Covardia Emocional

2255 Palavras
Callie Torres P.O.V Ao chegar no meu apartamento quase morri do coração ao me deparar com Meredith assaltando minha geladeira enquanto usava minha camiseta do Bob Esponja. Praticamente não dava para entender porque diabos ela havia trocado de apartamento se vivia enfurnada no meu, sempre usando alguma das minhas roupas. – O que você está comendo aí? – Talvez, seja sua pizza de atum, mas não confirmo nada sem a presença de um advogado. Impressionante como minha amiga conseguia mexer em todas as minhas coisas, algo que eu detestava, sem parecer tão r**m assim. Droga, era impossível ficar chateada com ela, principalmente, quando eu notava seus ombros cansados e seu jaleco dobrado sobre sua mochila em um canto do sofá. Deveria ter sido outro plantão infernal. A questão de ter chefes insuportáveis não era exclusividade minha já que minha amiga precisava aguentar seu último ano de residência com Santana Lopez, como supervisora, quando a mulher era uma completa nazista. Eu não a achava tão r**m, até ter visitado Meredith no começo da residência e ter visto duas outras médicas saindo aos prantos após uma advertência dela. – Não acredito que você acabou com a pizza que eu guardei! – Não me olhe desse jeito baby sister, eu estava salvando umas vidas desde a madrugada então acho que me dar um pouco da sua pizza é o mínimo que você pode fazer como boa cidadã de National City. Além do mais você não ia em um jantar na casa dos Robbins? – Você é uma péssima amiga, inferno, Meredith, eu fui convidada para um jantar de gente rica, óbvio que eu ia voltar morrendo de fome para casa. – Joguei meus sapatos de salto em um canto e abri a geladeira em busca de algo gelado para beber. – E não me venha com essa sua lábia, Dra. Grey, guarde seu papo furado humanitário para a detetive ruivinha. Meredith gargalhou ao ouvir meu comentário sobre Addison e sorriu orgulhosa. Nossa minha amiga conseguia ser mais gay do que eu, e meu novo amigo Mike juntos, se é que isso era possível. Addie realmente a estava fazendo um bem fora do comum. – Boa comida ou não, como foi com o tal cara? Demorou muito para ele perceber que você não estava interessada? Além de roubar minha pizza, minha amiga ainda tirou das minhas mãos a garrafa de cerveja que eu havia acabado de abrir e deu um grande gole. Oh, eu tinha uma informação que a faria engasgar. – Na verdade eu estou interessada nele. E ela engasgou, mas foi de tanto rir. Droga, minha heterossexualidade era realmente 0% em uma escala de 1 a 100. – Você interessada em um cara? Vai me dizer que é uma alienígena também? – Muito engraçado, Grey. Mas eu não estou mentindo, o cara realmente me interessou. – Seu olhar ainda era cético. – Tudo bem, você venceu! Ele é totalmente gay e adora Orange Is the New Black também, o que convenhamos, já é uma ótima razão para eu me interessar por ele. – Sua cara nem treme mais tentando mentir para mim, maninha. – Respondeu finalmente pegando uma garrafa própria. – E a exterminadora conseguiu se comportar com o mínimo de educação? Meu olhar pesou e fosse pelos anos sendo a melhor médica que eu conhecia, ou a melhor amiga/irmã desse mundo, Meredith automaticamente percebeu que havia algo errado comigo. E havia mesmo, tudo estava errado. – Porque eu tenho a impressão de que ela foi uma babaca de alguma forma c***l desta vez? – Ela foi. Foi daquela forma que passei quase toda a hora seguinte, tentando não chorar, enquanto explicava para minha amiga como a relação nada saudável entre mim e Arizona Robbins havia começado. Talvez, como médica, Grey pudesse me prescrever algum remédio que me fizesse tirá-la da minha cabeça, ou apenas... me fizesse não começar a gostar dela tanto assim. – Você sabe o que eu vou dizer, certo? – Minha amiga tinha os braços cruzados e um olhar que me lembrava Lana Lang mais cedo. Ao menos ela não parecia tão decepcionada quanto achei que ela ficaria. – Para eu terminar isso antes de me envolver demais e acabar de coração partido? – E você já não está? Não. Eu não me sentia bem, mas não era um coração partido ainda. Havia me chateado e até magoado em algum nível, nem que fosse meu ego, ouvir aquelas coisas vindas dela, mas coração partido, definitivamente, doía muito mais do que aquilo. E como doía. – Não. É apenas sexo, Grey. E não vamos continuar com essa