Pré-visualização gratuita Teach me how to pray
A música do capítulo é Devil Pray, da Madonna.
x.x.x
Take my sins and wash them away
Tome os meus pecados e os lave
Teach me how to pray
Me ensine a rezar
I've been stranded here in the dark
Eu tenho ficado abandonado no escuro
Take these walls away
Leve estas barreiras embora
O sino badalou três vezes indicando a hora daquela tarde ensolarada. Em frente à Catedral Metropolitana, em Roma, a escada estava lotada de fiéis que deixavam a missa de sétimo dia de um político importante da capital italiana.
A batina branca do jovem padre era agora retirada e colocada no quarto ao lado do altar, devidamente pendurada em um cabide dourado. Tinha apenas 28 anos, era o padre mais jovem que já houvera passado pela paróquia, mas sentia-se orgulhoso por servir a Deus naquela cidade tão significativa para a igreja católica, apesar de ainda não ser de sua responsabilidade total.
O padre Harry Styles, um inglês de cabelo cacheado recém-chegado à Itália, ainda estava se acostumando com o clima, com o jeito mais caloroso das pessoas e principalmente com o idioma, o que lhe dava uma sensação estranha quando ele mesmo falava, por ter um sotaque muito acentuado. Voltou à sua vestimenta preta habitual, olhou-se no espelho quando a porta do armário de madeira se fechou e, com aqueles olhos verdes cintilantes, ele mirou a porta de saída, onde uma mulher estava parada e parecia aflita.
— Pois não? — A voz dele era calma, doce, extremamente reconfortante. — Posso ajudar a senhora em alguma coisa?
A moça não respondeu, apenas andou na direção do padre e o abraçou chorando. Em seguida, ajoelhou-se diante dele, segurando sua mão num típico gesto de respeito que alguns fiéis tinham em relação aos padres católicos. Harry não negou que até se sentiu um pouco constrangido, pois ter uma mulher que poderia muito bem ser sua mãe ajoelhada diante de si, era algo perturbador para ele, especialmente porque ela estava chorando dramaticamente.
— Levante-se, senhora, por favor. — Ele pediu gentilmente e, a segurando pela mão, ajudou-a a levantar-se. — Somos todos iguais perante o Senhor.
— O senhor é um representante divino Dele, padre. — Ela respondeu com extremo respeito, daquela forma cordial e gentil que ele estava acostumado a ouvir diariamente — Espero que não se incomode.
— Absolutamente não. — Ele sorriu tranquilizando a mulher que, só de estar na presença daquele homem de fé, sentia-se mais confortada e com o coração menos aflito. — O que a traz até aqui? Por que está chorando desse jeito, hum?
— É o meu filho, padre... — Ela começou e logo as lágrimas voltaram a brotar de seus olhos. — Há alguns meses, ele foi diagnosticado com um tipo raro de câncer no coração... — A senhora continuava e Harry ouvia atentamente enquanto a guiava para uma cadeira, pedindo num sussurro pra que ela se sentasse, temendo que aquele momento pessoal pudesse acarretar situações mais perturbadoras. — Desde então ele... Desistiu de viver, padre... E isso me deixa perdida, não sei mais o que fazer.
I've been swimming in the ocean
Eu estive nadando no oceano
Till I'm almost drowned
Até estar quase afogado
Give me something I can believe in
Me dê alguma coisa para acreditar
Teach me how to pray
Me ensine a rezar
— Eu sinto muitíssimo, senhora. — Ele respondeu com ar triste e pesado, era tão empático quanto realmente deveria, e aquilo arrebentava seu coração. — Se houver alguma coisa que eu possa fazer, estou aqui para ajudar. — Respondeu segurando nas mãos trêmulas da mulher, marcadas por veias saltadas enquanto seus cabelos castanho claro, beirando a um loiro calmo eram mesclados naquele mar de lágrimas que caía rapidamente de seus olhos.
— Eu já rezei todas as orações que conheço, ele não quer ver médico algum ou frequentar qualquer grupo de ajuda que seja... — Ela limpou as lágrimas que continuavam a cair. — Não quer nem sair de seu quarto mais, padre!
