03 — Henrique Narrando
A Rocinha não é só a maior favela da América Latina; ela é um organismo vivo, pesado, barulhento e implacável. E o meu berço foi bem no meio desse caos.
Diferente de muita gente que acha que eu caí de paraquedas no comando, a verdade é que eu já nasci com esse destino traçado. Meu pai era o dono do morro muito antes de eu saber o que era uma arma de verdade. Enquanto outras crianças cresciam empinando pipa ou jogando bola na rua, os meus brinquedos de infância eram notas de dinheiro amarradas com liga de borracha e pistolas de plástico que eu fingia serem fuzis de verdade. Eu aprendi a andar ouvindo o eco de tiros ao longe e entendendo que respeito, ali em cima, não se pedia — se conquistava.
O meu velho não era um homem de recantos pacíficos na juventude. Ele governava com pulso de ferro, e eu fui criado à sombra dessa autoridade, aprendendo a olhar nos olhos das pessoas e a identificar quem era leal de quem era traidor antes mesmo de fazer barba. Eu respirava o asfalto quente, a poeira e a tensão constante daquele lugar.
Muita gente pensa que a vida no crime acaba sempre na cova ou na cadeia, mas o meu pai quebrou essa estatística. Ele fez o nome dele, acumulou o que tinha que acumular, estruturou o império e, na hora certa, passou o bastão para mim sem precisar morrer por isso. Hoje, ele e minha coroa estão curtindo uma aposentadoria sossegada em uma fazenda longe do Rio, respirando ar puro, criados longe do barulho de fuzil e do cheiro de pólvora que marcou a nossa vida inteira.
Quando assumi o lugar dele na Rocinha, eu já sabia exatamente como as engrenagens giravam. Construí meu nome, endureci o que ainda era mole e mantive tudo sob controle absoluto por anos.
E foi justamente nessa época, quando passei a frequentar a boca de fumo oficialmente e assumir as responsabilidades do meu pai, que o meu apelido pegou de vez.
No começo, os moleques da antiga me olhavam de canto de olho e me zoavam por causa do meu estilo. Eu não era aquele tipo de menor que passava sufoco ou que precisava do movimento para colocar prato de comida na mesa. Eu era o filho do dono. Um playboy da favela, assumido e sem um pingo de modéstia.
Andava no ouro puro, pesado, com correntes grossas de elo duplo que reluziam no sol do meio-dia. No pulso, só relógio importado do bom. As melhores roupas de grife, os tênis mais caros do mercado que nem tinham chegado direito no Brasil e, no dente, aquele brilho que marcava presença de longe. Eu não economizava em nada. Enquanto a maioria ali lutava pelo básico, eu sobrava no luxo, bancando do bom e do melhor porque tinha bala na agulha para isso.
Toda vez que eu brotava no plantão carregado de joias, o pessoal tirava onda:
— Lá vem o playboy... Pô, o cara é rico demais, tá maluco!
A zoação de pé de favela acabou pegando. O "Rico" começou como uma tirada com a minha cara de garoto ostentação, mas conforme fui crescendo, ganhando espaço e mostrando que não era só fachada, o tom mudou. O apelido deixou de ser uma piada para virar sinônimo de respeito e autoridade máxima na comunidade.
Se você me perguntasse há alguns anos, eu diria que esse vulgo me definia por completo. Rico de poder, rico de influência, rico de grana e de controle absoluto sobre a Rocinha inteira. Ninguém ousava questionar, ninguém entrava no meu caminho e absolutamente nada acontecia sem a minha autorização.
Sempre foi assim: mulher nunca foi problema na minha vida. Na posição em que eu estou, o fetiche pelo poder atrai mais gente do que você consegue contar. É o normal do crime. Novinha chorando em pé de bandido, disputando atenção na boca, querendo colar com quem manda para ostentar status na favela... isso aí é mato.
Eu nunca precisei correr atrás de ninguém. Nunca mudei uma vírgula do que eu sou para agradar mulher e muito menos implorei por carinho. Se uma ia embora, no mesmo dia tinha dez na fila querendo entrar no lugar.
Com a Alessandra não foi diferente.
