02 — Mariana Narrando
A minha vida antes de subir o morro era simples, comum e, para ser bem sincera, extremamente cansativa.
O pai da Malu? Um erro de juventude que nem vale a pena lembrar. Ele desapareceu antes mesmo de eu ouvir o primeiro batimento cardíaco da minha filha no ultrassom. Fui mãe muito nova, sem preparo nenhum, e por anos achei que aquela rotina de acordar cedo, trabalhar pesado e voltar para casa para trocar fralda seria o meu único destino.
Eu nunca fui uma mulher encostada. Sempre gostei de ter meu próprio dinheiro e batalhei muito. Trabalhava direitinho, tinha minha dignidade, e com a ajuda da minha mãe, nunca deixamos faltar nada dentro de casa. Mas o cansaço cobrava o seu preço. Eu olhava no espelho e sentia que a minha juventude estava escorrendo pelos dedos.
Tudo mudou no dia em que uma amiga me chamou para fazer um bico em uma loja de roupas lá no morro.
A princípio, fiquei receosa. Mas precisava da grana e fui. Comecei a trabalhar nessa loja, e não demorou muito para o Henrique dar as caras por lá. Ele já era o homem que mandava em tudo, exalava poder, respeito e uma autoridade que arrepiava. Mas tinha um detalhe: ele era casado. Tinha outra mulher, uma história antiga ali dentro.
Só que a química entre a gente foi instantânea. Começamos a nos envolver no sigilo, em encontros escondidos e cheios de adrenalina, até que o sentimento falou mais alto. Com o tempo, o Henrique largou a esposa para assumir de vez o que tinha comigo. Ele me queria ao lado dele. Me queria na casa dele.
E foi aí que eu tomei a decisão que mudaria tudo.
Eu não quis levar a Malu comigo.
A verdade é desconfortável, mas é a pura verdade: eu não queria levar a responsabilidade de ser mãe para aquela nova fase. Minha mãe, que sempre amou a neta e tinha uma paciência que eu nunca tive, se ofereceu para continuar com a garota na casa do asfalto. Eu agarrei essa oportunidade com as duas mãos.
Comecei a viver como se não tivesse filha.
E, meu Deus, como aquilo era bom. Pela primeira vez na vida, eu experimentei o gosto da liberdade. Era incrível poder chegar em casa de madrugada sem hora para dar satisfação, dormir até mais tarde sem choro no ouvido, tomar um banho demorado, comer em paz e curtir o meu homem sem preocupações. O que era para ser uma fase temporária acabou virando a minha rotina definitiva.
É claro que eu nunca fui uma monstra. Nunca deixei faltar absolutamente nada para a Malu. Se minha filha queria uma roupa cara, eu comprava. Tênis de marca? Pix na hora. Festa de pijama com decoração de luxo? Eu contratava a melhor empresa. Passei a vida inteira transferindo dinheiro, pagando cada conta, garantindo que ela e a minha mãe tivessem todo o conforto do mundo longe da poeira do morro. Essa era a minha forma de suprir a distância. Na minha cabeça, se ela tinha do bom e do melhor, não tinha do que reclamar.
Nas poucas vezes em que ela vinha me visitar na casa do Henrique, a dinâmica era rápida, fria. Ela chegava, passava duas ou três horas ali, comia alguma coisa, mexia no telefone e logo voltava para a casa da minha mãe. O Henrique m*l interagia com ela; para ele, a Malu era apenas a garotinha quieta da mulher dele.
Conforme os anos foram passando e a Malu foi crescendo, aquilo foi esfriando ainda mais. De repente, ela virou adolescente. Parou de mandar mensagens carinhosas, parou de ligar para contar da escola. Nossos contatos viraram meramente transacionais: um link de produto enviado por mensagem, uma foto de etiqueta de preço e um comprovante de transferência da minha parte.
Para mim, o arranjo estava perfeito. Eu tinha o conforto do morro, o status de ser a mulher do Rico e a consciência tranquila de que a minha filha estava bem cuidada e sem necessidades.