— Não há nada que o motive? Um esporte, algum hobby? Quem sabe uma namorada? — Harry era bastante prestativo, por mais que um sentimento estranho de insuficiência o acompanhasse de vez em quando, sabia seus limites, sabia separar bem sua fé de todo o resto.
— Ele é pianista... — Harry pode jurar que viu um brilho nos olhos da mãe do rapaz. — Piano é sua paixão desde criança... Já estava indo estudar em uma escola clássica, queria aprimorar suas habilidades e se tornar um artista... Mas agora parece que nem isso mais tem sentido para ele. — Ela baixou os olhos e suspirou forte, como se um peso enorme insistisse em estar em suas costas. — Ele não toca desde que soube da doença. — Fez uma pausa e encontrou os olhos bondosos do padre novamente, que agora parecia bem preocupado, acompanhados de uma testa franzida em milhões de dúvidas. — Eu estive pensando... Gostaria que o senhor fosse conversar com ele, o que acha?
Um dos motivos pelos quais Harry decidira seguir o caminho de seminarista era justamente o poder de ajudar as pessoas de uma forma mais espiritualmente acessível. Há quem diga que ele poderia ser o mais ingênuo tipo de ser humano, mas ele não se importava. Preferia viver acreditando ainda nas pessoas a ficar sem esperança.
— Eu acho que eu poderia fazer isso sim. — Ele respondeu calmo e ficou incrivelmente feliz por ver que, finalmente, o rosto daquela mulher chorosa agora parecia repleto de esperanças. O aliviava um pouco saber que podia fazer o bem sem muito esforço.
XxX
Louis Tomlinson estava deitado na cama com cobertas até o rosto. Não, ele não havia chorado, nem rido. Aqueles sete meses foram de total escuridão e caos interno, ele pareceu ter adotado uma expressão única. Não era tristeza, não era pena de si mesmo, não era angústia e nem falta de esperança. Era apenas... Nada. Nada além de uma indiferença profunda a tudo que estava a sua volta e todos.
Duas batidas na porta do quarto escuro e um rastro de luz correu pra perto de sua cama. Ele preferiu fingir que estava dormindo, quem sabe, quem quer que fosse, iria embora e poderia deixá-lo ali, remoendo mais um pouco daquilo que estava o cercando.
— Filho? — A voz de Johannah era um sussurro, que ao mesmo tempo poderia ensurdecer na mesma intensidade que acalmava. — Posso entrar?
Nada. Nenhuma resposta... Quem sabe ela fosse embora.
— Louis! — Ela repetiu um pouco mais alto. — Filho, acorda... — Entrou de vez no quarto, dirigindo-se até a janela e abrindo as cortinas, iluminando o ambiente sombrio que já era habitual naquele espaço apertado.
— Lou, tem uma pessoa que eu gostaria que você conversasse. — Ela começou, ignorando o comentário do filho. Sentou-se na cama ao lado dele e Louis apenas suspirou impaciente ao ouvir aquilo. Ela nunca desistia. Sempre insistia naquele jogo de querer tirá-lo da escuridão, de fazê-lo sorrir novamente, cuidar um pouco de si novamente mesmo que fosse aparente o destino que resolveu encostar-se por ali.
— Não quero, mãe. — Ele respondeu categórico. — Já disse que só quero ficar sozinho. Vou morrer logo mesmo, então, é bom irem se acostumando com a minha ausência, ok?
— Louis William Tomlinson! — Ela quase vociferou ao ver o filho falar daquele jeito. — Por favor, filho... Vamos encontrar um jeito, você não pode desistir, não desse jeito, não dessa forma. Quero apenas que você encontre um novo motivo pra continuar lutando.
— E pra que? — Ele não podia se conter. Era mais forte que ele. — Tenho menos de 5 meses, segundo os médicos, e não há nada que possa ser feito. Já aceitei isso tão bem, o que custa para a senhora fazer o mesmo?
