A delegacia parecia sufocante. O cheiro de café requentado, o barulho metálico das grades, os olhares curiosos dos policiais — tudo se misturava num pesadelo que Henzo jamais imaginou viver. Ele, um dos homens mais temidos da máfia francesa, agora sentado numa cadeira dura, com algemas frias prendendo-lhe os pulsos, à mercê de uma acusação feita pela mulher que ele achava que controlava.
O delegado tinha permitido apenas uma ligação. Henzo, sem pensar duas vezes, discou o número de Maurice.
A linha tocou uma, duas vezes, até que a voz grave e atenta surgiu do outro lado:
— Henzo, o que houve?
Henzo passou a mão pelo rosto, respirando fundo, como se tentasse expulsar o gosto amargo da humilhação.
— É a Sol, cara… ela enlouqueceu. Quebrou todas as coisas no hotel. — A voz dele saiu entrecortada de raiva e incredulidade.
Maurice ficou em silêncio por alguns segundos, o que fez Henzo apertar ainda mais o telefone contra o ouvido. Então, veio a resposta, firme e quase didática:
— Henzo… você vai ter que aprender a lidar com isso.
Henzo riu de forma seca, irônica, o eco ressoando pelo cubículo da delegacia.
— Sério, Maurice? Lidar? Me ajude com o fato de que estou na delegacia, preso como um i****a, enquanto ela se faz de vítima… e ainda me ameaça contar tudo. — A última palavra saiu em um sussurro carregado de fúria.
Do outro lado da linha, Maurice fechou os punhos sobre a mesa onde estava. A tensão era palpável mesmo pela distância. Ele sabia o tamanho do problema: Sol não era apenas uma mulher furiosa. Ela era uma bomba-relógio, e se explodisse, toda a máfia francesa poderia ir junto.
— Preciso de ajuda, Maurice — insistiu Henzo, mais baixo, mais sombrio.
Um silêncio pesado pairou, até que Maurice respondeu, cada palavra medida como um tiro certeiro:
— Vou dar um jeito.
Henzo fechou os olhos por um instante, tentando encontrar algum resquício de controle naquela espiral de caos. Mas, no fundo, sabia: Sol tinha mexido na única ferida que ele não podia permitir que ninguém tocasse. O medo não era dela contar sobre o quarto destruído — era dela abrir a boca sobre quem ele realmente era.
E, pela primeira vez em muito tempo, Henzo sentiu-se pequeno diante do tabuleiro que ele acreditava dominar.
Maurice desligou o telefone com Henzo e, sem perder tempo, discou outro número.
— Barão… preciso de você.
Do outro lado da linha, a resposta veio rápida, seca e sem rodeios, como sempre:
— Fale.
— Henzo e Sol foram parar na delegacia. A situação está complicada, ela está se fazendo de vítima e… ameaçando contar tudo.
Houve um silêncio curto, e então Barão soltou um suspiro carregado de peso.
— Eu não vou negar ajuda, Maurice. Mas entenda: só estou entrando porque, neste momento, sou o único com poder sobre a polícia brasileira.
Maurice fechou os olhos, aliviado por um instante.
— Obrigado, Barão. Eu sabia que podia contar com você.
— Não agradeça ainda. Vamos ver se consigo conter isso antes de se tornar um escândalo internacional. — A ligação terminou.
Maurice largou o telefone e começou a caminhar de um lado para o outro, nervoso. O relógio da parede parecia zombar dele com cada tique-taque, como se o tempo corresse contra toda a estrutura da máfia francesa.
Foi então que ouviu passos suaves ecoando pelo corredor. Ao se virar, viu Violeta entrando, com aquele ar sereno que contrastava com a tensão que consumia o ambiente.
— O que aconteceu? — perguntou, cruzando os braços, o olhar firme sobre ele.
Maurice soltou o ar pesadamente.
— Sol e Henzo estão na delegacia. Ela está ameaçando contar sobre tudo.
