Vitória naquela noite

1214 Palavras
A delegacia parecia sufocante. O cheiro de café requentado, o barulho metálico das grades, os olhares curiosos dos policiais — tudo se misturava num pesadelo que Henzo jamais imaginou viver. Ele, um dos homens mais temidos da máfia francesa, agora sentado numa cadeira dura, com algemas frias prendendo-lhe os pulsos, à mercê de uma acusação feita pela mulher que ele achava que controlava. O delegado tinha permitido apenas uma ligação. Henzo, sem pensar duas vezes, discou o número de Maurice. A linha tocou uma, duas vezes, até que a voz grave e atenta surgiu do outro lado: — Henzo, o que houve? Henzo passou a mão pelo rosto, respirando fundo, como se tentasse expulsar o gosto amargo da humilhação. — É a Sol, cara… ela enlouqueceu. Quebrou todas as coisas no hotel. — A voz dele saiu entrecortada de raiva e incredulidade. Maurice ficou em silêncio por alguns segundos, o que fez Henzo apertar ainda mais o telefone contra o ouvido. Então, veio a resposta, firme e quase didática: — Henzo… você vai ter que aprender a lidar com isso. Henzo riu de forma seca, irônica, o eco ressoando pelo cubículo da delegacia. — Sério, Maurice? Lidar? Me ajude com o fato de que estou na delegacia, preso como um i****a, enquanto ela se faz de vítima… e ainda me ameaça contar tudo. — A última palavra saiu em um sussurro carregado de fúria. Do outro lado da linha, Maurice fechou os punhos sobre a mesa onde estava. A tensão era palpável mesmo pela distância. Ele sabia o tamanho do problema: Sol não era apenas uma mulher furiosa. Ela era uma bomba-relógio, e se explodisse, toda a máfia francesa poderia ir junto. — Preciso de ajuda, Maurice — insistiu Henzo, mais baixo, mais sombrio. Um silêncio pesado pairou, até que Maurice respondeu, cada palavra medida como um tiro certeiro: — Vou dar um jeito. Henzo fechou os olhos por um instante, tentando encontrar algum resquício de controle naquela espiral de caos. Mas, no fundo, sabia: Sol tinha mexido na única ferida que ele não podia permitir que ninguém tocasse. O medo não era dela contar sobre o quarto destruído — era dela abrir a boca sobre quem ele realmente era. E, pela primeira vez em muito tempo, Henzo sentiu-se pequeno diante do tabuleiro que ele acreditava dominar. Maurice desligou o telefone com Henzo e, sem perder tempo, discou outro número. — Barão… preciso de você. Do outro lado da linha, a resposta veio rápida, seca e sem rodeios, como sempre: — Fale. — Henzo e Sol foram parar na delegacia. A situação está complicada, ela está se fazendo de vítima e… ameaçando contar tudo. Houve um silêncio curto, e então Barão soltou um suspiro carregado de peso. — Eu não vou negar ajuda, Maurice. Mas entenda: só estou entrando porque, neste momento, sou o único com poder sobre a polícia brasileira. Maurice fechou os olhos, aliviado por um instante. — Obrigado, Barão. Eu sabia que podia contar com você. — Não agradeça ainda. Vamos ver se consigo conter isso antes de se tornar um escândalo internacional. — A ligação terminou. Maurice largou o telefone e começou a caminhar de um lado para o outro, nervoso. O relógio da parede parecia zombar dele com cada tique-taque, como se o tempo corresse contra toda a estrutura da máfia francesa. Foi então que ouviu passos suaves ecoando pelo corredor. Ao se virar, viu Violeta entrando, com aquele ar sereno que contrastava com a tensão que consumia o ambiente. — O que aconteceu? — perguntou, cruzando os braços, o olhar firme sobre ele. Maurice soltou o ar pesadamente. — Sol e Henzo estão na delegacia. Ela está ameaçando contar sobre tudo. Violeta arqueou uma sobrancelha, quase com ironia. — E você perdeu o sono por esse motivo? — Claro! — explodiu Maurice, jogando as mãos para o alto. — Estamos falando de um império, Violeta! Se Sol abrir a boca, não é só Henzo que cai, somos todos nós! Ela deu um passo à frente, a voz baixa, mas cortante como lâmina. — Sol jamais faria isso. Ela só está colocando Henzo no devido lugar dele. Certamente, ele deve ter confrontado ela quando, na verdade, deveria ter cedido. Maurice franziu o cenho, cético. — Tem certeza? Violeta sustentou o olhar dele, sem vacilar. — Absoluta. Sol pode ser explosiva, imprevisível, provocadora… mas nunca faria algo que colocasse Madá em perigo. E contar sobre a máfia seria isso: condenar a mãe. — fez uma pausa, firme, como quem selava um destino. — Sol não é burra, Maurice. Ela só está mostrando a Henzo que não se dobra a ninguém. Maurice ficou em silêncio, digerindo as palavras. Parte dele queria acreditar, mas outra parte ainda sentia o peso da ameaça de Sol. Violeta, porém, parecia segura demais de sua análise — como se conhecesse Sol melhor do que o próprio Henzo. Na delegacia, antes mesmo de Barão mexer os fios, Sol já estava sentada diante da delegada, um copo de café fumegante entre os dedos. O cheiro amargo subia, e ela parecia mais calma do que horas atrás. — Delegada… — começou num tom baixo, levemente rouco — eu e meu esposo usamos drogas ilícitas. Eu… eu fiquei descontrolada. Não tenho certeza do que aconteceu. A delegada a mediu com os olhos, experiente, nada fácil de dobrar. — Você está tentando proteger ele? Sol respirou fundo, baixou o olhar e respondeu com doçura calculada: — Ele é um marido bom. Eu realmente não sei o que aconteceu. Silêncio. A delegada encostou na cadeira, fechou o bloco de anotações e sentenciou: — Vou liberar você. Mas ele fica. Só será liberado amanhã. Você vai pra casa, dorme… e pensa direitinho se vai querer tirar a queixa. Sol sustentou a pose de quem ainda tremia por dentro, assentiu com gratidão impecável: — Obrigada, delegada. De verdade. Assinou o que precisava, devolveu o copo vazio, ajeitou o vestido e saiu em silêncio. No corredor, passou pela sala das celas. Henzo a viu por um segundo. Eles trocaram um olhar curto, afiado: ele, incrédulo por ter ficado; ela, serena, no controle — como quem diz “eu decido o ritmo”. E seguiu. Minutos depois, Sol atravessou novamente o saguão do hotel, mas não pediu nova suíte. A passos firmes, voltou para o mesmo quarto onde o caos ainda reinava. O cheiro de álcool derramado misturado a flores amassadas tomava o ar, pedaços de vidro brilhavam sob a meia-luz e a cama estava tomada por almofadas rasgadas e objetos quebrados. Ela não se importou. Arrastou com o braço tudo o que ainda restava sobre o colchão — pedaços de livros, roupas amassadas, até um pedaço do telefone — e abriu espaço suficiente para se deitar. Jogou-se sobre a cama, ajeitou o travesseiro rasgado como se fosse de plumas intactas e fechou os olhos. O sorriso surgiu devagar, malicioso. Porque sabia: Henzo passaria a noite na delegacia, encarando a insônia, pensando em cada palavra que ela havia cuspido com veneno, em cada gesto de rebeldia. Ele não dormiria. Esse seria o preço por ter ousado proibi-la de falar com sua mãe e com Violeta. Sol, por sua vez, dormiu tranquila, o caos ao redor servindo como lembrança perfeita da vitória silenciosa dela naquela noite.
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