Mais que empresário

1090 Palavras
Começou o jantar de negócios. A mesa estava impecavelmente posta, a luz suave refletindo nos talheres de prata, e o ambiente exalava poder e riqueza. Enquanto os homens discutiam números, contratos e estratégias, as mulheres permaneciam todas caladas, sentadas com posturas corretas, observando, mas sem emitir opinião. Sol, entre elas, mantinha a postura perfeita, os olhos atentos, a expressão tranquila. Mas, ao contrário das demais, sua mente avaliava cada gesto, cada palavra dita pelos homens, absorvendo a informação e calculando, sem nunca se render à passividade. Henzo, sentado ao lado dela, observava a postura da esposa. Sabia que todas as mulheres ao redor estavam em silêncio, mas não podia deixar de perceber que Sol era diferente. Não era apenas silêncio: era presença. Ele mantinha o olhar discreto, avaliando cada reação dela, a leve inclinação do corpo quando ouvia um comentário mais relevante, e sabia, sem precisar dizer, que ninguém ali tinha a elegância natural e a confiança de Sol. Quando o garçom se aproximou para anotar os pedidos, Henzo falou firme, sem tirar os olhos de Sol: — Filé ao ponto, batatas assadas, e um suco de laranja. — Ele olhou de relance para ela. — O mesmo para minha pertencente. Sol ergueu a sobrancelha, cruzou as pernas lentamente e respondeu, com um sorriso provocador: — Não quero suco, querido. Quero um uísque. Forte. E o filé ao ponto, mas com molho extra. Henzo quase estreitou os olhos, surpreso com a audácia dela, mas nada disse. Em um sussurro discreto, apenas para ela ouvir: — Você sabe que não precisa ser tão provocadora, certo? Ela inclinou o corpo na direção dele, o olhar desafiador: — Provocar faz parte do meu charme, marido. Além disso, me chamar de sua pertencente na frente de todos não foi bacana da sua parte, como diz os brasileiros. Henzo respirou fundo, apertando discretamente a mão dela sobre a mesa, tentando manter a compostura enquanto ela sorria abertamente, dominando a atenção de todos os presentes. Apenas inclinou-se discretamente e, em tom baixo, quase um sussurro: — Como sabe tanto sobre o Brasil, inclusive sobre a culinária? Sol arqueou uma sobrancelha, um leve sorriso provocador nos lábios: — Seria nosso próximo país de fuga — respondeu, com a mesma segurança que lhe era natural. Henzo respirou fundo, controlando-se, mantendo a compostura, consciente de que aquela ousadia poderia virar uma arma nas mãos dela, mas ao mesmo tempo admirando silenciosamente como sua pertencente dominava cada gesto, cada decisão, até nos mínimos detalhes do jantar. Henzo deu um leve riso baixo, quase um sussurro, o tom carregado de deboche: — Mas aí… achamos vocês. Sol inclinou o corpo para frente, os olhos faiscando de provocação, e sorriu com confiança. — Me chame de sua pertencente na frente dos outros, novamente— disse, a voz firme e audaciosa. — Que quero te mostrar o que aprendi com as facas… como sei manuseá-las com precisão. Henzo fechou os olhos por um instante, respirando fundo, tentando não transparecer nada além de calma. Mas por dentro, cada palavra dela cortava como lâmina: aquela ousadia, aquela confiança, aquele desafio direto a ele. Ele abriu um meio sorriso, contido, e respondeu baixo, quase só para ela ouvir: — Muito bem, mas lembre-se, isso não é um convite para brincar comigo. Sol apenas arqueou uma sobrancelha, satisfeita com a reação dele, enquanto ao redor, os outros começavam a notar a aura de domínio e sedução que ela exalava, sem que precisasse dizer uma palavra a mais. O jantar avançava em meio ao tilintar dos talheres e às conversas sérias entre os homens. O clima era de poder e ostentação, e Henzo se mantinha firme, frio, liderando as negociações com a segurança de quem estava sempre no comando. Sol, ao lado dele, permanecia impecável — postura ereta, olhar atento, e silêncio absoluto, como se fosse apenas mais uma das esposas decorativas que adornavam a mesa. Mas por dentro, sua mente calculava cada detalhe, cada palavra, como se estivesse em uma partida de xadrez. Finalmente, os contratos foram colocados sobre a mesa. Um dos sócios empurrou a folha na direção de Henzo, junto de uma caneta dourada. O olhar de todos os presentes estava sobre ele — o momento da assinatura era quase um ritual de poder. Henzo pegou a caneta, pronto para assinar, mas Sol, em um movimento aparentemente distraído, inclinou-se levemente e deixou os olhos correrem pelas linhas do documento. A leitura foi rápida, quase imperceptível, mas suficiente. Sem mover os lábios em excesso, ela murmurou apenas para ele: — O seu direito não seria cinquenta por cento? Henzo sorriu, sem desconfiar. — Sim, é um ótimo negócio. Ele já ia assinar, quando Sol pousou a mão suavemente sobre a dele, impedindo o movimento. O gesto foi discreto, mas firme. — Henzo, — ela disse baixo, o tom sério — isso aqui diz que você só tem direito a vinte por cento. Henzo congelou. As palavras dela ecoaram mais forte do que o burburinho ao redor. Ele ergueu os olhos para ela, surpreso, e sussurrou, incrédulo: — Onde? Com a ponta delicada do dedo, Sol indicou uma cláusula no rodapé do contrato, escondida em letras menores, entre linhas jurídicas que qualquer um, com pressa, poderia ignorar. Henzo apertou os olhos, inclinando-se para ver. E então percebeu. Ela estava certa. Os outros homens continuavam a conversar, mas logo perceberam a interrupção. O olhar de cada um deles começou a se voltar lentamente para o casal — mais especificamente para Sol, a mulher que até então estava em silêncio, mas que naquele instante havia chamado atenção de todos. Ela sustentava o olhar com calma, sem se intimidar, como se tivesse esperado por esse momento. E Henzo, por um instante, sentiu o impacto disso: sua esposa, sua pertencente, havia acabado de impedir que ele caísse em uma armadilha diante de todos. Um dos homens se inclinou sobre a mesa, batendo a mão com força no contrato m*l redigido. — Assine, Henzo. — disse com a voz carregada de arrogância, enquanto a outra mão repousava de propósito sobre a arma no coldre, para intimidar. — Assine… e escolha uma das nossas mulheres. Qualquer uma. Porque a sua… ficará conosco. Eles ainda achavam que lidavam apenas com um empresário presunçoso, e não com o subchefe da máfia francesa. Henzo ergueu lentamente o olhar, seus lábios se curvando num sorriso frio, carregado de deboche. — Vocês mentiram. — murmurou, quase como quem saboreia as palavras. O homem forçou uma risada nervosa, tentando sustentar a pose. — Assine logo, e não faça cena.
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