loucura toda depois de hoje. Minha amiga respirou fundo e arrumou a própria postura, aproximando-se de mim ligeiramente. Não havia mais qualquer decepção nos seus traços, embora eu notasse o quão tensa ela parecia. Eu sabia para onde aquela conversa acabaria indo. – Eu sei que você sabe cuidar da própria vida, Callie, mas eu me preocupo com você demais para te deixar repetir os mesmos erros de novo. E eu me preocupo se essa relação com Arizona Robbins não pode ser excitante por ser parecida ao que você sentia por Érica antes de tudo. E lá estávamos nós. Sabia que Grey não me faria esquecer de toda relação tóxica em que acabei me envolvendo durante a faculdade e como aquilo havia sido um sério erro em todos os sentidos. Eu queria dizer a ela como não era igual, por eu não estar nem um pouco interessada em Mrs.Robbins, mas seria outra enorme mentira. Não queria mais enganar ninguém aquela noite, por isso apenas me calei. Com Arizona seria diferente, pois com ela eu ainda conseguia parar tudo. Ou ao menos eu tentaria. E eu já sabia bem como fazer isso até a conferência de Gotham. Alguns dias longe dela deveriam bastar para me desintoxicar, nem que fosse parcialmente. Arizona Robbins P. O. V Fiquei surpresa ao encontrar o escritório vazio ao chegar. Mesmo voltando no meu apartamento para trocar de roupa, após o almoço com April, ainda havia conseguido chegar antes de Callie na empresa. Interessante. Continuei o meu caminho até o meu escritório e comecei a colocar as coisas que havia negligenciado durante toda manhã, em ordem. Quinze minutos depois, estava distraída com uma ligação quando ouvi um estrondo de porta no lado de fora. Bem, ela certamente não me desapontou; eu podia ouvir gavetas e arquivos fechando com mais barulho do que necessário, e sabia que isto faria deste um dia inusitado Às 15:17 fui interrompida pelo meu sistema de comunicação interno. – Mrs.Robbins. – A sua voz fresca encheu a sala tranquila e encontrei-me sorrindo quando apertei o botão para responder. – Sim, Srta. Torres? – Temos de estar na sala de reunião em quinze minutos. Então depois você terá o almoço de encontro com o presidente da Apple às 16:30. – Ela afirmou, o seu tom inteiramente profissional. – Você não vai me acompanhar lá? – Perguntei confusa; isto era uma coisa extremamente rara. Uma parte de mim imaginou se ela estava somente evitando ficar a sós comigo novamente. Eu esperava que não fosse isso. – Não, senhora. Esta reunião é estritamente para a presidência. – Callie respondeu indiferentemente, e ouvi os seus papéis chacoalhando enquanto ela continuava falando. – Além disso, só tenho até hoje para fechar o cronograma de Gotham. Bem, isto fazia sentido...eu suponho. – Tudo bem, estarei aí fora em um momento. – Repliquei e deixei o meu dedo deslizar do botão, ficando em pé para ajustar meu vestido grafite e ajeitar meu cabelo. Quando sai do meu escritório, os meus olhos pousaram nela imediatamente. Qualquer dúvida que eu poderia ter tido sobre ela me fazer sofrer o resto da tarde foi confirmada. Lá estava ela, debruçando-se sobre a sua mesa com uma roupa diversa da que a encontrei mais cedo, um belo vestido branco e dourado, que mostrava as suas longas pernas perfeitamente. O seu cabelo estava empilhado na sua cabeça em outro coque, acentuando o seu lindo pescoço e quando ela virou para me olhar, vi que ela usava os seus óculos. Como eu ia conseguir falar coerentemente com ela sentada perto de mim? Com o seu caderno, Iphone e caneta na mão, ela se aproximou de mim. – Pronta, Mrs.Robbins? – Seu tom era casual enquanto virava e começava a andar pelo corredor em direção aos elevadores. Parecia haver mais balanço nos seus quadris hoje, como se ela tentasse zombar de mim, me quebrar. Algo que eu pretendia perguntar a ela depois da reunião. Estando no elevador juntas, os nossos corpos ficaram involuntariamente apertados e tive de sufocar um gemido. Poderia ter sido a minha imaginação mas pensei ter visto uma insinuação de um sorriso afetado quando ela "acidentalmente" se esfregou contra mim. Callie não só sabia ser má, como confusa também. Durante as duas horas seguintes, estive no meu inferno pessoal. Cada vez que a olhava ela fazia algo para me deixar de joelhos; olhadas furtivas, lambendo o seu lábio, cruzando e descruzando as suas pernas ou distraidamente rodando uma mecha