— É a última vez, Louis. — Bem que ela poderia chorar, mas encontrou forças em algum lugar naquele coração de mãe que aguenta tudo e segurou as lágrimas, sabia que se demonstrasse fraqueza não conseguiria prosseguir com aquilo — Se dessa vez você realmente ver que não vai adiantar, vou te deixar em paz. — Ela fez uma pausa e encarou os olhos azuis opacos do filho, que perderam tanto brilho, que apertava seu peito fitá-los por muito tempo. — Vou encarar isso como um último pedido e, que Deus me ajude, vou te deixar em paz.
Louis nunca viu sua mãe tão firme antes. Durante os sete meses, ela implorou pra que ele visse médicos especialistas, psicólogos, psiquiatras, grupos de ajuda de todos os tipos, mas não. Ele não fora a mais que dois ou três encontros e consultas. Nada resolvia. Ele achou que sua mãe tinha uma boa cartada na manga pra dizer que aquilo era um ultimato. Conhecia bem aquela mulher e, de todas as vezes que insistiu para que aquilo desse certo de algum jeito, agora soava diferente.
— E de que se trata? — Ele limpou a garganta e pareceu um pouco interessado, mas não demonstrou tanto assim.
— Padre Harry virá aqui pra conversar com você. — Foi a resposta dela, calma e tranquila.
Louis balançou a cabeça negativamente e sorriu de um jeito apagado e irônico, daquele jeito como se desacreditasse da realidade, querendo que fosse só um jogo b***a onde ele pudesse encontrar um botão fácil de desistir. Por toda a sua vida, seu jeito sarcástico para lidar com as coisas lhe renderam bons sorrisos e momentos divertidos, e essa era sua essência, coisa que não lhe conseguiam tirar dele nem a força, nem mesmo através de uma doença.
Louis balançou a cabeça negativamente e sorriu de um jeito apagado e irônico, daquele jeito como se desacreditasse da realidade, querendo que fosse só um jogo b***a onde ele pudesse encontrar um botão fácil de desistir. Por toda a sua vida, seu jeito sarcástico para lidar com as coisas lhe renderam bons sorrisos e momentos divertidos, e essa era sua essência, coisa que não lhe conseguiam tirar dele nem a força, nem mesmo através de uma doença.
— Vai me obrigar a conversar sobre Jesus com algum velhote fanático e acha que isso realmente vai me ajudar? — Ele m*l acreditava na proposta da mãe. — Você não pode estar falando sério.
— Por favor, Louis. Se não quer fazer por você, faça por mim. — Ela insistiu, com os olhos em súplica. — Como o meu último pedido, por favor.
— Que seja. — Ele respondeu dando de ombros e revirando os olhos. — Mas não tenha esperanças, não quero que se decepcione comigo mais uma vez. Não é sua culpa se Deus me odeia.
— Deus não te odeia! — Ela respondeu enérgica, negando-se a ouvir aquilo.
— Seu filho vai morrer e ele parece que não está dando a mínima e você ainda O defende? — Ele retrucou com o mesmo tom sarcástico de sempre, com um sorriso fino de lado bem evidente, fazendo-o parecer ainda mais solitário do que realmente estava, pois nem mesmo desse jeito ele conseguia transparecer esperança sobre seu próprio estado.
— Existem várias maneiras de interpretar sua situação, meu filho. — Ela preparava-se já para deixar o quarto, mas achou que deveria terminar aquele diálogo de uma forma simples, pois seu coração abrigava tanto amor pelo filho, que desistir era uma palavra distante. E mesmo prometendo que deixaria Louis em paz caso aquilo desse errado, essa não era uma verdade concreta. — Se você escolheu a pior delas, não há nada que eu possa fazer. Mas, de repente, o padre Harry saiba.
Ela deixou o quarto e Louis resolveu que não iria perder seu tempo discutindo mais uma vez sobre o lado extremamente religioso da mãe. Um padre? Realmente ele tinha que admitir que ela estava totalmente desesperada em busca de alguma solução para algo tão impossível de alcançar.