Eu só não contava que aquela menininha de laço no cabelo fosse completar dezoito anos e virar um furacão imprevisível.
Eu estava no quarto, terminando de me arrumar para almoçar com o Henrique, quando o meu celular começou a tocar desesperadamente na mesa de cabeceira.
Era a minha mãe.
Atendi já esperando alguma reclamação boba de dona de casa, mas a voz dela veio embargada, trêmula, carregada daquele desespero de quem não dormiu a noite inteira.
— Mariana, eu não aguento mais. Eu juro por Deus que não aguento mais! — a minha mãe disparou, quase sem respirar. — A Maria Luísa não dormiu em casa, Mariana! Sumiu ontem à tarde, não atende a p***a do telefone, não avisou ninguém. Essa garota tá solta no mundo! Você precisa dar um jeito na sua filha!
Sentava na borda da cama com o sangue subindo direto para a minha cabeça.
A Malu tinha acabado de fazer dezoito anos e achava que era dona do próprio nariz. O problema não era nem ela sair, era o desrespeito de deixar a minha mãe — uma idosa — morrendo de preocupação a noite toda.
Desliguei com a minha mãe prometendo resolver e liguei para o número da Malu. Uma, duas, três vezes. Na quarta tentativa, quando eu já estava pronta para mandar os caras da contenção do Henrique irem atrás dela na pista, a abençoada resolveu atender.
— Fala, Mariana — a voz dela veio preguiçosa, abafada pelo barulho de lençóis se mexendo.
— Aonde você tá, Maria Luísa?! — esbravejei, sem nem tentar conter o tom. — Você tem noção do estado em que a sua avó tá? A mulher passou a noite em claro achando que você tinha sido sequestrada ou morta! Você não tem vergonha nessa sua cara, não?
Do outro lado da linha, veio um suspiro longo e debochado.
— Nossa, pra que essa agressividade toda logo cedo? — ela respondeu com uma calma irritante, sem um pingo de culpa na voz. — Eu tô viva, tá vendo? Tô ótima. Não precisa surtar.
— Não precisa surtar?! Você sumiu a noite inteira! Aonde você dormiu, garota?
— Na casa de um amigo — ela soltou, com aquele tom de quem sabe exatamente qual botão apertar. Eu conseguia até ver o sorriso de canto de boca dela do outro lado da linha.
— Amigo o c****e! Você tá na casa de homem, né, Maria Luísa? Você virou essa pouca vergonha agora? Sai de casa, não dá satisfação pra ninguém, faz a sua avó passar m*l de nervoso... Você tá achando que a vida é uma festa?!
— Ai, Mariana, para de drama — o deboche na voz dela era quase palpável. — Eu tenho dezoito anos, sabia? A senhora vive me mandando dinheiro pra eu aproveitar a vida, não é? Pois é, tô aproveitando. Achei que você fosse ficar feliz.
Aquela resposta foi como um tapa seco na minha cara. A garota não gritava, não jogava na minha cara que eu não criei ela, não fazia escândalo. Ela simplesmente se fazia de tonta, usando um sarcasmo afiado que me deixava sem chão.
— Olha como você fala comigo, eu sou sua mãe! — gritei, levantando da cama e andando de um lado para o outro no quarto. — Você vai juntar suas coisas agora mesmo e vai voltar pra casa da sua avó pedindo desculpas de joelhos!
— Hm... não tô com muita vontade de ir pra lá agora não — ela soltou uma risadinha baixa, e ao fundo ouvi a voz de um garoto chamando por ela.
— Maria Luísa… — eu comecei a falar quando ela me cortou
— Ai mãe, to ocupada! Depois te mando uma mensagem. — ela desligou na minha cara.
A linha ficou muda.
Fiquei encarando a tela do celular com o peito subindo e descendo de raiva. A menininha quieta que aceitava meus presentes sem dar trabalho tinha sumido. No lugar dela, tinha surgido uma garota debochada, petulante e que parecia não ter medo de nada nem de mim, nem do morro, e muito menos do homem que mandava naquele lugar.