de cabelo em volta do seu dedo. A certa altura, ela deixou a sua caneta cair e casualmente colocou a sua mão na minha coxa enquanto se abaixava para recuperá-lo de baixo da mesa. Debruçando-me sussurrei na sua orelha: – O que exatamente você pensa que está fazendo, Srta.Torres? – Ela não encontrou os meus olhos enquanto se ocupava olhando os seus documentos. – Temo que eu não saiba sobre o que você está falando, Mrs. Robbins. – Achei que já tivéssemos deixado essa fase para trás, Callie. – Acredito... – Respondeu, finalmente encontrando os meus olhos rapidamente antes de olhar para longe. – Que a sua fase você já perdeu. Eu disse-lhe mais cedo, você não está desculpada. Olhando ao redor para ter certeza que os outros ainda estavam interessados na exibição de slides, inclinei-me mais perto e sussurrei: – Mas eu acredito que ainda mereço uma nova chance para provar a quão arrependida eu estou. – Considerando as que você já desperdiçou até agora, me dê um bom motivo para não encerrar aqui suas tentativas. Fingi pensar no que responder quando George O'Malley entrou na sala. Ele sorriu para Callie que correspondeu educada demais. Como sempre eu acabava enciumada. – Se você não encerrou minhas chances na primeira vez que te toquei é porque sabe que valho a pena. Você nunca disse que eu deveria parar. A reunião começou e algum tempo depois, Callie saiu para atender alguma ligação. Só voltei a vê-la quando retornei para a empresa, depois da reunião com a Apple, embora só faltasse poucos minutos para o fim do seu expediente. – Preciso falar um momento com a senhora, Mrs. Robbins. Não precisei responder que minha atenção estava focada nela, pois meu rosto inteiro deveria gritar isso. Ela segurava uma folha de papel com um carimbo do RH. Meu coração errou uma batida ao pensar na possibilidade de que fosse um pedido de demissão. – Eu tinha alguns dias acumulados de folga pendentes e dei entrada na tarde de ontem no RH a respeito da minha ausência a partir de amanhã e durante toda a próxima semana. Temos uma substituta temporária disponível, além de Lexie ter se prontificado para resolver qualquer pendência que apareça, embora eu duvide que ainda tenha alguma. Minhas sobrancelhas se ergueram um pouco olhando para o papel onde parecia estar faltando minha assinatura. Tirei uma caneta da bolsa e me inclinei suavemente sobre sua mesa para assinar a autorização de ausência dela. Estávamos de novo, próximas demais, o que nunca acabava bem, principalmente, em fins de expediente. – Algum motivo em especial para tirar só agora esses dias? Observei ela por um momento, talvez, ponderando que só queria se afastar o bastante de mim, contudo só recebi um dar de ombros enquanto ela murmurava algo sobre ser questões familiares. Eu esperava que não fosse nada grave. – Deixei anotado o meu número de celular e o da casa da minha mãe, para o caso de você precisar de algo, na lista de compromissos que a senhora terá amanhã. – Começou a passar os dedos por uma lista na frente dela, e eu observei o quão boa e eficiente ela era. Não que eu não fosse ciente disso, mas de alguma forma, parecia um pouco mais evidente para mim agora. Olhando para cima, os nossos olhos se encontraram e ela continuou. – Já irei para Gotham de Metrópoles, a senhora deseja que eu a busque no aeroporto? Nossos olhos se encararam por alguns momentos, e eu tinha quase certeza de que nossos pensamentos eram os mesmos; Gotham seria um teste colossal de autocontrole. Eu estava pronta para ser reprovada. O ambiente na sala começou a mudar lentamente, o silêncio dizia mais que palavras jamais poderiam. Cerrei a mandíbula firmemente quando eu notei que sua respiração tinha parado. Usei cada bocado de força de vontade eu tinha para não caminhar ao redor da mesa e beijá-la. – Então nos vemos em Gotham. – Respondi suavemente, o que significa mais do que as minhas palavras representam. – Tenha uma boa viagem, Calliope. Antes de seguir até minha sala, aproximei-me um pouco mais dela, desta vez ela não se afastou bruscamente. Ela apenas ficou parada. – Mande um beijo para sua mãe, palavras da minha. E guarde todos os seus beijos para mim. Foi o que pensei em dizer, mas não disse. Precisaria dar um jeito na minha covardia sentimental até a semana da conferência de Gotham.
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