Yeah we can run
Sim, nós podemos correr
And we can hide
E podemos nos esconder
But we won't find the answers
Mas não encontraremos as respostas
If you'll go down and you'll get help along the way
E se você cair, isso te ajudará durante o caminho
xXx
Na manhã seguinte, o padre Harry acordou em seu horário habitual, por volta das sete da manhã. Fez suas orações, tomou seu banho e fez toda sua higiene pessoal, passando seus dedos enormes pelos fios que caíam de forma leve em seus ombros. Sentou-se à mesa com seu café da manhã fresco e rezou novamente em agradecimento.
Ele sentia uma vibração divina de que seria um dia diferente. Talvez pelo sol estar mais ameno aquela época do ano ou por causa do horário, a brisa da manhã lhe fez sentir bem quando saiu de casa rumo à casa dos Tomlinson. Avisou seu sacerdote superior que iria fazer uma visita a pedido de uma fiel e apenas lhe pediu instruções sobre o endereço que ela lhe passara.
Vestia preto, é claro, apenas o sinal branco de pároco no colarinho, vestiu um casaco igualmente preto e pegou sua Bíblia. Seus cabelos se chocavam com aquele vento calmo e sua jovialidade raramente fazia as pessoas acreditarem que ele, de fato, era padre. Seu porte era de uma pessoa que passava uma confiança incomum, longe de alguém que poderia ser considerado tão devoto como Harry realmente era.
Ele foi a pé, admirando a paisagem da bela Roma aquela hora da manhã. A maioria das pessoas o cumprimentavam e algumas lhe pediam bênção, como algumas crianças, obviamente ensinadas de certo por seus pais. As mulheres baixavam os olhos em respeito e os homens tiravam o chapéu em forma de cumprimento.
Ser padre em Roma era ser quase uma celebridade poderosa. Harry nunca entendera essa posição, pois sentia exatamente o oposto. Sentia que era um servo. De Deus e das pessoas. Mas aprendeu com o tempo a concordar com o que lhe foi concedido e, se de alguma forma o fazia bem, ele não via problema que as coisas fluíssem daquele jeito.
Não foi difícil encontrar a casa dos Tomlinson, pois era de fácil acesso ao resto da cidade, tinha um jardim bonito em frente, com algumas flores no pequeno canteiro no centro, uns lírios espalhados de forma gentil no caminho que ia de encontro à porta. E a casa em si era grande, tinha dois andares e uma garagem ampla, mas sem nenhum carro aparente. Harry entrou na varanda e tocou a campainha duas vezes até que alguém lhe atendesse.
Johannah abriu a porta e sorriu ao ver de quem se tratava, pois esperou por aquele momento praticamente horas incontáveis e o padre retribuiu simpático o sorriso que iluminava seu rosto.
— Muito obrigada por vir, padre. — Ela pegou na mão direita de Harry e beijou, em forma de respeito.
— Não precisa agradecer, senhora. — Ele disse calmo, mas achando graça do certo fanatismo que Johannah ostentava, que não era incomum nas pessoas daquele local, mas que não deixava de ser admirável também. — Me pediu e aqui estou.
— Entre, por favor. — Ela abriu mais a porta dando espaço para que ele passasse. — Louis está no quarto, vou chamá-lo.
Harry assentiu com a cabeça e a mulher subiu as escadas a fim de chamar o filho. O padre olhou ao redor da sala, algumas fotos de família estavam alocadas em uma estante de mármore e uma bíblia enorme estava aberta mais acima dos retratos. Fitou alguns quadros na parede que eram revestidas por pequenas fotografias também e imaginou que o menino com boné e taco de beisebol fosse Louis, que na foto, não devia ter mais que dez anos. Olhou duas fotos num outro canto acima da lareira que mostrava uma moça loira, acadêmica formada e outro homem, também de beca.
Um belo piano de cauda, que parecia não ser usado há um bom tempo.
Ouviu o que parecia ser uma breve discussão no andar de cima e alguma porta bater. O padre parou de andar e fixou os olhos na escada, já que parecia que alguém descia.