Violeta arqueou uma sobrancelha, quase com ironia.
— E você perdeu o sono por esse motivo?
— Claro! — explodiu Maurice, jogando as mãos para o alto. — Estamos falando de um império, Violeta! Se Sol abrir a boca, não é só Henzo que cai, somos todos nós!
Ela deu um passo à frente, a voz baixa, mas cortante como lâmina.
— Sol jamais faria isso. Ela só está colocando Henzo no devido lugar dele. Certamente, ele deve ter confrontado ela quando, na verdade, deveria ter cedido.
Maurice franziu o cenho, cético.
— Tem certeza?
Violeta sustentou o olhar dele, sem vacilar.
— Absoluta. Sol pode ser explosiva, imprevisível, provocadora… mas nunca faria algo que colocasse Madá em perigo. E contar sobre a máfia seria isso: condenar a mãe. — fez uma pausa, firme, como quem selava um destino. — Sol não é burra, Maurice. Ela só está mostrando a Henzo que não se dobra a ninguém.
Maurice ficou em silêncio, digerindo as palavras. Parte dele queria acreditar, mas outra parte ainda sentia o peso da ameaça de Sol.
Violeta, porém, parecia segura demais de sua análise — como se conhecesse Sol melhor do que o próprio Henzo.
Na delegacia, antes mesmo de Barão mexer os fios, Sol já estava sentada diante da delegada, um copo de café fumegante entre os dedos. O cheiro amargo subia, e ela parecia mais calma do que horas atrás.
— Delegada… — começou num tom baixo, levemente rouco — eu e meu esposo usamos drogas ilícitas. Eu… eu fiquei descontrolada. Não tenho certeza do que aconteceu.
A delegada a mediu com os olhos, experiente, nada fácil de dobrar.
— Você está tentando proteger ele?
Sol respirou fundo, baixou o olhar e respondeu com doçura calculada:
— Ele é um marido bom. Eu realmente não sei o que aconteceu.
Silêncio. A delegada encostou na cadeira, fechou o bloco de anotações e sentenciou:
— Vou liberar você. Mas ele fica. Só será liberado amanhã. Você vai pra casa, dorme… e pensa direitinho se vai querer tirar a queixa.
Sol sustentou a pose de quem ainda tremia por dentro, assentiu com gratidão impecável:
— Obrigada, delegada. De verdade.
Assinou o que precisava, devolveu o copo vazio, ajeitou o vestido e saiu em silêncio.
No corredor, passou pela sala das celas. Henzo a viu por um segundo. Eles trocaram um olhar curto, afiado: ele, incrédulo por ter ficado; ela, serena, no controle — como quem diz “eu decido o ritmo”. E seguiu.
Minutos depois, Sol atravessou novamente o saguão do hotel, mas não pediu nova suíte. A passos firmes, voltou para o mesmo quarto onde o caos ainda reinava. O cheiro de álcool derramado misturado a flores amassadas tomava o ar, pedaços de vidro brilhavam sob a meia-luz e a cama estava tomada por almofadas rasgadas e objetos quebrados.
Ela não se importou.
Arrastou com o braço tudo o que ainda restava sobre o colchão — pedaços de livros, roupas amassadas, até um pedaço do telefone — e abriu espaço suficiente para se deitar. Jogou-se sobre a cama, ajeitou o travesseiro rasgado como se fosse de plumas intactas e fechou os olhos.
O sorriso surgiu devagar, malicioso.
Porque sabia: Henzo passaria a noite na delegacia, encarando a insônia, pensando em cada palavra que ela havia cuspido com veneno, em cada gesto de rebeldia. Ele não dormiria. Esse seria o preço por ter ousado proibi-la de falar com sua mãe e com Violeta.
Sol, por sua vez, dormiu tranquila, o caos ao redor servindo como lembrança perfeita da vitória silenciosa dela naquela noite.