A gente se conheceu quando eu ainda estava no começo da caminhada, longe de assumir o topo da Rocinha. A gente era novo, eu achei a garota bonita, gostei da ideia de ter uma mulher fixa ao meu lado e acabamos casando. Naquela época, fazia sentido. Ela me acompanhou no início de tudo, sabia como o sistema funcionava e garantia a fachada da casa de um homem respeitado.
Só que o tempo passa, e o que era para ser um casamento virou uma rotina morna. Ela sabia das minhas escapadas porque, no meu meio, fidelidade absoluta é ilusão e aceitava a vida confortável que eu dava em troca. Virou uma relação de conveniência.
Com a Alessandra nunca rolou essa parada de ter filho. Para falar a verdade, lá no fundo eu achava que nem podia gerar uma criança, porque os anos passavam, camisinha passava longe e barriga nenhuma crescia. E, quer saber? Para mim estava ótimo. No meu ritmo de vida, semear filho no mundo era só arrumar um ponto fraco para os inimigos atingirem.
O tempo foi rodando até o dia em que a minha rotina foi quebrada por causa de uma lojinha de roupas ali mesmo na Rocinha.
A Alessandra tinha ido lá fazer umas compras e me ligou pedindo para eu mandar alguém entregar o dinheiro. Como eu já estava passando perto do miolo, resolvi parar o carro e levar a grana eu mesmo.
Foi eu colocar o pé dentro do estabelecimento para o meu olhar bater direto na Mariana.
Puta que pariu. A mulher era um espetáculo. Loira, alta, corpão moldado e uns olhos verdes tão intensos quanto os meus. Ela não tinha aquela cara de assustada de quem vê o dono do morro entrar; tinha uma postura firme, profissional, mas que exalava uma sensualidade sem esforço.
Daquele dia em diante, o meu caminho mudou. Eu, que m*l pisava naquela rua, passei a inventar mil rotas só para passar de carro em frente à loja e dar uma olhada na vitrine — ou melhor, na vendedora.
Para puxar assunto sem dar na cara de primeira, entrei na loja num fim de tarde fingindo que queria comprar um presente surpresa para a Alessandra.
— Boa tarde. Preciso de uma ajuda aqui — falei, encostando no balcão e olhando no fundo daqueles olhos verdes. — Quero levar um vestido bonito para a minha mulher, mas não entendo nada disso. Qual o seu nome?
— Mariana — ela respondeu, com um sorriso de canto de boca que me desarmou. — Pode deixar que eu te ajudo, Henrique.
Comprei o vestido mais caro da arara só para trocar dez minutos de ideia com ela. Só que a Alessandra não era boba. Quando cheguei em casa e entreguei a sacola, em vez de ficar feliz, ela fechou a cara na hora. Já devia estar ouvindo os fofoqueiros do morro comentando que o Rico estava batendo cartão na loja de roupa.
— O que é isso, Henrique? — a Alessandra disparou, jogando a sacola em cima da mesa com ignição total. — Desde quando você entra em loja feminina para me comprar presente? Você acha que eu sou otária? Tá achando que eu não sei que você tá nojo por causa daquela vendedora loira?
— p**a merda, Alessandra, você é maluca, sabia? — ironizei, tirando a camisa e balançando a cabeça, bancando o indignado. — Olha o nível da sua surtada! Eu passo na loja, vejo um vestido bonito, lembro de você, gasto uma nota para te dar um agrado e você me vem com crise de ciúme por causa de vendedora?
— Vendedora que você não tira o olho! O morro inteiro tá comentando que você não sai daquela rua!
— A mulher só foi educada comigo, p***a! Me atendeu bem e me ajudou a escolher uma parada que ficasse bem em você! É f**a, né? Eu tento te agradar, tento fazer uma média para ver se o nosso casamento sai do zero e você me vem com esse papelão. Depois reclama que a gente tá frio, que eu não te dou atenção, que o casamento tá uma bosta! Desse jeito fica difícil mesmo.
Deixei ela surtando sozinha na sala e fui tomar meu banho. Ela caiu no caô, achando que a doida da história era ela, enquanto a minha mente já estava totalmente ocupada pensando em como e quando eu ia dar o bote na Mariana.