Johannah retornou um pouco atordoada, acompanhada de um homem pequeno, que estava com a barba grande, uma camiseta azul, simples, e jeans rasgado perto dos joelhos. Pés descalços e uma cara de quem acabara de acordar e não havia sequer escovado os dentes ou arrumado os cabelos, que caíam em sua testa de forma graciosa.
Harry nem quis pensar no desafio que tinha pela frente. Ele não esboçou qualquer reação negativa, apenas esperou os dois se aproximarem para conhecer de perto aquilo que estava prestes a iniciar.
— Padre, esse é meu filho Louis, de quem lhe falei. — Johannah apresentou o filho extremamente sem graça pelo estado em que o homem se encontrava, mas o padre ignorou, pois sabia que tinha algo instalado ali que soava triste e desapegado.
— Muito prazer, Louis. — Harry sorriu de leve, simpático, mas o outro não esboçou nenhuma reação. Apenas pôs as mãos nos bolsos e encarou Harry como se ele fosse o ser humano mais entediante de todos. O que não era mentira na mente de Louis, que sempre achara um tédio toda a ideia de ser um padre, de encarar um e de estar na presença de um também.
— Vou deixá-los a sós. — Johannah se retirou e voltou a cozinha que ficava por trás da sala, deixando o padre sozinho com o filho que ainda estava naquela posição de impaciência mesclada a um desgosto evidente.
Harry tentou ler as feições de um Louis que o encarava fixamente agora, como se esperasse assustar o homem e que ele fosse embora logo e nunca mais voltasse. O menor deu alguns passos em direção ao sofá e sentou-se, preguiçosamente, entediado. O padre sentou-se na poltrona, de frente pra ele encarando-o com os olhos verdes cintilando em diversos tons e com as bochechas brancas um pouco rosadas pelo sol que tomara antes de chegar naquela casa.
— Dormiu bem, Louis? — Harry resolveu dar início a conversa e Tomlinson apenas continuou em silêncio, revirando os olhos e suspirando em um tédio incomum por estar se submetendo aquela vontade desesperada de sua mãe.
Em um pulo do sofá ele se sentou com calma, ergueu uma sobrancelha na tentativa de afrontar o homem a sua frente, mas notou que seus pensamentos eram estranhos por ver que suas expressões não mudavam a forma como o padre o encarava.
— Você não é velho. — Louis disse sorrindo sem achar muita graça na verdade, queria apenas comentar de forma indiferente.
— Presume que todos os padres sejam velhos? — Harry não se sentiu ofendido ou acuado com a malcriação, pois aprendeu em sua vida a lidar com qualquer tipo de pessoa e com suas atitudes inesperadas.
— A maioria é. — Ele rebateu, dando de ombros e formando um bico no lábios finos, como se não se importasse em dizer aquilo na frente de alguém que representava algo tão grande dentro de uma religião predominante de onde morava.
— Acho que devo ser a exceção então. — O padre respondeu sereno, mas não como se não se importasse com o que ouvira, já que se dispôs a estar ali, e não sairia até que entendesse bem com tudo o que acontecia com aquele homem a sua frente.
— Você deve ser louco. — Louis disse olhando sério, medindo Harry dos pés a cabeça, sem nem mesmo se importar de estar sendo um tanto invasivo.
— Por que você acha isso, hum? — O padre pareceu intrigado pra saber a linha de pensamento do outro, já que muitos o disseram aquilo e todos lhe davam respostas diferentes sobre o assunto em si, o que tornava engraçado saber como as pessoas pensavam de suas atitudes.
— Tem uma vida toda pela frente e... Resolve ser padre? Quem em sã consciência faz isso? — Louis não era lá muito fácil de lidar, na verdade nunca foi e aquilo não o incomodava. Ele imaginou que sendo ofensivo e sarcástico daquele modo, faria Styles desistir. Mas o impressionante é que ele não estava conseguindo irritar o padre de nenhuma forma.
