
— Você não tem noção do que fez… — murmurou, a mandíbula travada.
Sol se esticou na cama, preguiçosa, com um ar deliciosamente provocador.
— Tenho sim. Fiz você perder o sono. Fiz você suar frio dentro de uma cela. E fiz você lembrar que não manda em mim. — Ela ergueu o queixo, olhando diretamente para ele. — Ou acha que ia me proibir de falar com minha mãe e com Violeta sem pagar o preço?
Henzo estreitou os olhos, o controle lhe escapando pelas mãos.
— Você não mede consequências, Sol. Está brincando com fogo.
Ela riu, deitada entre travesseiros, sem pressa.
— Engraçado… eu durmo quando quero, onde quero, até em meio a estilhaços de vidro. Já você… — inclinou-se para frente, tirando o tapa-olhos e revelando o olhar faiscante. — Você não dormiu a noite inteira. E isso, Henzo… isso é vitória minha.
Ele respirou fundo, cerrando os punhos, e então se sentou na beira da cama, os olhos cravados nela.
— Você me tira do sério.
Sol se aproximou, tocando o ombro dele com a ponta dos dedos, num gesto suave que contrastava com as palavras ácidas.
—É só me devolver, marido.
Henzo puxou a mão dela, com força, mantendo-a presa entre os dedos.
— Não confunda as coisas.Você não tem carta branca pra fazer o que quiser.
Ela sorriu de canto, inclinando a cabeça.
— Então aprenda: comigo não tem coleira. Se quiser manter essa merda de casamento, vai ser desse jeito.
Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, só o som abafado do corredor do hotel ecoando. Lá fora, os policiais se revezavam atentos. Lá dentro, Sol e Henzo se olhavam como dois predadores num jogo perigoso.
Sol se levantou devagar, deixando o tecido leve da camisola deslizar sobre o corpo. A seda acompanhava cada curva, acentuando ainda mais o que Henzo tentava — e falhava — em ignorar. Ele desviou o olhar para a janela, mas não conseguiu esconder o rápido movimento dos olhos antes de virar o rosto.
Ela sorriu com malícia, parando diante dele.
— Aprecie a vista, Henzo. Mas lembre-se… essa vista não é sua. — piscou, provocadora.
Henzo fechou os olhos por um instante, buscando conter a fúria e o desejo que se misturavam.
— Você é insuportável, Sol.
Ela caminhou até a penteadeira, soltou os cabelos e ajeitou as mechas como se ele não estivesse ali.
— Vou tomar meu banho, pedir meu café da manhã… e só depois disso, talvez, conversamos.
Henzo se levantou de supetão, a voz baixa mas carregada de ordem.
— Sol, manda os policiais irem embora. Agora.
Ela virou o rosto por sobre o ombro, os lábios curvados em um sorriso perigoso, e levantou o dedinho no ar, balançando devagar.
— Não, não, querido… só depois da nossa conversa. Até lá, eles ficam. — se aproximou dele, os olhos brilhando de desafio. — Eu não sou mais sua prisioneira. Aqui, quem decide sou eu.
Henzo respirou fundo, a raiva latejando nas têmporas. Ele se aproximou até quase encostar nela, mas Sol não recuou — ao contrário, ergueu o queixo como se estivesse provocando uma fera.
— Você vai se arrepender disso, Sol — disse ele, a voz grave.
Ela inclinou o rosto, a centímetros do dele, e sussurrou:
— Não, Henzo. Quem vai se arrepender é você… por ter achado que podia me calar.