Nas mãos do furacão

1226 Palavras
Ela se levantou da cama num movimento firme, cruzando os braços. — Eu quero falar com minha mãe. E com Violeta. Henzo se levantou também, caminhou até o aparador de bebidas, abriu a garrafa de uísque e encheu um copo sem se apressar. Deu um gole longo antes de responder, com a calma gelada que mais irritava do que qualquer grito: — E eu já disse que não. O silêncio se fez entre eles, pesado, elétrico. Sol mantinha o queixo erguido, desafiadora, mas sabia que Henzo estava testando seus limites. — Henzo… está me proibindo de falar com a minha mãe e com Violeta? … é isso? — a voz dela ecoava pelo espaço, carregada de raiva e desespero. — Então não estamos sem sinal, você apenas quer provar que me controla, e ele pode me impedir de falar com quem eu quero… Henzo deu um passo à frente, tentando alcançar a mão dela. — Sol, acalma-se, você não precisa… Mas antes que pudesse terminar, ela avançou. Pegou o controle da televisão e o arremessou com força contra a parede; o estalo do plástico quebrando reverberou pelo quarto. Henzo recuou instintivamente, observando cada gesto. Ela agarrou o vaso de flores sobre a cômoda e lançou-o contra o chão; os cacos se espalharam, misturados às pétalas murchas. A mesa de whisky, impecavelmente organizada minutos antes, não escapou: garrafas tombaram, estilhaços de vidro cortaram o ar, e o líquido derramado escorreu pelo mármore, formando um rastro de caos. — Eu não vou mais aceitar ser controlada! — gritou, agarrando os livros sobre a escrivaninha e arremessando-os contra a parede, páginas soltas voando pelo quarto. Henzo, imóvel, a observava. Cada golpe que Sol desferia tinha precisão e intenção; era como se estivesse deixando claro que não havia mais medo. Ela arrancou os quadros das paredes, derrubou a luminária de chão, até a cadeira de couro foi arremessada em direção à porta — Henzo apenas desviou, sem tentar segurá-la, porque sabia que qualquer contato poderia explodir ainda mais a situação. Ela respirava com dificuldade, mas os olhos permaneciam firmes, fixos nele. — Você quer me manter quieta, Henzo? Quer que eu seja sua pertencente, mas não passa de um i****a que não sabe nem ler um contrato, me impede de falar com quem amo. Eu não sou sua marionete! Henzo se aproximou, mas o espaço entre eles era curto demais para qualquer gesto de contenção. Ela agarrou o telefone do hotel e atirou contra a parede, rachando a tela. Henzo estalou os dedos, tentando chamar sua atenção, mas ela ignorou, avançando sobre a mesa de centro: copos, garrafas, cinzeiros — tudo se despedaçou sob o impacto de suas mãos, espalhando estilhaços pelo chão. Então, parou por um instante, olhando para ele, os cabelos desgrenhados, o vestido marcado pelos movimentos violentos. — Eu vou contar quem você é, Henzo… não tenho mais medo! Henzo respirou fundo, tentando manter a calma, mas o coração acelerado denunciava o efeito que ela causava. Antes que pudesse dizer algo, o barulho chamou atenção de vizinhos; a polícia foi chamada, e o som das sirenes cresceu do lado de fora. Sol olhou para Henzo, um sorriso frio e afiado nos lábios: — Dúvida? Ninguém deveria duvidar de mim. Henzo percebeu naquele instante que a mulher à sua frente não era apenas sua “pertencente” ou esposa; ela era força pura, imprevisível, capaz de desmontar não só o quarto, mas qualquer plano que ele tivesse cuidadosamente arquitetado. O quarto estava um caos. As almofadas já estavam rasgadas, os vasos quebrados em pedaços pelo chão, a cama revirada. Sol, em fúria, não se conteve — arremessava tudo o que via pela frente, como se cada objeto fosse uma resposta à angústia que Henzo lhe causara. Henzo, parado no meio da confusão, tentava alcançá-la. — Sol, para com isso! Escuta, não é assim que se resolve! — a voz dele era firme, mas havia uma sombra de desespero. Ela o encarou, o peito arfando, os cabelos desgrenhados. — Resolver? Você fala de resolver quando me n**a falar com a minha própria mãe? — avançou dois passos, os olhos faiscando. — Eu Vou acabar com essa sua máscara de homem comum! vou acabar com a máfia francesa. Ele sentiu o mundo girar, como se cada palavra fosse um golpe no peito. — Não faz isso, Sol… — quase implorou, tentando controlar o tom, mas seu coração disparava. Sol então abriu um sorriso que não tinha nada de doce. Era gélido, afiado, como uma lâmina. — Dúvida? não né, eu sei que não. O barulho da porta sendo arrombada interrompeu a cena. Dois policiais entraram com as armas em punho, alarmados pelas denúncias de confusão. O olhar de Henzo escureceu: a polícia era o último obstáculo que ele precisava naquele momento. Sol, ainda encarando-o, manteve o sorriso. E, pela primeira vez, ele percebeu que o perigo não estava nos inimigos, nem nos capangas, mas na mulher à sua frente. Um dos policiais avançou pelo quarto, os olhos percorrendo o cenário de destruição. Copos quebrados, garrafas espalhadas, cacos de vidro, livros rasgados e móveis revirados — o caos refletia cada passo da fúria de Sol. — O que aconteceu aqui? — perguntou, a voz firme, tentando controlar o nervosismo que emanava do ambiente. Sol respirou fundo, olhou de relance para Henzo e, num instante calculado, virou-se para os policiais. Um leve sorriso surgiu nos lábios dela, rápido e quase imperceptível, antes de ceder a uma expressão de desespero. — Ele… ele quebrou tudo — disse, a voz trêmula, os olhos marejados — disse que ia me matar… — começou a chorar, com soluços contidos, a atuação perfeita de vítima assustada. Henzo congelou. Ele sabia que Sol tinha jogado seu trunfo: a imagem de fragilidade e desespero em plena frente da lei. O semblante frio dele, que sempre parecia impossível de abalar, endureceu com uma mistura de admiração e preocupação. Aquele sorriso quase irônico dela, mesmo entre lágrimas falsas, mostrava que ele estava ferrado. Os policiais se aproximaram, as armas baixadas parcialmente, mas ainda atentos a qualquer movimento. Um deles, mais velho, franziu a testa e disse: — Senhorita… precisamos levar isso a sério. Ele… quem é ele? Sol limpou as lágrimas com a ponta dos dedos, respirou fundo e disse entre soluços controlados: — Ele… é meu… — engoliu a saliva, com um olhar dramático —… meu marido. Ele perdeu o controle. Ele é perigoso… e se vocês não tivessem chegado, não sei o que poderia ter acontecido. Henzo sentiu o golpe. Não de dor física, mas do poder silencioso que ela exercia sobre a situação. Cada palavra, cada gesto dela, transformava o caos do quarto em uma armadilha que Henzo não tinha como escapar. O mundo do mafioso, onde ele controlava tudo, parecia desmoronar diante da audácia de Sol. Ela se virou levemente, olhando para ele por cima do ombro, ainda com lágrimas nos olhos, e disse baixinho, quase para si mesma, mas fácil de descrever para alguém que sabia detectar a leitura labial como ele. — Você pagou pra ver… agora está vendo. Henzo respirou fundo, apertando os punhos. Pela primeira vez, ele percebeu que não poderia simplesmente resolver aquilo com força ou intimidação. Sol tinha tomado o controle, e ele sabia: naquele instante, estava completamente nas mãos dela e não somente ele mas toda a máfia francesa.
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