— Escolhi dedicar minha vida ao Senhor, por que acha que isso é um desperdício? — Ele realmente queria saber, não era apenas uma pergunta com intuito de se impor.
— Não foi isso que eu disse... — Tomlinson riu, estranhando a colocação.
— Foi isso que quis dizer. — Harry permanecia com o mesmo sorriso, que rendia covinhas estranhas em suas bochechas, desmascarando aquela feição de padre sério.
— Quer dizer... Você poderia viajar, ter quantas mulheres quisesse... Digo, você é um cara bonito... — Louis disse e o moreno arqueou as sobrancelhas surpreso, deixando o menor sem graça de formas infinitas. — Quer dizer, se eu gostasse de homens, claro... — Louis falava e depois pensava, o que lhe rendia boas surras de seus próprios pensamentos. Agora iria querer o que? Discutir homossexualidade com um sacerdote? — Mas não, você prefere guiar missas e se vestir desse jeito engraçado, sabe? É estranho e nenhum pouco coerente.
— Gosto de saber que pensa assim, Louis . — O padre suspirou e enfim percebeu que não era bem um caso perdido, já que conseguia estudar muito bem aquele homem em sua frente sem muito esforço. — Ainda vê o valor da vida... Ainda quer aproveitar a sua de algum jeito.
— Que acaba daqui 5 meses, você quer dizer? — A ironia foi clara, mas não abalou o padre que tinha como um dever claro parecer positivo em relação a situações diversas da vida.
— Como tem tanta certeza?
— Os médicos têm.
— Deus é quem sabe, Louis.
— Ok, ok, padre... Corta essa, por favor. Se veio aqui pra me dar catequese, não estou interessado. — Ele tentou irritar Harry mas foi ele quem acabou irritado, principalmente porque o padre sorriu aberto agora que percebeu aquele ar estranho que o rondava.
— Não é isso.... Mas acho que você não é a pessoa mais aconselhada pra me falar sobre desperdício de vida. E já que você tem tão pouca, por que não a aproveita de outra maneira?
— Se não veio me dar algum tipo de lição de moral estranha que aprendeu na sua igreja, veio me dizer o que devo fazer com o que me resta de vida? — Louis suspirou entediado, querendo que aquele momento acabasse e ele pudesse se trancar no quarto, por mais que a voz do padre o prendesse no assunto.
— Pois é. — O padre respondeu como se fosse a coisa mais normal do mundo e Tomlinson ficou um pouco surpreso com o que pareceu ser prepotência do padre.
— Ah não me diga! E que te faz pensar que tem esse direito?
— Talvez o fato de você mesmo não saber o que fazer, me parece que alguém tem que vir até aqui te dizer, estou errado? — Styles sorria ainda, mas era calmo, não era pretensioso, era de forma confortante, quieta e serena.
— Cara, você é meio maluco, não é? — O menor cogitou de verdade que o padre fosse um pouco desequilibrado, e agora o encarava com a testa franzida e uma expressão confusa, querendo captar se aquilo fazia sentido de alguma forma, mas agora agia diferente diante daquilo, pois já tinha se passado tanto tempo desde que conversava com alguém que não fosse sua mãe ou médicos, que ter contato com alguém diferente fazia com que ele respirasse ares diferentes.
Para Harry não importava, a conversa estava fluindo e, para ele, isso era a coisa certa, o caminho certo, Louis estava falando e parecia cada vez mais envolvido na conversa, parecendo gostar de saber que alguém realmente queria ouvi-lo, e não apenas fazê-lo por obrigação, por estar sendo pago para ouvir os problemas dos outros. Tinha se cansado de ser reprimido por ser quem era, de não ser ouvido por ter aquele tipo de pensamento adverso da grande maioria e, por mais que estivesse frente a frente com um padre, sua postura estava mais para alguém interessado do que indignado.
Johannah, pela primeira vez em meses, sentiu a chama da esperança voltar ao seu coração quando viu o filho, pelo menos, não mandando o homem embora como esperava antes do padre chegar a sua casa. Literalmente um enviado de Deus, ela pensou.