Ameça em Potencial

1141 Palavras
Henzo pegou a chave do carro e seguiu na frente, Sol entrou logo depois, ajeitando a bolsa para não prender a alça na porta. Ele assumiu o volante com a naturalidade de quem sempre estava no controle, enquanto ela se recostava no banco do passageiro, abrindo o vidro. O vento entrou forte, bagunçando os fios soltos do cabelo dela, que dançavam livres no ar. — Dá pra fechar o vidro? o ar condicionado está ligado — ele resmungou, mantendo os olhos na estrada. — Dá. — ela respondeu com simplicidade, mas não se moveu. Henzo lançou um olhar rápido de canto, mas não insistiu. Continuou dirigindo até que, alguns quilômetros depois, encostou o carro no acostamento e estacionou. Sol virou o rosto devagar, arqueando a sobrancelha. — Problema no carro, motorista? — Não. — ele respondeu, passando a mão pelo volante antes de soltar um suspiro. — Posso te pedir um favor? Ela bufou uma risada curta. — Não. Não somos amigos. Henzo girou o corpo um pouco na direção dela, encarando-a com firmeza. — Por favor, Sol. — Já falei que não. — ela cruzou os braços, olhando pela janela. — Você nem sabe o que eu ia pedir. — ele insistiu, a voz mais baixa, quase uma súplica. Ela virou o rosto de volta, estreitando os olhos. — Vindo de você, não deve ser boa coisa. Henzo segurou a risada. — Pode ao menos me ouvir? — Se for rápido. — ela ergueu a mão, como quem mede paciência. Ele a observou por um segundo e então disse: — Você pode amarrar os cabelos, tirar os brincos e... Antes que completasse, Sol o interrompeu com um sorriso debochado: — E esconder que sou linda do mundo, querido? Não, não posso. Henzo não conteve a risada, balançando a cabeça. — Você é convencida. Ela ajeitou o cabelo bagunçado pelo vento, firme no olhar. — Não, eu sou sincera. O silêncio tomou o carro por um instante, apenas o barulho da estrada ao fundo. Henzo respirou fundo, voltou ao volante e colocou o carro de volta na pista, ainda com aquele meio sorriso irritado no canto dos lábios, que sentia que teria problemas. Henzo estacionou o carro diante do restaurante. O lugar imponente, iluminado por lustres que se refletiam nos vidros enormes, denunciava o requinte do ambiente. Assim que desligou o motor, saiu do veículo sem sequer olhar para o lado dela. Não abriu a porta para Sol. Ela não se incomodou; estava acostumada a se virar sozinha. Empurrou a maçaneta, ajeitou discretamente o vestido e desceu com a mesma postura firme de sempre. Henzo já a esperava do outro lado, e sem dar tempo para qualquer reação, tomou a mão dela em um gesto possessiv0, os dedos entrelaçados com os dela como se quisesse marcar território. Subiram os poucos degraus de entrada, e Sol logo sentiu o aperto exagerado. Tentou puxar discretamente, mas ele não cedeu. — Te dou um soco na sua cara aqui mesmo se continuar apertando tanto a minha mão — murmurou entre os dentes, sem perder a elegância do sorriso. Henzo olhou para ela de lado, os olhos intensos, e relaxou o aperto quase de imediato. — Desculpe. Eu não percebi que estava apertando. Ela não respondeu, apenas ergueu o queixo com altivez. Um funcionário impecavelmente vestido os recebeu na porta. — Boa noite, senhor, senhora. A reserva de vocês está na ala de cima. Se puderem me acompanhar, o elevador está logo aqui. Henzo apenas fez um aceno de cabeça, mantendo Sol colada ao seu lado enquanto seguiam o rapaz em direção ao elevador. Quando entraram no elevador, já havia um casal com uma criança de uns sete anos. O menino, curioso, ficou olhando fixamente para Sol e, sem cerimônia, cutucou os pais antes de disparar: — Que mulher bonita! Cê tá doído. Os pais riram da espontaneidade do filho, tentando contê-lo. Sol, sem jeito, mas com a doçura natural dela, sorriu e respondeu baixinho: — Obrigada, querido. Henzo, ao lado dela, fechou ainda mais a cara. O maxilar travado, as sobrancelhas carregadas. Ele não disse nada, mas o silêncio dele era quase palpável. Sol percebeu a mudança imediata na expressão dele e, para não prolongar o clima, continuou sorrindo para o menino, mas desviou o olhar em seguida, como se quisesse evitar provocar ainda mais a fúria silenciosa de Henzo. A porta do elevador se abriu no andar reservado, e o funcionário fez um gesto para que eles saíssem primeiro. Henzo manteve a mão firme na dela — agora sem apertar tanto — e seguiu em passos seguros, como se cada detalhe ao redor fosse uma ameaça em potencial. A mesa já estava composta quando eles chegaram. Seis casais, todos em seus lugares, as mulheres nitidamente jovens demais para os homens idosos que as acompanhavam. Joias caras, vestidos sofisticados, maquiagem bem trabalhada — mas nada daquilo escondia a artificialidade, os olhares vazios e o peso dos arranjos que sustentavam aquelas relações. Henzo puxou a cadeira para Sol, de forma mecânica, quase automática, como quem cumpre um ritual social. Sentou-se ao lado dela e, enquanto o burburinho das conversas ocupava o ambiente, seu olhar percorreu cada uma das mulheres. Jovens, sim. Produzidas, sim. Mas nenhuma delas se aproximava da beleza natural de Sol. Ela, mesmo sem tentar, irradiava algo diferente. O contraste da sua presença fazia todas as outras parecerem figurantes, meras sombras diante do brilho dela. Henzo não disse uma palavra, mas dentro de si uma constatação se fez clara e firme: a sua pertencente era a mais bela de todas elas. E isso lhe trouxe um misto de orgulho e incômodo. Orgulho por tê-la ao seu lado. Incômodo porque, ao mesmo tempo, não suportava a ideia de outros olhares pousando nela. Os olhares se voltaram para eles, e a sequência de cumprimentos começou. — Este é Henzo… — anunciou um dos homens, mas Henzo tomou a frente, sua voz grave cortando o ambiente. — Essa é minha esposa, Sol. Sol, elegante e serena, abriu um sorriso educado e cumprimentou a todos em português brasileiro: — Prazer em conhecê-los. Houve um breve silêncio na mesa. Alguns se entreolharam, outros esboçaram um sorriso surpreso. Mas ninguém demonstrou mais impacto do que o próprio Henzo. Ele não sabia que ela falava o idioma do Brasil. A informação o atingiu como um soco, mas ele não deixou transparecer — apenas manteve a expressão séria, observando-a com o canto dos olhos. A fluidez natural com que ela pronunciou cada palavra fez com que sua mente se enchesse de perguntas. Como ela aprendeu? Quando? Por quê? Sol, no entanto, parecia absolutamente confortável, como se aquele detalhe não fosse nada demais. Henzo, por dentro, se contorceu. Ela conseguia surpreendê-lo em público. E a cada surpresa dessas, ele sentia que o controle que tinha sobre ela lhe escapava um pouco mais.
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